segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A importância do mito unificador e da meta unificadora





Dispor de um projeto, meta ou mito unificador é um requisito para orientar as energias humanas num rumo convergente. Em alguns casos, projetos que buscam a unificação interna são essencialmente destrutivos e voltados para a dominação de outros povos, tais como as guerras. No sentido inverso apontam projetos de unificação política, como a experiência da União Europeia, de mudar o relacionamento anteriormente baseado em guerras ou em conquistas de colônias, para um relacionamento menos opressivo. Essa experiência mostra avanços e explicita dificuldades para se construir a unidade a partir da diversidade de sociedades, culturas e línguas naquele continente.
No passado, grandes projetos coletivos foram realizados. Em Portugal no século XVI as navegações foram cuidadosamente planejadas pela Escola de Sagres. As grandes catedrais, as pirâmides do Egito e a grande muralha da China mobilizaram vultosos recursos econômicos, humanos, tecnológicos. Foi necessário, durante décadas ou séculos, pagar a subsistência de cada trabalhador, financiar, arrecadar e investir recursos para que elas fossem realizadas com sucesso. Razões  de segurança ou religiosas  motivaram esses investimentos grandiosos. No século XX, a descida do homem na lua foi evento  que mobilizou esforço e inteligência coletiva, sob o comando da NASA.
Um projeto unificador pode ser a construção de uma unidade política planetária. Edgar Morin em texto intitulado “O grande projeto” observa que “A fecundidade histórica do Estado-Nação hoje se esgotou. Os Estados-Nação são por si mesmos monstros paranoides incontroláveis, ainda mais sob ameaças mútuas. Uma primeira superação dos Estados-Nação não pode ser obtida senão por uma confederação que respeite as autonomias, suprimindo a onipotência. ” “Mas nós ainda estamos na "idade do ferro planetário": ainda que solidários, continuamos inimigos uns dos outros e a explosão dos ódios de raça, de religião, de ideologia, provoca sempre guerras, massacres, torturas, ódio e desprezo. ” (MORIN, 1988). Um grande projeto político ainda por se realizar é a constituição de uma Federação Planetária que suceda a atual fase dos estados–nação e que avance em relação à Organização das Nações Unidas, da mesma forma como essa avançou em relação à Liga das Nações. Caminhar em direção a uma federação planetária ecologizada é um campo promissor, pois considera a Terra como unidade política básica à qual devem estar submetidos os interesses nacionais e regionais específicos. A ação em cada uma de suas partes – nações, estados, sociedades, cidades, empresas, indivíduos – se insere em um objetivo comum maior: a saúde do Planeta, da qual depende a saúde dos sistemas vivos e a própria vida humana. Sri Aurobindo enfatizou a importância de se alcançar a unidade humana. No seu pensamento político e social, Sri Aurobindo postulou que os Estados-Nação não constituem a última etapa do desenvolvimento político humano e que a unidade econômica e administrativa do planeta seria necessária. Em O ideal da unidade humana, estudou os impérios e as nações, com sua formação e estágios de desenvolvimento; antecipou a unificação da Europa; abordou as possibilidades de um Império Mundial e as enormes dificuldades no caminho em direção à unidade internacional; tratou também dos princípios para uma confederação livre de nações e das condições necessárias para que ocorresse tal união mundial livre. A unidade humana que está no centro do pensamento de Sri Aurobindo estende-se aos domínios militar, econômico e administrativo. Ela respeita e valoriza a diversidade (AUROBINDO, 1970). A visão mundialista insere as propostas para a política numa visão cosmopolita da unidade humana, para além do patriotismo, dos interesses de clãs e tribos, étnicos ou nacionais.  Ela expressa a necessidade de unidade política humana e de uma cosmovisão ampliada para compreender os tempos em que vivemos.Insere a história humana no ciclo muito mais vasto da história natural. 

