segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O antropoceno e a crise ecológica



O campo da consciência é um dos mais promissores para se atuar no contexto da crise ecológica, climática e da evolução pela qual passamos. Soluções e respostas para tais crises podem derivar da transformação na consciência humana – e não apenas de desenvolvimentos em sua parte relacionada com a ciência e a tecnologia.
Estamos no estágio terminal da era cenozoica (a era dos mamíferos). O antropoceno é o estágio inicial dessa era em que a evolução passa a ser crescentemente influenciada pelo espírito humano. O conceito de Antropoceno denota o período atual, a partir da Revolução Industrial, por volta do ano 1800, quando surgiram e se desenvolveram novas maneiras de se manipular e transformar o ambiente. A partir de então, várias condições e processos geológicos tem sido profundamente alterados pelas atividades humanas, com uma grande aceleração a partir de 1950. O consumo e as inovações tecnológicas passaram a ser fortes vetores dessa aceleração e das transformações ambientais e climáticas decorrentes, que se verificam nas últimas décadas, com impactos sobre a biosfera e sobre a vida social e econômica dos seres humanos. (CRUTZEN, P. J., and E. F. STOERMER, 2000).
Matéria (geodiversidade), vida (biodiversidade) e consciência (noodiversidade) integram um mesmo espectro. A evolução da matéria é lenta e se processa nos ritmos da história geológica; a evolução biológica é mais rápida; e a noológica (intuitiva) é veloz como um raio. A crise climática e o risco do colapso ecológico ajudam a despertar para a era do conhecimento intuitivo, uma etapa da evolução que se baseia no desenvolvimento da consciência humana e não mais nos lentos processos da evolução biológica.
O momento de ruptura e mudança de eras que hoje vivemos se manifesta não apenas por meio das mudanças climáticas mas, também, pela perda de biodiversidade; destruição de habitats naturais; redução das fontes de alimento; erosão e salinização dos solos, dependência dos combustíveis fósseis, esgotamento dos recursos hídricos; despejo de produtos químicos no ambiente (agrotóxicos, hormônios, componentes de plásticos, rejeitos de mineradoras, poluição do ar); aumento da população.
Trata-se de uma crise da evolução como as que ocorreram em outros momentos da história da Terra, nos quais várias espécies se extinguem.
Atualmente, desenvolvem-se inúmeras iniciativas no sentido de nos adaptarmos à crise ecológica e climática ou de reduzirmos os impactos negativos das ações humanas. Há esforços por parte de cientistas que procuram compreender o organismo da Terra; de pessoas que adotam a simplicidade voluntária e a austeridade feliz; de empresas que adotam a ecoeficiência e meios de produção limpos, reduzem desperdícios de materiais e de energia, inventam novo ‘design’ de produtos e de processos; de governos que adotam políticas econômicas ecologizadas; de organizações da sociedade que lutam por outro mundo, de pensadores que vislumbram outras possibilidades para as sociedades e as civilizações.
São bem-vindas todas essas ações realizadas a partir da aplicação das ciências naturais, das engenharias, da gestão de organizações públicas e privadas, da política econômica e dos mecanismos de mercado. Porém são insuficientes diante da magnitude da crise atual.  À medida que se percebe o caráter profundo da atual crise da evolução - que inclui a crise ambiental e climática -, também se compreende que soluções tecnológicas, de gestão ou de engenharia, de incentivos ou penalizações econômicas, ainda que necessárias, são insuficientes para dar-lhe respostas adequadas. 
A evolução da consciência é um caminho para conseguir se adaptar criativamente às mudanças da atual transição de eras. Ela é a grande força capaz de influir no rumo da evolução no planeta. Diante da magnitude da crise ecológica e climática atual, que constitui uma crise da evolução, é urgente ativar todos os níveis e mobilizar toda a energia psíquica humana para responder aos mega desafios com que nos defrontamos.
A crise climática e ecológica atual coloca em risco a sobrevivência e o bem-estar da espécie humana. Diante da perspectiva de colapso planetário e da percepção dos limites da capacidade de suporte do planeta, a busca da segurança motiva uma construção coletiva de respostas. Líderes de grandes religiões, como o Dalai Lama ou o Papa Francisco, se manifestam em relação à crise ambiental e climática. [1] Líderes de grandes nações, tais como os Estados Unidos e a China, dois dos países que mais emitem gases de efeito estufa e com uma pesada pegada ecológica, propõem planos para descarbonizar a economia e reduzir os impactos climáticos que provocam. Propõem tais ações ao tomarem consciência dos problemas, dos riscos que corre a humanidade. Vozes dissonantes se levantam, contestam as propostas e planos. As difíceis negociações das conferências   sobre mudança climática (Rio-92, Kyoto 97, Johanesburgo em 2002, Bali em 2004, Copenhagen em 2009, Rio em 2012; Varsóvia em 2013, Paris 2015) atestam as dificuldades de se construir visões unitárias consensuais ou unânimes sobre esses temas e também as dificuldades de colocar em ação projetos coletivos comuns.


