terça-feira, 8 de setembro de 2015

O gerenciamento integral do ciclo da água






As águas se interconectam na natureza. Evaporam com o aumento de temperatura, depois se precipitam como chuva, neve ou granizo; escorrem nas águas superficiais, se infiltram no solo e brotam em nascentes. As águas fluem em vasos comunicantes, aéreos, subterrâneos e superficiais.
A hidrosfera compreende as águas em estado sólido, líquido ou gasoso; águas subterrâneas, na superfície ou na atmosfera. A gestão integral do ciclo da agua vai além da gestão integrada de recursos hídricos superficiais e subterrâneos e inclui também aquilo que se passa quando ela se encontra na atmosfera. A gestão integral do ciclo da água demanda compreender as interconexões entre os vasos comunicantes do que ocorre quando ela escorre superficialmente, se infiltra nos solos e forma os lençóis de agua subterrâneos e se encontra em estado meteórico, de vapor na atmosfera.
Isso deve ser feito de preferência com números e séries históricas que deem embasamento às propostas. A falta de dados e informações não deve ser um pretexto para a inação, pois há princípios de prudência que precisam ser seguidos. A compreensão qualitativa do que ocorre no ciclo da água indica o rumo que as ações de planejamento e gestão devem tomar.
O conhecimento sobre o organismo da Terra e os ciclos biogeoquímicos permite compreender como fenômenos numa parte do globo afetam as demais. Assim, por exemplo, o fenômeno do El Nino, o aquecimento das águas do pacífico, influi diretamente sobre a distribuição de chuvas na América do sul, agrava secas no nordeste brasileiro e provoca inundações no sul do país. É crescente o conhecimento sobre a atmosfera, seu teor de umidade e o vapor d’água nela existente, sobre evaporação, evapotranspiração (a evaporação a partir das plantas).  Pesquisas que recenseiam as nuvens tais como o projeto Chuva, do INPE, permitem prever tempestades e simular impactos das mudanças climáticas.
A transposição de água de uma bacia para outra pode ser feita por meio de obras de infraestrutura de engenharia que transportam águas superficiais. Também é feita pela natureza por meio dos rios voadores, sendo a umidade do ar transportada pelas nuvens de uma região a outra, de uma bacia para outra.  Trata-se de um modo natural de transposição, econômico, sem demanda de energia. Esse modo está crescentemente influenciado por ações humanas ao desmatar, ao criar aglomerados urbanos, ao interferir sobre o ciclo da água e alterar os ciclos do carbono, do nitrogênio, do enxofre.
Os rios voadores que se formam a partir da umidade evaporada na Amazônia são essenciais para prover chuvas no centro-oeste e no sudeste brasileiro. O desmatamento na Amazônia afeta a disponibilidade de agua no sudeste, e a atuação sobre o desmatamento na Amazônia é parte integrante de uma gestão integral do ciclo da água.
Uma das formas de atuar sobre a água atmosférica é o bombardeamento de nuvens para precipitar chuvas. A revista Scientific American n.63, edição especial sobre água, tem uma matéria sobre o tema “Invocando Chuva”, por Dan Baum, que mostra a semeadura de chuva por meio de iodeto de prata Isso faz aglutinarem dentro das nuvens as pedras de gelo que se derretem ao caírem para regiões da atmosfera em que a temperatura é maior, formando chuvas ou tempestades de granizo, e nesse caso chegam ainda em estado sólido na superfície. Em países onde isso vem sendo usado, há consequências conflitivas. Na China por exemplo, isso gerou disputas entre províncias vizinhas, pois nuvens bombardeadas num estado vieram a chover em outro, devido aos movimentos dos ventos, subtraindo água de um deles em benefício do outro.
A gestão integral do ciclo da água exige ir além dos tradicionais instrumentos da gestão de recursos hídricos e usar instrumentos ligados a uma compreensão mais ampla do ciclo da água e das consequências que o desmatamento numa região pode trazer para a disponibilidade de água em outra região. Ela implica em atuar sobre a demanda por produtos, sobre a economia para reduzir as demandas excessivas de água que causam estresse hídrico, sobre a cultura e os hábitos alimentares e de vida. Para se lidar de modo integral com a gestão do ciclo da água, pode-se lançar mão tanto das geoengenharias e modos de interferir com a produção de precipitação de chuvas, como reduzir demandas por água nas diversas atividades econômicas, especialmente o consumo pelo usuário que mais a utiliza, a agricultura irrigada.  Ela pode envolver a produção de água, a recarga de aquíferos por meio de barraginhas e barragens subterrâneas. Pode envolver o controle da salinização e das cunhas salinas, nos locais em que elas interferem com a água doce.
A visão integral do ciclo da água ajuda se articular seu planejamento e gestão, numa perspectiva de longo prazo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Escalas da gestão das águas





