segunda-feira, 16 de novembro de 2015

As redes sociais se tornaram um dos canais de acesso à noosfera



As novas tecnologias da comunicação abriram a possibilidade de acesso a um vasto mundo que se encontrava oculto no interior das mentes individuais. Quem se conecta às redes sociais tem acesso, por meio das palavras, vídeos e imagens ali postadas, a uma grande diversidade de ideias, sentimentos e emoções. A atração exercida por esse mundo se revela nos ambientes em que se vê cada indivíduo com seu celular ou computador pessoal, de corpo presente, mas cuja mente está ausente do ambiente imediato, atenta e concentrada nas interações e conexões do universo virtual em que navega. As redes se tornaram um espaço para a participação e trocas de informações, o que se faz de modo gentil, respeitoso e educado, ou grosseiro, truculento, brutal e conflitivo.  
As mensagens postadas revelam ampla diversidade de interesses, motivações, abordagens, crenças e valores. Há pessoas monotemáticas, fixadas num assunto específico e que martelam na mesma tecla, obsessivamente; outras têm um leque amplo de interesses e comentam as ideias alheias.  Uns se interessam por gatos, outros por sapatos, cinema e filmes, arquitetura, frases inspiradoras, humor e piadas, notícias de economia, ecologia, saúde, alimentação, denúncias, campanhas políticas e ideológicas, militância partidária, futebol. Alguns se autopromovem vaidosa e narcisicamente; outros observam ou simplesmente jogam e se divertem. Alguns se mostram sinceros e verdadeiros, outros se disfarçam e dissimulam, com suas personas, as máscaras com que se apresentam num espaço público. Existe ativismo e defesa de causas, tentativas de convencimento ou de conversão, debates, afetividade, autoajuda. As conexões e interações criam novas ideias e sinergicamente aceleram o aprendizado à distância. Os indivíduos aprendem a interagir, a se unir e organizar, a dialogar, a aprimorar sua sensibilidade e a enriquecer seu conhecimento. Comentam-se ideias, interativamente, em diálogo que pode contribuir para aprimorá-las.  Abrem-se possibilidades para a autorreflexão. A rede social abre oportunidades para praticar boa ação diária: veicular e circular ideias edificantes e inspiradoras, que expandem a consciência humana. Num sentido negativo, as redes abrem oportunidades para os intolerantes manifestarem a destrutividade e o ódio. Tornam-se arenas de luta em que se praticam insultos e provocações, ofensas e agressões e se revelam as dificuldades de lidar com ideias diferentes. Criam-se novas amizades e inimizades. Estabelecem-se novas relações, que se aquecem e esfriam. Cortam-se relações e bloqueiam-se conexões, ignorando o outro que incomoda ou chateia. Descobrem-se afinidades eletivas. Abrem o acesso a outros modelos mentais, opiniões, formas de pensar, cosmovisões. Para além de pensamentos, a Internet e as redes sociais facilitam o compartilhamento de sentimentos e emoções. Revelam-se antipatias e simpatias, atrações e aversões, admiração e repulsa. Inveja, ciúme, vaidade, raiva, orgulho, impaciência, violência na comunicação estão presentes nas mensagens. Por outro lado, amor, solidariedade, empatia, generosidade, afeto, ternura, também se expressam em outras postagens. Algumas são abertas, amplas e generosas, sutis, gentis, inteligentes, elegantes; outras revelam preconceitos, antipatias, ódios, medo. Essa conectividade intensa pode facilitar com que os indivíduos evoluam mental e emocionalmente. As redes sociais se tornaram um dos canais de acesso à noosfera.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Ecologizar a justiça e a segurança