[1] Ver a Encíclica Laudato Si, divulgada pelo Papa Francisco em 2015 em http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html e o plano americano de redução de emissões lançado nos Estados Unidos em agosto de 2015 em http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/08/governo-dos-estados-unidos-anuncia-plano-para-reduzir-emissao-de

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Diversidade cultural e noodiversidade






A diversidade da consciência humana se revela em cada aspecto da cultura, da língua às religiões, da ciência a suas aplicações tecnológicas; da organização social às instituições.
Atualmente há cerca de 7.000 línguas faladas no mundo, distribuídas em famílias, troncos linguísticos, dialetos. Isso reflete o legado de milhares de anos de evolução cultural. (Figura). Na América do Sul, nove troncos agrupam as línguas precolombianas e a eles se superpuseram o português, o espanhol, o francês, o inglês trazidos pelos colonizadores europeus (Figura).

Figura -Distribuição atual das famílias de línguas. Fonte: Wikipédia


Figura - Troncos linguísticos sul americanos. Fonte: Wikipédia
O número de palavras cresce na medida das necessidades de comunicação e das novas realidades que precisam ser expressas. Neologismos surgem para expressar realidades novas.  A consciência humana se beneficia das ferramentas tecnológicas que colocam à sua disposição o grande acervo de conhecimentos produzidos pela espécie. Novas tecnologias de tradução automática se aperfeiçoam, permitindo tornar acessíveis e inteligíveis ideias, textos e falas em outros idiomas. Algumas línguas se tornaram muito disseminadas e bilhões de pessoas se comunicam por meio delas (Figura 5); outras são de domínio de poucos indivíduos; muitas se encontram em processo de extinção, tornando-se línguas mortas.
Figura 5- Como o mundo está conectado por meio das línguas. Fonte: Wikipédia
Outro campo da diversidade cultural é o das tradições religiosas. Elas se distribuem geograficamente de modo diferenciado. (Figura). Elas condicionam e moldam as crenças, as cosmovisões e visões de mundo, os valores pelos quais se comportam seus seguidores. Panteísmo, politeísmo, monoteísmo e ateísmo são as quatro grandes possibilidades em relação a esse tema. 

Figura – Religiões do mundo Fonte: Wikipédia
O desenvolvimento exterior, do mundo construído e a transformação do ambiente natural se fazem num ritmo impulsionado pelos avanços científicos e tecnológicos. O engenho humano produz avanços tecnológicos na robótica, na genética, na tecnologia da informação e nas nanotecnologias, entre outros campos[1]. (GARREAU, 2005) A informática ampliou a capacidade humana de transformar o planeta e de conectar as mentes individuais com o cérebro global. A capacidade dos cientistas de produzirem conhecimento e de promoverem sua divulgação ampla é essencial para influenciar na tomada de decisões.
O ser humano se agrupou coletivamente em clãs, tribos, pequenos reinos, estados-nação, impérios. Criou múltiplas organizações públicas ou privadas, instituições de governo, empresas, organizações sociais. Criou uma multiplicidade de leis, que consolidam usos e costumes e criam condições de contorno que influenciam o comportamento dos indivíduos.
Noodiversidade
 “A minha consciência tem milhares de vozes,
E cada voz traz-me milhares de histórias,
E de cada história sou o vilão condenado”
William Shakespeare.
Somos mais de sete bilhões de indivíduos no planeta. Diferentes estágios, modos e estados de consciência estão sendo vividos simultaneamente pelos bilhões de indivíduos e pelas diversas parcelas da humanidade – do astronauta à tribo isolada na Amazônia passando pelas populações urbanas, pelos operários urbanos, pelos   agricultores e demais grupos humanos.  Do mesmo modo como as espécies evoluem em biodiversidade, evolui a noodiversidade, a diversidade das consciências. Atualmente, as intensas interações, conexões, contatos e diálogos facilitados pelas tecnologias da comunicação e da informação e pelas redes sociais aceleram a sinergia entre ideias e a expansão da noodiversidade. Esta é mais ampla do que a biodiversidade ou a diversidade social e cultural, pois é fluida, mutante, impermanente, intercambiável, sofre influências e transformações constantes e tem a sua dinâmica própria. Aprende-se a partir do estágio, do estado e do modo de consciência em que cada um se encontra.  Ela pode ser des-condicionada em seus aspectos culturais e sociais. Um mesmo indivíduo pode apresentar ao longo de um único dia, variações de humor, de lucidez ou confusão mental, de estabilidade ou instabilidade emocional, de depressão ou euforia. A noodiversidade considera os vários estados de consciência - vigília, sono sonho, meditativo, êxtase.  Cada pessoa que se conecta numa rede social é um neurônio que atua na rede neural de um cérebro global planetário. É parte ativa da noosfera. Torna mais explícita e visível a noodiversidade humana.


