sexta-feira, 6 de maio de 2016

Ecologizando a economia



Vivemos num pequeno planeta com limitada capacidade de suporte. O crescimento econômico ilimitado, baseado em consumo crescente de recursos naturais e produção de bens materiais pode produzir o colapso ecológico. A economia não pode continuar a fazer de conta de que não existem limites ecológicos na capacidade de suporte da Terra.
Nos processos biológicos, muitas vezes o crescimento ilimitado constitui uma doença, como ocorre com a proliferação de células cancerígenas. O planeta não sustenta pressões ilimitadas e se defende por meio das mudanças ambientais e climáticas. Caso o modo de crescimento seja qualitativo, mais do que quantitativo e caso seja baseado em recursos renováveis, ele pode ser compatível com a capacidade do planeta por um maior período. Fritjof Capra e Hazel Henderson distinguem o crescimento quantitativo do crescimento qualitativo e defendem esse último.
Na relação da economia com as Ciências Ecológicas há a urgência de inverter posições. A economia é parte da ecologia, e não o contrário. A Ecologia é a teoria e a ciência primordial e a economia é uma de suas aplicações: “A função da economia seria cuidar de nossas pequenas casas, aquelas que só podem perseverar em suas atividades se a teoria da grande casa – nosso planeta ou nossa biosfera – for capaz de abrigá-las” escreve Patrick Viveret, em Reconsiderar a riqueza, 2006. A economia precisa atuar considerando os processos, as potencialidades e limites ecológicos, para não agravar os colapsos ambientais e conseqüentes problemas sociais, o sofrimento humano, a produção de refugiados climáticos e os riscos políticos e à segurança.
Capra (2002), aponta que economia e ecologia têm metas distintas:
“Ao passo que o capitalismo global é composto de redes eletrônicas de fluxos de finanças e de informação, o projeto ecológico mexe com redes ecológicas de fluxos de energia e matéria. A meta da economia global, em sua forma atual, é a de elevar ao máximo a riqueza e o poder de suas elites; a do projeto ecológico, a de elevar ao máximo a sustentabilidade da teia da vida. “
Para integrar as questões econômicas e ecológicas, é necessário o casamento entre as políticas ambientais e as econômicas. Economia e ecologia precisam caminhar na mesma sintonia e o sistema econômico precisa considerar as questões ecológicas.
A Ecologia econômica é um dos muitos campos em que se desdobraram as Ciências Ecológicas desde os primórdios da Ecologia como um ramo da Biologia, no século XIX. Cabe ao campo da ecologia econômica:
• Promover a inclusão da economia na ecologia.Analisar a interação dos processos sociais, econômicos e naturais.
• Analisar os efeitos dos fenômenos ambientais e climáticos sobre os diferentes setores econômicos.
• Avaliar possibilidades econômicas e limites ecológicos dos ecossistemas.
• Avaliar criticamente modelos de desenvolvimento que desfiguram ecossistemas e colocam a vida em perigo.
• Conhecer os efeitos, sobre os recursos naturais, da pressão pela satisfação das demandas materiais.
• Desenhar modelos e indicadores para avaliar o uso econômico dos ecossistemas e dos recursos naturais renováveis e seus impactos sobre o meio ambiente natural e humano.
• Oferecer conhecimentos para conciliar demandas econômicas com a manutenção dos processos ecológicos vitais.
• Recuperar a ideia de fideicomisso, pela qual os cidadãos atuam como guardiões e protetores de ecossistemas em nome dos cidadãos e das gerações futuras. Hoje, governos e corporações representam interesses imediatistas e não representam as gerações futuras, os ecossistemas e as espécies não humanas.
A natureza presta serviços ambientais ao reciclar nutrientes, produzir e purificar a água, fornecer oxigênio, sequestrar e reciclar o carbono, regular o clima e moderar o impacto de mudanças climáticas, manter e proteger a biodiversidade, reduzir perdas de solos e nutrientes, reduzir riscos de incêndios, contribuir para a beleza e a recreação. Caso tais serviços não fossem prestados gratuitamente, teriam custo para a sociedade. A ecologia econômica propõe que sejam contabilizados e que sejam oferecidas compensações econômicas aos serviços naturais prestados pela natureza.
Ecologizar a oferta é necessário porém insuficiente. Não basta a ecoeficiência, o aumento de produtividade, a redução de emissões de poluentes, as energias renováveis, o esverdeamento da construção civil, da produção de energia, do transporte, da agricultura. Isso é necessário, porém insuficiente caso não existam mudanças correspondentes no padrão de demanda e no comprometimento social e individual com atitudes e comportamentos ecologizados. Na economia, a formação da demanda tem um forte componente psicológico e cultural.
A crise climática oferece oportunidades para se redirecionar as demandas, as tecnologias e modos de produção em direção a uma economia ecologizada, de baixo carbono. Entretanto, para que essas oportunidades sejam aproveitadas, os tomadores de decisão, empresários, a sociedade civil e os governantes precisam ter uma mentalidade ecologizada. O déficit de formação cultural, de percepção e de compreensão desses temas, precisa da Ecoalfabetização. Precisa conhecer o que são as ecologias, que se desdobram em muitos campos, a partir de sua origem nas ciências biológicas. Ecologizar as crenças, os desejos, a educação e a cultura implicam em internalizar os conhecimentos das ciências ecológicas nesses campos.