 Promover a Consiliência, proposta por E.O Wilson em  seu livro que tem esse título, é uma forma de resgatar a unidade.  Duane Elgin propõe que se construam grandes narrativas inspiradoras capazes de comunicar com clareza o sentido e o rumo da evolução, de forma a produzir convergências de pensamentos e de ações. (ELGIN, 1993). Cosmovisões compartilhadas por milhões ou bilhões de pessoas magnetizam e atraem a adesão e a motivação de muitos cérebros individuais num mesmo rumo e direção. Imaginar um projeto unificador, ter determinação de mobilizar os recursos para colocá-lo em prática numa obra coletiva é um pré-requisito para lidar com a crise ecológica e climática planetária. Diante da perspectiva de colapso da civilização humana e da percepção dos limites da capacidade de suporte do planeta, a busca da segurança motiva uma construção coletiva de respostas.  Na atualidade, uma meta unificadora diante das  mudanças climáticas é a de manter a temperatura do planeta com um aquecimento limitado, para que eventos climáticos extremos não coloquem em risco a segurança da civilização humana e a economia. Thomas Berry, ao estudar a história do universo, propõe uma grande obra coletiva de transitar dessa fase terminal da era cenozoica (a era dos mamíferos) para uma era em que exercitemos nossa capacidade de sustentar o mundo natural para que o mundo natural possa nos sustentar, num processo de sustentabilidade recíproca. Ele observa que “Todos nós temos nosso trabalho particular. Temos uma variedade de ocupações. Mas além do trabalho que desempenhamos e da vida que levamos, temos uma Grande Obra na qual todos estamos envolvidos e ninguém está isento: é a obra de deixar uma era cenozoica terminal e ingressar na nova Era Ecozoica na história do Planeta Terra. Esta é a Grande Obra. ” (BERRY, 1999). Thomas Berry assim definiu a grande obra unificadora: “Nosso próprio papel especial, que vamos passar a nossos filhos, é o de gerenciar a árdua transição de uma era Cenozoica terminal para a Era Ecozoica emergente, na qual os humanos estarão presentes no planeta como membros participantes de uma comunidade Terrena compreensiva. Esse é a nossa Grande Obra e a Obra de nossos filhos. ” (BERRY, 1999). De nossa parte, preferimos denominá-la a Era Noológica mas a ideia é similar: realçar a importância de um mito ou meta unificadora que nos mostre o rumo em  direção ao qual caminhar.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Ken Wilber, o amor e os estágios de desenvolvimento da consciência







No dia 10 de dezembro de 2015 Ken Wilber falou para os brasileiros em videoconferência. 1400 pessoas se inscreveram no evento. Ary Rainsford (tradutor de Wilber) e Marcelo Curi (inovador social), conduziram a entrevista de uma hora e 20 minutos. Em seus caminhos evolutivos e espirituais, ambos se motivaram com o pensamento de Wilber.

Ken Wilber discorreu sobre os diversos estágios de desenvolvimento da pessoa. Há dados empíricos que atestam esses estágios e evidências poderosas de sua existência. No primeiro estágio há uma indiferenciação do corpo com o ambiente. No segundo estágio a criança se diferencia do ambiente físico e surge o pensamento mágico e impulsivo. No terceiro estágio há o reconhecimento da identidade do organismo individual separado do ambiente e manifesta-se o medo de estar isolado. (Aí começaria a fantasia da separatividade, na visão de Pierre Weil.) Busca-se segurança e poder, é uma fase egocêntrica. (Esses estágios de desenvolvimento têm relação com os chacras e seus níveis, conhecidos na cosmovisão hindu dos vedas).
No quarto estágio há uma mudança significativa, quando a criança aprende a ver o mundo através dos olhos de outras pessoas. É um estágio centrado no grupo, etnocêntrico. Dá motivos ao fundamentalismo religioso, à coerção e até à tortura para se impor a verdade daqueles que acreditam em algo (o nós x eles, os infiéis e os não crentes). É um estágio mítico-literal; acredita-se que a Bíblia é absolutamente verdadeira, acredita-se no reino dos céus e que, na Terra, deve-se obedecer às leis de Deus. Lei e ordem são relevantes e não se valoriza a mudança.
