terça-feira, 21 de julho de 2015

Austeridade feliz e infeliz


Austeridade é rigor no controle de gastos, redução de despesas e do consumo, poupança de recursos. Pode ser adotada voluntaria e conscientemente como uma aspiração, ou pode ser imposta a terceiros que não a desejam.

As políticas de austeridade econômica executadas de fora para dentro e de cima para baixo sobre países e populações que descontrolaram suas finanças despertam indignação e rejeição, frustram desejos e tornam-se motivo de sofrimento. Tais pessoas ou sociedades são obrigadas a reduzir suas aspirações de consumo que consideram que lhes traz bem estar material. Tais políticas econômicas de austeridade têm uma conotação negativa, de privação de bens materiais e de redução do conforto que os acompanha. Os governos que as adotam sofrem resistências.  Imposta, a austeridade é sentida como algo indesejado, como negação de um direito. Trata-se da austeridade infeliz.

Austeridade feliz é a proposta do ecologista Pierre Dansereau, de se adotar um modo de vida escolhido consciente e voluntariamente.  Pierre Dansereau foi pioneiro ao intuir a necessidade de reduzir o consumo material para poupar os recursos da natureza. É uma atitude de vida capaz de harmonizar o ser humano com o ambiente, um modo de vida que reflete uma visão compassiva e solidária. A renúncia ao luxo e ao supérfluo, a contenção e limitação voluntária do consumo reduzem os impactos ambientais da ação humana. Ela vai na contramão dos apelos consumistas, valorizados pela propaganda como relevantes para a felicidade. Na linha do não consumismo, da simplicidade voluntária, da frugalidade, do conforto essencial e da sobriedade, a austeridade feliz leva a um modo de vida que reduz o peso da pegada ecológica sobre a terra.

Frugalidade é sobriedade, temperança, parcimônia, simplicidade de costumes, de vida. O economista Herman Daly, voz respeitada pela sua sensibilidade ecológica, afirma que precisamos superar a idolatria do crescimento e o apego irracional ao crescimento exponencial contínuo num planeta finito sujeito às leis da termodinâmica. Podemos desenhar e gerir uma economia estável, que respeite os limites da biosfera. Onerar o uso de recursos naturais por meio de reforma tributária ecológica estimularia a frugalidade, refreando a demanda. Assim, por exemplo, um imposto sobre o carbono provocaria, como resposta adaptativa a combustíveis mais caros, a eficiência e a redução de desperdícios. Ele defende que primeiro se adote a frugalidade para então, como consequência, ter a eficiência. Pois na política energética e climática “quanto mais se aumenta a eficiência das máquinas, maior o incentivo para que sejam mais usadas, maiores mercados terão e o resultado é que o efeito e impacto agregados, ao invés de diminuir, aumentarão.” Os ganhos obtidos pelas ações na ponta da produção são neutralizados e transformados em perdas, pelo aumento global de emissões de gases devido ao aumento da população e de suas aspirações de consumo. Aumentar a ecoeficiência e a produtividade, bem como reduzir desperdícios de materiais e de energia constituem parte da resposta à questão do aquecimento global. A outra parte da resposta pode ser dada pela frugalidade do consumidor, do cidadão e da sociedade. A frugalidade pode reduzir a emissão de CO2 na atmosfera e a emissão de todos os tipos de resíduos na biosfera. Há exemplos históricos de frugalidade em antigas civilizações.  Gandhi disse que “A civilização, no verdadeiro sentido da palavra, não consiste em multiplicar nossas necessidades, mas em reduzi-las voluntariamente, deliberadamente.”  Milenarmente, a Índia adotou estilo de vida simples e frugal, desenhou e geriu uma economia que respeitou os limites da biosfera. Sacralizou bichos e plantas. Adotou o vegetarianismo, organizou-se espacialmente numa rede de pequenas aldeias, adotou posturas corporais que reduzem a demanda por objetos.  Mas na Índia atual os apelos ao consumo se exacerbam e com eles a pressão sobre a natureza e o clima. A frugalidade adotada voluntariamente por milênios cede lugar a estilos de vida predatórios de uma classe média consumista e a aspirações de consumo  material crescentes por parte daqueles que sofrem privações.

Simplicidade voluntária também é uma opção deliberada de quem escolhe reduzir suas demandas de consumo em prol de colaborar para poupar os recursos da natureza. Duane Elgin foi pioneiro em escrever um livro sobre a simplicidade voluntária  e distingui-la da pobreza forçada e involuntária.

Outro conceito correlato é o de conforto essencial, entendido como o nível de conforto básico que traz bem estar e que evita o supérfluo e o consumismo. Para que ele seja adotado voluntariamente, é preciso dissolver os desejos por aquisição  de mais bens, mais viagens, mais eletrodomésticos, mais conforto material, que têm como consequências mais poluição e mais gastos de recursos naturais. Em alguns casos o conforto essencial,  implica em virar a própria mesa e sair do comodismo e do conformismo.  