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Árvores e conflitos



Em visita a Hiroshima, em 1986, nosso grupo de estudantes desejou plantar uma árvore no Parque da Paz, em homenagem aos mortos pela bomba atômica no dia 6 de agosto de 1945. Foi necessário pedir autorização na prefeitura, que determinou a espécie, o local em que deveria ser plantada, forneceu a muda de tamanho adequado e as ferramentas para o plantio. Pela primeira vez percebi que a gestão das árvores demandava cuidado técnico e científico.
A adequada arborização urbana e rodoviária exige conhecimentos de botânica, de engenharia florestal, de paisagismo, para que cumpra suas funções com segurança e beleza. Na ausência desses conhecimentos, ocorrem acidentes tais como a queda de árvores ou de galhos, com perdas de vida e perdas materiais e pode-se gerar um sem número de outros conflitos e  inconvenientes para os cidadãos.
Quando fui secretário de meio ambiente em Belo Horizonte, MG, a maior demanda dos cidadãos era pela poda de árvores em frente a suas casas. Os galhos invadiam as janelas, facilitavam assaltos a residências, conflitavam com a fiação elétrica, as raízes rompiam redes de água e esgoto e estouravam a pavimentação; as folhas entupiam as calhas e causavam goteiras. 

Em articulação com as administrações regionais,  realizamos o cadastramento, poda e plantio programado de árvores nas vias urbanas. Montamos um projeto, o Verde Vivo, com o objetivo de aprimorar os critérios e normas técnicas para poda e plantio de árvores e promover a harmonia na convivência entre árvores, pessoas e equipamentos urbanos. Foram cadastradas centenas de milhares de árvores, o que incluía seu endereço, espécie, diâmetro, copa, altura, condições do tronco, estado fitossanitário, sistema radicular, largura do passeio e recuo do imóvel, presença de rede elétrica, período de floração e de frutificação. Engenheiros florestais ou agrônomos definiam as espécies mais adequadas para serem plantadas e evitavam aquelas que produziriam conflitos com as condições locais. Empresas contratadas faziam o plantio e a poda. Uma auditoria aferia se os tipos de podas recomendados eram os executados, reduzindo a margem de irregularidades por parte das empresas prestadoras dos serviços, que recebiam efetivamente o preço justo contratado. Campanhas de comunicação na mídia e folhetos para os moradores proporcionaram o necessário apoio e a simpatia da população e reduziram os índices de perdas por vandalismo contra as mudas plantadas. Os galhos e folhas, resíduos da poda de árvores eram doados a associações de ação social, que distribuíam a receita em obras filantrópicas. Galhos finos e folhas resultantes da poda eram reutilizados visando à produção de energia e de composto orgânico, usado na fertilização dos próprios canteiros e jardins da cidade.
Na Praça da Liberdade restaurada na ocasião, encontramos árvores inapropriadas, como sapucaias, plantadas com as melhores intenções, mas com pouca avaliação dos seus impactos, pois crescem demasiadamente, tornando-se logo impróprias para aqueles locais. A partir de projetos de paisagismo aprovados no Conselho Municipal de Meio Ambiente, o Parque Municipal  foi remodelado, muitas árvores foram eliminadas e substituídas por outras.
Sistematizamos o conhecimento sobre os principais temas da gestão ambiental urbana numa série de Cadernos de Meio Ambiente, então publicados por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Um deles abordava a arborização urbana,  sua história e  funções, bem como a importância do planejamento. Também descrevia a estrutura de uma árvore, o planejamento da produção de mudas, do plantio, as espécies adequadas, a implantação de jardins e canteiros; o planejamento da poda, as causas da redução da cobertura vegetal e os problemas de saúde das árvores. Naquele caderno registramos o conhecimento sobre a arborização urbana e contribuímos para a educação ambiental.
Quando me mudei para Brasília, me impressionou positivamente a plenitude com que, nessa cidade, as árvores crescem em amplos espaços, o que reduz a necessidade de podas. Os acidentes com grandes árvores são raros, mas basta atropelar a periodicidade adequada e descuidar dos preceitos dos bons cuidados para, em pouco tempo, o mato e a galharia rebelde da vegetação urbana tomarem conta da cidade.
Historicamente no Brasil desmatador, árvore é desvalorizada como um estorvo: limpar o mato, campo limpo e campo sujo são expressões que denotam essa visão da árvore como sujeira, algo a ser removido. Arquitetura e urbanismo colonizados e que imitam países de clima temperado tampouco valorizam a vegetação. Poucos arquitetos e urbanistas conhecem e valorizam o paisagismo.
Há cidades com pouca vegetação nas vias públicas, mas com quintais preciosos que merecem ser preservados. Algumas cidades têm feito isso por meio de isenção de impostos municipais, que incentivam os proprietários a preservarem as árvores. 
A gestão ambiental é gestão de conflitos de interesses e um dos conflitos frequentes ocorre entre proprietários de terrenos que querem fazer empreendimentos imobiliários em terrenos com áreas verdes   com argumentos de que há interesse  social e grupos ambientalistas que priorizam proteger a vegetação ali existente e criar parques de uso publico e coletivo. A mediação de tais tipos de conflitos é parte integrante da gestão ambiental urbana. O aporte de conhecimentos técnicos pode ajudar a chegar a uma solução negociada, como ocorreu no parque da Mata das Borboletas, no Sion, onde as áreas no entorno de nascentes foram tecnicamente delimitadas, o que ajudou a definir a área que foi protegida.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Desafios do consumo consciente