A partir do quinto estágio valoriza-se a mudança. Toma-se distância da identificação com crenças e passa-se a considerar a importância de todos os seres humanos. É mundocentrico. É um estágio racional, científico, que valoriza o progresso e que entra em conflito com a fase mítica e religiosa. Nesse estágio busca-se a realização, a autoestima, a conquista individual, a Renascença. Valoriza-se o progresso, a visão de mundo moderna, a excelência, o empreendedorismo, com a compra, venda, o lucro, a riqueza material na Terra. Passa-se do estágio pré-moderno para o moderno, valorizam-se as ciências naturais, humanas e sociais, testa-se uma hipótese para se comprovar se é ou não verdadeira. Durou entre 100 e 200 anos. Na batalha entre ciência e religião, a ciência venceu, compreendem-se as leis da física e da engenharia. (A ciência, para alguns, passa a ser uma nova religião com seus dogmas de verdade absoluta).
Ordem e progresso são valores pertencentes a esses dois estágios em conflito, antagonistas, e que não acreditam nas mesmas coisas.  Essa contradição está herdada na bandeira do Brasil. O amor, que era o princípio no lema positivista de Auguste Comte e deveria estar no comando, foi retirado do lema na bandeira brasileira.
O pluralismo, o pós-moderno vieram depois da era do iluminismo ocidental, com o reconhecimento das numerosas culturas diferentes, seus valores, desejos, metas e características.
No estágio seguinte, integral, se reconhece a importância de todos os estágios anteriores e a existência de algum nível de verdade neles. . É um estágio novo e importante que cresce nos últimos 20 anos. 5% da população mundial se encontram nesse estágio. Pela primeira vez temos esse entendimento, o que é encorajador. Entra-se numa nova era na história humana, que nunca existiu antes. Há hoje um alto desenvolvimento cognitivo que enxerga os padrões de conexão de várias culturas numa humanidade única e integral (Aqui, Ken Wilber retoma a ideia presente na yoga integral de Sri Aurobindo).
Há forte senso de crescimento e desenvolvimento dos seres humanos em direção ao amor, ao cuidado, e no sentido inverso da regressão estreita, menor, corrupta, criminosa. Como sociedade, nação ou país, ressalta-se o poder das ideias para convergir, harmonizar, criar simpatia e cuidado. Em cada estágio mais alto de desenvolvimento amplia-se a capacidade de amar, do cuidado e da compaixão. Evolui-se do amor egoísta individual ao etnocêntrico (o grupo amado, a família, o clã). O amor se expande do eu (ego) para o nós (etno) e para todos nós, incluindo todos os seres humanos. (Mundocentrico). Catástrofes e problemas globais físicos precisam de pensamento global e soluções aparecem para se lidar com esses problemas. Wilber afirma que no mundo atual há duas forças em diferentes direções, uma voltada para o individual e seu grupo e outra voltada para o cosmopolita, o planetário. Há possibilidade de nos matarmos ou de evoluirmos em termos religiosos, tecnológicos, políticos e a abordagem integral promete facilitar tal evolução.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Unidade na diversidade – a contribuição indiana.


Figura - Um mundo de línguas – Na Índia encontram-se várias das mais faladas. Fonte:

Dentro  de poucos anos a Índia será o país mais populoso do mundo, com cerca de 18% da população do planeta. É um país multicultural e abriga pessoas de várias religiões: hindu, muçulmana, cristã, budista, jainista entre outras.
A Índia é o país com maior diversidade linguística. Tem trinta diferentes troncos linguísticos e centenas de dialetos. Entre as línguas mais faladas do mundo estão o hindi, telugu, marathi, kannada, tamil, urdu, bengali. Muitos indianos são poliglotas. Além disso, falam o inglês, incorporado como uma nova língua no país. 