Os segmentos pobres da população usualmente dispõem de menos informação e capacidade de mobilização que lhes permitam opor-se à instalação, em sua vizinhança, de empreendimentos que tragam custos ambientais, riscos à saúde ou perda de qualidade de vida. Quando se mapearam os depósitos de lixo tóxico e perigoso nos Estados Unidos, verificou-se que esses sempre se localizavam próximos de comunidades de baixa renda, em geral negras e excluídas de benefícios sociais e urbanos. Tal fato não é mera coincidência: evidencia que os custos ambientais do desenvolvimento recaem com maior força sobre os segmentos sociais com menor poder de lutar por seus direitos e por melhores condições de vida. Ninguém deseja um depósito de lixo em seu quintal, mas os grupos mais pobres têm menos poder de realizar esse desejo e de defender a qualidade ambiental de seu entorno.
As comunidades ricas, econômica e politicamente mais poderosas, escolhem viver perto de parques ou de áreas naturais, com vistas e paisagens privilegiadas; quando ameaçadas por alguma iniciativa que possa contrariar seu padrão de conforto e bem-estar, reagem e lutam com os instrumentos legais, econômicos e políticos de que dispõem. Essas comunidades se tornam menos vulneráveis a serem atingidas pelos impactos ambientais negativos de uma obra ou empreendimento. Entretanto, têm aumentado os casos de minerações e empreendimentos viários e imobiliários potencialmente incômodos e degradadores do ambiente que buscam instalar-se próximos de áreas ocupadas por segmentos da elite econômica, embora indesejados por elas. Esses empreendimentos desencadeiam resistências e impulsionam a conscientização ambiental para esse extrato da população que não fora atingido tão duramente pelos impactos ambientais negativos.
A sociedade moderna convive com riscos e ameaças à segurança individual e social, provenientes de desequilíbrios ambientais. A segurança ecológica constitui tema emergente.
Além dos aspectos policiais e de violência urbana associados à marginalização social, novos riscos e ameaças à segurança pública e individual têm-se manifestado nas cidades. Insegurança e riscos potenciais pairam sobre a população urbana. Basta uma chuva forte para que se ultrapasse o limiar de risco e ocorram enchentes, com mortes, prejuízos materiais, ou desabamentos, com perdas econômicas e de vidas humanas.
As cidades vêm operando com margem mínima de segurança ambiental e suas funções são desempenhadas por um triz, com alto risco. Na ocupação clandestina do solo em áreas urbanas, nos loteamentos sem infraestrutura, em favelas situadas em locais impróprios, há riscos de enchentes, deslizamentos de encostas, riscos geológicos. O cidadão submete-se a riscos de morte ou à sua saúde, nos transportes, no abastecimento alimentar ou de água, na carência de rede de esgotos, na precariedade dos serviços de limpeza. A situação dramática das metrópoles transforma-se em tragédia, com o desequilíbrio climático que ocorre com frequência crescente.
Nesse contexto, as questões convencionais de que se ocupa a segurança pública constituem apenas a ponta visível do iceberg. Políticas abrangentes de segurança pública precisam levar em consideração o conjunto de perigos e ameaças à vida e à segurança, destacando-se, dentre eles, os riscos originados de desequilíbrios ambientais e climáticos.
Justiça e paz são aspirações humanas legítimas. Sua falta representa uma perda para a qualidade de vida.
Longe de constituir-se apenas preocupação da classe média, o ativismo ecológico apresenta forte componente social, quando explicita e luta por melhores condições de justiça ambiental e para evitar que os segmentos mais fracos, desmobilizados ou desorganizados, sejam atingidos pelos custos que lhes causam danos à saúde e à qualidade de vida. Ao reduzir desigualdades, contribui também para a segurança, a paz e a redução da violência.
Na falta de justiça social e ambiental, torna-se mais difícil alcançar a segurança e a paz. A justiça ambiental postula que todos tenham iguais oportunidades de se protegerem dos danos ambientais, com recursos equivalentes. Essas condições são muito distintas para os grupos ricos e pobres. A institucionalização de conselhos participativos e de instâncias multilaterais, nos quais os vários atores sociais e interessados estão presentes e podem manifestar sua vontade é um canal para mediar conflitos de forma não-violenta e para garantir a segurança. Tais colegiados são eficazes enquanto não são capturados pelos interesses dos segmentos sociais mais poderosos e influentes.
A gestão colegiada da política de segurança envolve as partes interessadas, governo, empresas, segmentos da sociedade civil.
Os trabalhos da polícia de defesa do meio ambiente, do corpo de bombeiros e daqueles que realizam ações de resgate, e que contam com simpatia da população, serão cada vez mais cruciais no futuro, à medida que os desequilíbrios ambientais e climáticos levarem ao aumento da frequência e intensidade de desastres. Mas esse tipo de trabalho é corretivo e reage à ocorrência de desastres. Mais importante e estratégico é desenvolver ações preventivas, de alerta precoce, proativas, de planejamento e gestão que reduzam a possibilidade de ocorrência de desastres e catástrofes e que evitem o sofrimento social.