[1] As repercussões dos aprimoramentos tecnológicos sobre a vida humana, para o bem e para o mal, são discutidas por Joel Garreau em seu livro Radical Evolution.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A noosfera na ecologia integral



As ciências naturais e biológicas estudam a matéria e a vida conforme as esferas em que se situam: a barisfera, a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera, a biosfera.   
 










Figura 1 - A Noosfera penetrou muito além dos limites da biosfera.  Fonte: Pierre Dansereau (1999)
 Figura 2: Projeção interna e implantação externa da organização dos espaços. Fonte: Pierre Dansereau (s.d).

A noosfera é um conceito elaborado por Wladimir Vernadsky e pelo padre, teólogo, filósofo e paleontólogo Pierre Teilhard de Chardin, em seus estudos sobre o fenômeno humano. Escreve ele: “É verdadeiramente uma camada nova, a “camada pensante”, exatamente tão extensiva, mas muito mais coerente ainda, como veremos, do que todas as camadas precedentes, que, após ter germinado no Terciário declinante, se expande desde então por cima do mundo das Plantas e dos Animais: fora e acima da Biosfera, uma Noosfera. ” (TEILHARD DE CHARDIN, 1966, pg.189). Ela engloba a cultura, ideias, espírito, linguagens, teorias, pensamentos, emoções, sentimentos, informações, geradas ou captadas desde o início da vida.
No campo das ciências biológicas valoriza-se a biodiversidade. Quando têm sensibilidade socioambiental, ecólogos também se ocupam da sociodiversidade e da diversidade humana e cultural.  Uma visão integral da ecologia vai além de seus aspectos científicos, socioambientais e inclui as questões subjetivas, psicológicas, da mente humana.
Pierre Dansereau, numa abordagem pioneira à ecologia integral, incluiu a noosfera nos diagramas em que desenhou as interações entre a atmosfera, pirosfera, litosfera, hidrosfera, biosfera.  Considera a noosfera como um campo que influencia todos os demais. Para além da abordagem socioambiental convencional, ele integrou o espírito humano, a subjetividade e as questões psicológicas às ciências ecológicas. Reconheceu e valorizou a influência da consciência humana e das ações dela decorrentes sobre o rumo da evolução no planeta, o que se torna particularmente relevante no atual período antropoceno da história. (DANSEREAU, 2000).
Muito da ação humana decorre de como se percebe e compreende o mundo, das cosmovisões, do auto interesse e de motivações mentais e emocionais. Dansereau (1999) escreveu sobre as paisagens interiores, que ele denominou inscapes. Elas constituem o espírito de cada indivíduo de modo pessoal, em função de sua história, formações e interesses. Na figura 2 ele mostra como uma mesma paisagem é percebida de modo distinto por um caçador, um agricultor, um lenhador, um minerador, um engenheiro e um poeta, em função de sua história e atividade.
Além das diferenças nas paisagens interiores devidas à história pessoal e à cultura, há diferenças na percepção sensorial de um para outro indivíduo. Assim como a percepção visual enxerga a olho nu apenas o espectro visível, do vermelho ao violeta, e a percepção auditiva não capta os infra e ultrassons, há faixas do espectro da consciência em que estamos sintonizados e outras que escapam a nossa percepção.
O físico e psicólogo Peter Russell observa que
Ainda sabemos muito pouco sobre o modo pelo qual a percepção sensorial leva à consciência e sobre como as ideias surgem. Temos pouquíssimo entendimento sobre nossos sentimentos ou sobre as maneiras com que nossas atitudes afetam nossa percepção e nosso comportamento. E o ser interior, o aspecto mais profundo da mente consciente, permanece tão misterioso como sempre. Esta é a próxima grande fronteira, não o espaço exterior, mas o espaço interior. Nosso poder de mudar o mundo pode ter dado saltos prodigiosos, mas nosso desenvolvimento interior, o desenvolvimento de nossas atitudes e valores, progrediu muito mais lentamente. (RUSSELL, 2006).