Diversidade social, cultural, psicológica, noodiversidade, caracterizam essa sociedade. A diferença não é apenas respeitada, mas também estimulada. A Índia cultivou a convivência entre diversos de forma introspectiva: aprofundou-se na psicologia humana, criando tradições espirituais que priorizaram o autoconhecimento e um estilo de vida não agressivo em relação ao ambiente natural e social; desenvolveu tecnologia de vivência implosiva, de adensamento e aprofundamento interno, diferente das tecnologias de conquista do mundo exterior, desenvolvidas em outras sociedades. O princípio da não-violência é um dos pilares dessa civilização e determina o comportamento individual e coletivo. A luta pela independência, conduzida pelo Mahatma Gandhi, usou da gentileza da resistência passiva e da não-violência para fazer os invasores europeus saírem de seu território. A ahimsa ou não violência, praticada no dia a dia faz com que os índices de violência sejam muito mais baixos do que os da América Latina e da África. (World Tables, do Banco Mundial, mostra que os índices de homicídios intencionais por 100.000 habitantes na Índia são seis vezes menores do que no Brasil. Link http://data.worldbank.org/indicator/VC.IHR.PSRC.P5 )
A Índia exerceu a hospitalidade e criou um sistema de valores que facilitava a tolerância para com o diferente. No exercício da convivência com o diferente, a cosmovisão indiana tem grandes contribuições para as demais civilizações. Ali formou-se uma civilização que desenvolveu tolerância a diferenças, ao acomodar em seu território, durante milênios, imigrantes e descendentes de arianos e drávidas, maometanos e gregos, europeus de Portugal, França, Inglaterra. Disso resultou um país com grande diversidade de línguas, culturas e costumes que talvez seja, no mundo, o povo mais diverso e a sociedade em que se experimentam mais explicitamente os extremos das grandezas e misérias da condição humana. Ela absorveu e metabolizou influências das inúmeras invasões que sofreu ao longo de sua história e as devolveu transformadas ao mundo. À diferença dos países europeus, que colonizaram a África, Ásia e América, e ali predaram e parasitaram recursos com os quais se sustentar, a Índia nunca foi expansionista. Pelo contrário, absorveu os imigrantes que chegavam.
A Índia exercitou, na prática, formas de acomodação que facilitam a convivência. Unidade na diversidade é o lema da nação indiana. Há unidade de princípios dentro da diversidade étnica e cultural. O poeta indiano e prêmio Nobel Rabindranath Tagore assim expressou essa condição do país: “A missão da Índia foi como a da anfitriã que tem que prover acomodações apropriadas para numerosos hóspedes, cujos hábitos e necessidades são diferentes uns dos outros. Isso causa complexidades infinitas, cuja solução depende não meramente de tato, mas de simpatia e de um verdadeiro entendimento da unidade do homem". Tagore conclui: “Temos que reconhecer que a história da Índia não pertence a uma raça em particular, mas a um processo de criação para o qual várias raças do mundo contribuíram – os drávidas e os arianos, os antigos gregos, os persas, os maometanos do oeste e aqueles da Ásia central. E por fim, foi a vez dos ingleses nessa história, trazendo-lhe o tributo de suas vidas; não temos o poder nem o direito de excluir esse povo da construção do destino da Índia. ” (TAGORE, 1976). Para abrigar hóspedes tão diversos em seu território, a civilização indiana desenvolveu o espírito de tolerância e não violência. A capacidade de ser um bom anfitrião e de bem receber migrantes está relacionada com um entendimento generoso da unidade do ser humano. Tem a ver com solidariedade, empatia, compaixão, valores que vão além dos interesses econômicos e materiais imediatos. A receptividade para com aqueles que migram e pretendem se estabelecer de modo permanente está relacionada com a capacidade de colocá-los à vontade, não os hostilizar ou excluí-los. A habilidade de ser receptivo e de acolher imigrantes é valiosa num mundo com números crescentes de refugiados de guerra, políticos, econômicos ou ambientais. A tecnologia de convivência e respeito a diferenças desenvolvida nessa civilização é essencial no mundo conflagrado por conflitos étnicos. Nesse contexto, vale aprender com a civilização indiana que soube ser resiliente, suportar os impactos de invasões e acomodar povos e culturas diferentes.