Ecologizar a comunicação



A ampla gama de questões ambientais da atualidade, que não cessa de crescer, está sujeita a muitas controvérsias e polêmicas. Para cada tema específico dessa agenda, é usual haver posições que variam de A a Z, do preto ao branco, passando por todo o espectro de tonalidades, cada uma delas com seu embasamento e fundamentação próprios. Há posições extremadas que, por interesses econômicos de autoproteção e por defesa psicológica para reduzir o sentimento de culpa, procuram minimizar a gravidade dos problemas, tampar o sol com a peneira, legitimar comportamentos que pressionam o ambiente; no outro extremo, há posições catastrofistas, que dramatizam, amplificam e exageram os problemas, semeiam pânico e histeria, para obter atenção política e recursos econômicos. Ambos os extremos prestam um desserviço à sociedade: por um lado, os integrados podem atrasar a tomada de decisões; por outro lado, os apocalípticos podem colocar em descrédito a causa ambiental, ao anunciarem catástrofes que não ocorrem. A confiabilidade das fontes de informação é um valor fundamental. Aqueles que repetem alarmes falsos ou que tentam enganar sobre a gravidade dos problemas perdem a credibilidade.
Na cobertura da questão ecológica, alguns temas são superexplorados e cala-se sobre outros. Por conveniência empresarial ou ideológica, deixam de ser pautados temas que possam causar desgastes diante de anunciantes, tais como a indústria da carne, a indústria automobilística, a indústria do petróleo ou da extração de minérios, a indústria alimentícia e a farmacêutica. São pautados e supervalorizados assuntos que causam sensação e ajudam a atrair leitores e espectadores, porém que não contribuem para a formação de consciência ecológica profunda.  Fritjof Capra (1993)[1] denuncia os meios de comunicação ao afirmar que são atualmente dominados pelo mundo dos grandes negócios, especialmente nos Estados Unidos, e que seu conteúdo é devidamente censurado.
Ecologizar a comunicação significa mais do que criar editorias de meio ambiente na mídia. Significa introduzir em cada uma das editorias – de política nacional ou externa, economia, cultura, cidades, ciência e tecnologia, assuntos locais, além de esportes, agropecuária, indústria e comércio, negócios, finanças etc. – o toque ecológico. Esse tema não pode ser segregado nas páginas, cadernos ou programas de meio ambiente, mas precisa permear cada uma e todas as áreas da comunicação, para que seja eficaz como instrumento de mudança cultural e para que complemente as demais formas de aprendizagem formal e informal.