A consciência sobre a importância do meio ambiente aumentou nos últimos anos no Brasil e em todo o mundo. De questão periférica, passou a ser central, associada à sobrevivência e à segurança.
A partir de 2007, milhões de pessoas tomaram conhecimento das questões climáticas, quando foi divulgado o 4º Relatório do IPCC- Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.
Nos últimos anos, houve um crescimento vertiginoso na consciência sobre as questões ecológicas em diversos públicos e segmentos sociais e nas práticas ambientais de indivíduos e organizações.
A conscientização ecológica é um requisito para superar a atual crise ambiental e climática, pois dela podem decorrer mudanças de comportamento e atitudes sociais e individuais. Hoje, mais pessoas praticam a separação de resíduos domiciliares; muitos se preocupam com a devastação da Amazônia; há disposição para aderir a campanhas pro-ambiente; diminuiu o número de pessoas que não sabem identificar os problemas ambientais; as agressões aos sentidos da visão, do olfato, da audição, ajudaram a ampliar a percepção sobre os problemas ambientais urbanos; cresceu o consumo de alimentos orgânicos, agora encontrados em supermercados; cresceu a percepção de que os problemas ambientais prejudicam a saúde individual e pública e que o consumismo prejudica a saúde ambiental; entraram no repertório e no vocabulário conceitos como "desenvolvimento sustentável", "consumo sustentável" e "biodiversidade", ainda que não haja uma definição clara sobre o que sejam.
Entretanto, muitas cidades ainda não dispõem de projetos ou sistemas de gestão de resíduos, de tratamento de esgotos, de mobilidade pública, de normas arquitetônicas que reduzam desperdícios de água e energia; ao descartar o lixo, persistem hábitos prejudiciais ao meio ambiente; não se conhece o ciclo de vida do produto em toda a sua extensão; a ignorância não é apontada como um problema ambiental sério.
Atualmente, existe uma politização crescente do consumo e por outro lado, há a alienação do consumidor, que desconhece total ou parcialmente os impactos ambientais do consumo de bens materiais. Ainda há um longo caminho a ser percorrido que fortaleça a consciência e a traduza em mudanças de atitudes.
As definições de consumo responsável, consciente, sustentável têm diferentes significados. Numa perspectiva econômica, o consumidor responsável é aquele que paga suas contas em dia, o consumidor sustentável é aquele que não se endivida e cuja renda é combatível com seus gastos. Numa perspectiva ecológica, o consumidor responsável é aquele que age de modo a reduzir seus impactos negativos e sua pegada ecológica.
A questão do consumo consciente traz desafios conceituais, bem como desafios práticos e operacionais. Um desafio conceitual é a própria definição do que é ser consciente. Abordagens superficiais associam a consciência a um nível elementar de informação sobre um tema ou assunto e outras, mais profundas, se debruçam sobre os condicionamentos culturais e sociais que moldam a consciência individual ou coletiva; há também aquelas que abordam o inconsciente coletivo, bem como as dimensões da consciência que não são visíveis explicitamente, mas que influenciam as atitudes e comportamentos. Há uma multiplicidade de estudos sobre a consciência, desde aqueles com origem na neurociência, até os da psicologia e da filosofia.[1] O que é ser consciente e o que é ser um consumidor consciente são questões que podem ser tratadas superficial ou profundamente. Abordagens superficiais frequentemente deixam escapar aspectos relevantes dessas questões.