A diferença entre a austeridade infeliz e a austeridade feliz está na motivação e na atitude de quem  a adota e vive. Num caso, é vista como privação e frustração. Noutro caso, é uma escolha voluntária e ecologicamente consciente.



terça-feira, 14 de julho de 2015

Relações internacionais, uma abordagem ecológica.



Relações internacionais, uma abordagem ecológica.

Maurício Andrés Ribeiro

As relações internacionais podem ser enfocadas numa abordagem ecológica.
No mundo natural há relações ecológicas desarmônicas ou negativas; entre elas o parasitismo, a predação, o escravagismo. Há também relações harmônicas, tais como a simbiose, o comensalismo, o mutualismo.
Entre países e povos, há relações de colaboração, de competição, de opressão, de dependência. Países que derrotam militarmente ou que colonizam outros exercem o parasitismo (ao sugar seus recursos), a predação (ao tratá-los como presas), o escravagismo (ao subjugarem seus povos e os espoliarem). Há países e sociedades que canibalizam ou que parasitam outros, extraindo seus recursos. Na história do colonialismo há vários exemplos disso, como Portugal com o Brasil, a Inglaterra com a Índia etc.
Países que cooperam entre si exercem relações ecológicas harmônicas, tais como a simbiose ou o mutualismo (a capacidade de se complementarem e adaptarem mutuamente). Somam forças, formam coalizões e alianças militares ou econômicas, protegem-se contra terceiros e estrangeiros indesejados. Exemplo disso são os filtros e barreiras à migração de pessoas pobres, vistas como parasitas que vão disputar os recursos com os nativos de países ricos.
Dentro de países federativos há relações de competição (guerra fiscal, disputas por água e outras) entre os estados e relações de cooperação. Numa federação, parte da soberania de cada estado é cedida a um governo nacional.
O que viabiliza uma federação? Uma moeda comum é importante mas não suficiente.  Tampouco é a língua comum, (a Índia é uma federação com muitas línguas) ou uma religião comum (idem).  São fatores relevantes para cimentar uma federação a vontade política de permanecer juntos, superando diferenças; a percepção de que os benefícios de permanecer juntos são maiores do que os custos; a consciência de que os riscos de se permanecer juntos são menores do que os riscos se houver uma separação. (Riscos de guerras, de insegurança).
Separatismos quando regiões se sentem prejudicadas por participar de uma federação. (Catalunha e pais basco na Espanha, Quebec no Canada)
Cada federação tem sua história. Nos Estados Unidos da América, foi preciso uma guerra civil para manter a unidade. A Federação indiana foi alcançada depois de uma longa luta pela independência. Já a federação brasileira foi formada com estados herdeiros das províncias existentes no império e das capitanias hereditárias do Brasil colônia.
 A federação europeia ainda está em sua pré-história. Os fundadores da União Europeia tiveram uma visão e procuraram formas de evitar guerras entre os países daquele continente. Guerras que trouxeram ao Brasil meu bisavô Luiz Andrés, da Alsacia conflagrada entre a França e a Alemanha.
A Europa se unificou monetariamente, criou o euro, uma moeda comum e encontra-se ainda num estágio embrionário que poderá vir a tornar-se uma federação.
Uma perspectiva materialista, pragmática e utilitarista e sem ideais e valores mais intangíveis gera uma união corporativa, centrada em seus interesses internos e insensível ou egoísta, refrataria a demandas externas (por exemplo, as dificuldades de migrantes obterem guarida na Europa, morrendo afogados no mediterrâneo). A exclusão dos estrangeiros pobres, migrantes indesejados e ao mesmo tempo todas as facilidades para os estrangeiros ricos. Aos ricos, tudo; aos pobres, o mar. A Europa é pouco hospitaleira para os estrangeiros pobres e pratica uma hospitalidade seletiva que facilita a vida dos ricos e exclui ou abandona a própria sorte os pobres.
Numa relação predador-presa, o predador não pode exterminar a presa totalmente, pois isso se volta num efeito bumerangue contra si próprio. A derrota numa guerra militar ou numa guerra econômica supõe não o extermínio do adversário ou inimigo, mas a possibilidade de voltar a conviver com ele em novas bases.
Diante de crises como a atual crise grega, uma saída de futuro para a União europeia é evoluir para uma federação e deixar de ser a zona de uma moeda. Nesse ponto, pode aprender com outras federações, como a americana, a brasileira, a indiana, que não se chamam zona do dólar, do real ou da rupia.
Numa tal federação, todos os países, e não apenas a Grécia, cederiam parcela da soberania e adotariam uma união fiscal e bancaria, para além da união monetária. Quando as relações internacionais se reduzem a relações contábeis entre devedores e credores, há necessidade de expandir a abordagem e trata-las como relações ecológicas.
Mas para isso é preciso, mais do que banqueiros e políticos com seu pragmatismo de curto prazo. São necessários visionários, sonhadores, utopistas, com clareza para levar adiante uma união para que se torne uma federação. No contexto atual isso significa ter uma visão mundialista, para além das fronteiras continentais ou nacionais. Ter generosidade pra com os povos externos à blindagem egoísta que procura preservar e garantir privilégios conquistados a partir de parasitismo e predação do mundo colonizado.
Ir além de uma visão autocentrada eurocêntrica e ver o mundo de modo mais global. Isso falta e sobre pragmatismo e realismo míope.
Quando será que os cidadãos europeus vão demandar uma federação que vá além do atual estágio incompleto da União europeia com sua moeda única? Quando a Europa superar suas dificuldades e tornar-se uma federação mais um passo terá sido dado para se avançar em direção a uma federação planetária em que os valores da solidariedade, liberdade e igualdade sejam exercidos.
Há entre os países e povos relações ecológicas desarmônicas e negativas de parasitismo, predação e escravagismo que precisam dar lugar a relações ecológicas harmônicas de simbiose, comensalismo, cooperação.
Nessa dinâmica, é relevante a ação de líderes visionários capazes de colocar em prática ideias federalistas e mundialistas expostas por europeus como Kant, Teilhard de Chardin, Bertrand Russel, Norberto Bobbio, Plotino, de americanos como Charles Pinckley e Thomas Madison, de persas como Bahá'u'lláh, de indianos como Sri Aurobindo, Gandhi, Jawaharlal Nehru,  bem como do brasileiro Josué de Castro.