Para ecologizar a comunicação, recomenda-se:
•. Capacitar e formar os jornalistas, assessores de imprensa de órgãos públicos e de empresas, os editores e toda a cadeia de profissionais que cuidam da comunicação nos temas relacionados à sustentabilidade – ambientais, hídricos, ecológicos e climáticos; entender as questões de forma integral e ir além dos enfoques pontuais sobre temas específicos. O editor ou o jornalista bem preparado e capacitado profissionalmente para absorver a informação e expressá-la pode melhorar o nível de cobertura da imprensa sobre temas ambientais, e assim contribuir para a educação e as mudanças de valores e de ação prática. Nesse aspecto, o aprimoramento da formação cultural e dos conhecimentos técnicos e valores éticos do jornalista nas escolas de comunicação e fora delas é essencial para melhorar o nível de cobertura sobre a variedade de temas relacionados com as questões ecológicas.
•. Romper e desmistificar a linguagem e o jargão técnico, traduzindo as questões em termos que um cidadão comum possa entender. O jornalismo científico contribui para a formação da consciência ecológica, ao ligar a ciência moderna e o cidadão comum, de modo a transformar conhecimentos científicos em linguagem acessível, ajudando a metabolizar, na sociedade, valores ecologizados. Ao divulgar temas emergentes, tem função proativa na mudança de mentalidades e valores.
.  Matérias opinativas ou de divulgação científica tornam-se fontes de referência para o leitor carente de informações atualizadas e auxiliam na compreensão das mudanças.
Despartidarizar os temas ecológicos e colocá-los acima do patamar de interesses políticos e eleitorais de curto prazo, e tratá-los como política pública com visão de longo prazo; evitar contaminar o tema para conferir-lhe credibilidade.
•. Usar a comunicação como ferramenta de educação – educomunicação e ecopedagogia. Ela cumpre finalidades educativas ao colaborar para a expansão da consciência ecológica; tornar os cidadãos conscientes de sua unidade com o meio do qual tiram seu sustento; aguçar a percepção ambiental, por meio da educação dos sentidos; influir sobre hábitos, comportamentos e estimular ações de respeito ao meio ambiente; explicitar os impactos que o estilo da vida e os hábitos de consumo exercem sobre os ecossistemas naturais.
•. Alimentar com informação e conceitos os jornalistas para abordarem com competência os temas ecológicos. Usar o fluxo de informações como o fluxo de água, de maneira a evitar enxurradas de releases que inundam e assoreiam. Distribuir informações como uma boa chuva e ter um reservatório para os períodos de seca.
•. Divulgar boas práticas. A promoção e a divulgação de estudos de caso e de boas práticas de cidades sustentáveis, cidades saudáveis, ecovilas, permacultura, ecodesign são instrumentos poderosos para influir na consciência social e no aprendizado coletivo.
•. Usar a internet como importante veículo para divulgar e discutir as questões ecológicas.
A ampliação da função de serviço da imprensa, com as inserções de serviço público, tem importante papel educativo. Bem utilizadas elas contribuem para a criação de hábitos ecologicamente adequados.
Os veículos de comunicação constituem concessões do poder público. O cidadão pode reivindicar maior intensidade e quantidade de inserções de serviço ambiental, previamente regulamentadas e que tenham alto retorno educacional; e realizar uma avaliação histórica abrangente sobre o desempenho da mídia na formação da consciência ecológica e sobre seu real papel de ecoalfabetização.
A poluição cultural e informativa precisa ser reduzida e informação de melhor qualidade precisa estar disponível para embasar a tomada de decisões e facilitar a participação consciente. A busca da sensação com motivação comercial frequentemente distorce e prejudica a qualidade da informação veiculada pela empresa jornalística. Da mesma forma, é importante que transcenda o enfoque denunciador.
Uma sociedade civil ativa é capaz de mobilizar a imprensa e a opinião pública, com potencial para compelir os governos a investir na gestão ambiental, corrigir e prevenir a ocorrência de novos problemas.

(*) autor de Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Meio Ambiente & Evolução Humana. WWW.ecologizar.com.br
(**) Versão original deste texto integra o livro Ecologizar – volume 3- instrumentos para a ação. 4ª edição, Editora Universa, 2009.


[1]O autor nota que o capitalismo global opera redes eletrônicas – fluxos de financiamento e de informação, enquanto o projeto ecológico atua por meio de redes ecológicas e seus fluxos de matéria e energia.