As escalas de gestão da água variam do micro ao macro. Usando a imagem de Pierre Dansereau, distinguimos dez escalas, do indivíduo ao planeta; da água que se encontra no corpo dos seres vivos e de cada ser humano, até a água para o abastecimento nas casas, edifícios e cidades; às bacias hidrográficas em que ela circula na superfície; até as regiões, estados, países, continentes e a escala planetária onde ela circula na atmosfera e nos oceanos. Em cada uma delas destaca-se uma agenda de temas relevantes, exemplificada abaixo:

1.      1. No centro dessa mandala está o indivíduo interior, cujo organismo é composto de 70% de água e cuja saúde é diretamente relacionada com a quantidade e a qualidade da água que ingere. A água passa pelo nosso corpo e pelos corpos dos demais seres vivos animais e vegetais e somos parte do ciclo integral da água.
2.      2. O indivíduo exterior e sua higiene corporal, banhos, limpeza, relação com a umidade no micro clima e com a agua limpa ou contaminada, que afetam o bem estar e a saúde física.
3.  3.A família, o grupo social básico ao qual pertence e onde se educa na relação com o ambiente e com a água e onde aprende a não desperdiçá-la.
4.      4. A casa, com seus sistemas de abastecimento de água e de coleta e disposição de esgotos; a captação de água de chuva nos telhados, aproveitando de modo descentralizado a água que vem da atmosfera para regar jardins e para uso não potável. O auto abastecimento com cisternas, o reaproveitamento de águas servidas para fins menos nobres. Arquitetos e engenheiros e os projetos de edifícios que se relacionem de modo harmônico com a água.
5.      5. A vizinhança, escala em que podem-se construir sistemas de esgotamento condominial de um conjunto de casas e tomar cuidados para evitar a contaminação de cisternas.
6.     6. O assentamento urbano, ecossistema que precisa de água para funcionar e que a devolve ao entorno com pior qualidade. Sistemas de tratamento de água e de esgotos, o investimento necessário para colocar a água num padrão de qualidade que a torne potável. Os custos da despoluição. A drenagem e escoamento superficial de água para evitar inundações urbanas, a adequada ocupação do solo em fundos de vales, respeitando faixas de inundação de rios e demais cuidados do urbanismo hidroconsciente. As ilhas de calor que se formam sobre as cidades, que aumentam riscos de inundações.
7.     7. A paisagem no entorno das cidades. As periferias e áreas rurais nos municípios, a proteção de mananciais de abastecimento, os cuidados com o uso do solo. A interconexão das águas superficiais e subterrâneas: a recarga de aquíferos e a reservação de água subterrânea, os cuidados para se evitar enxurradas e escoamento superficial e os cuidados para facilitar com que a água se infiltre nos solos permeáveis e reabasteça os mananciais. A prevenção da poluição de aquíferos subterrâneos. O encarecimento do custo da água quando se perdem os serviços ambientais, e quando aumenta a necessidade de investir em obras de infraestrutura hídrica – reservatórios, aquedutos, estações de tratamento.
8.     8. As bacias e regiões hidrográficas, unidades de planejamento e de gestão enfatizadas na legislação de águas e nas quais se aplicam os instrumentos de gestão tais como os planos de bacias, os sistemas de informação sobre recursos hídricos, o monitoramento de chuvas e de vazões, a cobrança pelo uso da água, seu enquadramento em classes de uso. Os conselhos de recursos hídricos e os comitês de bacias hidrográficas e a participação da sociedade no planejamento e na gestão, com a mediação de conflitos pelo uso da água.
9.     9. Os países, cada qual com suas disponibilidades hídricas, problemas de escassez e estresse hídrico, necessidades de articulação institucional entre os vários usuários da água e entre os vários níveis federativos. Necessidade de gestão da agua de modo integral, que considere a etapa atmosférica. No caso brasileiro, o desmatamento na Amazônia e suas repercussões sobre a redução de chuvas no centro oeste e no sudeste brasileiro, com a redução dos rios voadores que trazem nas nuvens a umidade da Amazônia. As conexões entre as torneiras secas no sudeste e o desmatamento da Amazônia.
  10.  10. A escala do planeta. Os oceanos e a atmosfera, o ciclo da água na natureza e sua presença em estado gasoso, líquido ou sólido, como evapora ou congela com as variações de temperatura. A formação e a movimentação de nuvens e chuvas e o serviço prestado pela evaporação nos oceanos, que dessaliniza água de modo natural. O El Nino, com o aquecimento das águas do oceano Pacifico, e como provoca mais chuvas no sul do Brasil e menos chuvas no nordeste.
A água é parte de um sistema hídrico, que por sua vez é componente de um organismo vivo, seja ele o corpo humano, uma bacia hidrográfica ou o planeta Terra. A compreensão dessas várias escalas de abordagem da gestão da água pode reduzir a hidroalienação e permitir que nos relacionemos adequadamente com o ciclo das águas.


(*) Autor de Ecologizar, Meio Ambiente&Evolução humana. www.ecologizar.com.br  ecologizar@gmail.com