terça-feira, 30 de junho de 2015

Introdução à educação integral

A educação integral é distinta de educação em tempo integral e de educação integrada. Sraddhalu Ranade é cientista, educador e professor que reside no Sri Aurobindo Ashram em Pondicherry, Índia. Ele elaborou um inspirador guia de introdução à educação integral para professores e pais. (INTRODUCTION TO INTEGRAL EDUCATION - An Inspirational Guide, de Sraddhalu Ranade, publicado por Sri Aurobindo International Institute of Educational Research, Auroville, 2007).
Ranade constata que o mundo atual passa por crises múltiplas e gigantescas nunca vistas na história humana: crise ambiental, climática, política, econômica, de relacionamento internacional, na religião, na política, na administração, da educação, nas famílias que tendem a se fragmentarem, crises individuais. Tais crises se intensificaram em progressão geométrica nos últimos anos e podem desembocar numa explosão e colapso ou, então, em algo novo. A educação é uma chave para se superar as crises, ao preparar as novas gerações.
 Ele afirma que o objetivo mais alto da educação é produzir um ser humano melhor, capaz de transcender a condição humana, superar a si próprio e à natureza. Em livro e seminário gravados para treinamento de professores, o objetivo não foi “discutir diferentes técnicas de educação, mas levar aos participantes uma maneira radicalmente diferente de experimentar a educação e o nosso papel nela como professores e pais – e gradualmente crescer em direção a uma nova atitude em relação ao todo da própria vida, pois os dois são inseparavelmente unidos.” O livro se fundamenta nos princípios das filosofias e modos de ser que evoluiram por milênios numa das duas civilizações mais sustentáveis e resilientes que já existiram, a civilização indiana (a outra é a chinesa). O autor “enfrenta o desafio de reconstruir as bases da educação sobre as percepções psicológicas mais profundas inatas para a civilização indiana, e dá uma forma concreta para a nova mentalidade que deve permear a educação futura da humanidade.
Com base em programas de formação de professores de Educação Integral realizados pelo autor na Índia, mostram-se as grandes linhas ao longo das quais os professores, pais e escolas podem fazer uma transição suave para o novo paradigma educacional. O livro chama o leitor para uma viagem experimental de auto-descoberta, rica em idéias de mudança de vida e sua aplicação prática no ensino de todos os dias e na paternidade. Ele inspira e reacende nossas aspirações mais profundas e restaura a fé em nossos ideais, mostrando o caminho para a sua realização e satisfação.” A palestra focaliza o modelo mental (mind set).
 A partir dessa abordagem e atitude filosóficas fluem metas, técnicas, práticas. A educação integral exige uma mudança psicológica interna, sendo uma abordagem a partir dos sentidos e do coração. Ranade observa que há três atores principais na aprendizagem escolar: os professores, os pais e os estudantes. Professores e pais têm uma responsabilidade sagrada. A tarefa dos professores e dos pais é ajudar a criança a ser o que escolheu ser, regar a semente, deixar crescer, encorajar e dar força, não focar nas fraquezas.
A criança sabe o que quer ser. A criança carrega a semente do conhecimento em si; ela já sabia e, aprendendo, descobre que já sabia!.
O professor tem suas expectativas, aspirações e papéis, bem como seu entendimento das várias atividades na escola. Ele deve pensar lateralmente e iniciar mudanças no atual ambiente e ethos de ensino em sala de aula, que é altamente estruturado, rígido em termos de controle de tempo e orientado para exames.
 Como ensinar?
O que ensinar?
Por quê ensinar?
 Ensinar para obter emprego e renda?
 O treinamento e capacitação de professores são aspectos estratégicos da educação integral, pois eles são atores chave para facilitarem a aprendizagem.