A consciência não envolve apenas informação e conhecimento, vai além disso, traduzida em atitudes, comportamentos, tomadas de decisão, ações práticas. Assumir compromissos e responsabilidades é uma manifestação de despertar da consciência. Decisões de consumo podem ser tomadas de modo consciente, mas irresponsável. Assim como muitos crimes e erros são intencionais, premeditados, muitas decisões de consumo também são tomadas tendo-se consciência de seus impactos negativos. O consumidor pode ser consciente dos males que provoca e ainda assim cometer o ato que os causa, seja por irresponsabilidade ecológica, ou por pura maldade. Pode ter uma noção estreita do que são seus interesses e, por ignorância, egoísmo ou falta de visão de longo prazo e de uma perspectiva ampla, não ter vontade e determinação para agir com responsabilidade. O consumo ecologicamente responsável é um ato que aplica na prática o que pensa, diz ou sente. Assim como consumir para atender a necessidades básicas de sobrevivência é um direito, fazê-lo com responsabilidade é um dever.
Há desafios práticos: como traduzir o conhecimento e a informação sobre o consumo e seus impactos em atitudes vivenciadas? Como exercer a responsabilidade ética e ecológica nos hábitos de consumo? Desculpas e pretextos para não agir, autocomplacência, falta de rigor consigo mesmo, falta de coerência entre pensamento, discurso e ação acometem pessoas bem informadas. Aos inconscientes ou alienados nem sequer ocorrem tais questões, pois as considerações de responsabilidade ecológica e ética passam longe do radar de sua percepção, deliberadamente ou não. O tema do consumo consciente exige um esforço de autoconhecimento, um exercício honesto de auto avaliação e autocrítica individual e coletiva.
A irresponsabilidade no consumo é mais evidente nos segmentos mais ricos, com maior capacidade de gastos, para quem o desperdício e a compra de bens posicionais (ver referência de Eduardo Giannetti da Fonseca) forma parte significativa de sua motivação de consumo. Valorizam produzir inveja, exibir status e poder econômico, sentir-se superiores por poderem consumir mais. Maior poder aquisitivo não necessariamente significa melhor opção em termos de saúde ou de proteção ambiental; pode significar uma pior opção quanto a esses aspectos. Exemplos: a opção por dietas alimentares que levam a obesidade e a sobrepeso; a opção por carros grandes que consomem muito combustível, que por outro lado preenchem funções psicológicas de demonstração de status social ou de sentir-se mais seguro no ambiente violento do trânsito.
Um terceiro desafio, ainda, é a escolha da ação adequada que permita rumar para um consumo com menor impacto destrutivo – ambiental, ecológico, climático ou social.
A pior inconsciência e ignorância é não saber que se é inconsciente e ignorante. É relevante aferir em que medida as pessoas sequer são conscientes de sua própria inconsciência, deixam-se levar pelas normoses sociais e não reconhecem sua ecoalienação.
A cultura molda, forma, regula a consciência. Filtros sociais e culturais, bem como circuitos de programação mental podem aprisioná-la. A publicidade arma ciladas e armadilhas, manipula emoções e mentes, criam prisão mental. Condicionamentos culturais e religiosos, os hábitos arraigados, as influências da TV, dos formadores de opinião, líderes religiosos e políticos ou gurus podem atrofiar, escravizar, anestesiar, hipnotizar a consciência.
O consumidor é um ser com necessidades físicas e corporais e com demandas mentais e emocionais. Parte de seu consumo tem origem nesta dinâmica mental e emocional. Frustrações e carências afetivas levam à shopping terapia, ao consumo compulsivo de bens e serviços que preencham tais carências. O consumo inconsciente se alimenta da insegurança emocional, de pensamentos de poder e sensação de segurança trazida pela posse de bens materiais.
Consumo consciente é liberdade para escolher o que consumir ou não consumir.

Devem-se reconhecer   os limites do consumo consciente. O consumo é uma das etapas do processo   econômico, juntamente com a produção e a circulação de produtos e serviços.   Os esforços pelo consumo consciente não levam muito longe caso não haja,   também, processos de produção e de   distribuição responsáveis e conscientes; caso a própria sociedade e a   civilização não se tornem mais responsáveis e conscientes.
(*) Autor de Ecologizar e de Meio ambiente & evolução humana   www.ecologizar.com.br   ecologizar@gmail.com

O espectro da consciência


Um dos campos das ciências que mais tem se desenvolvido é aquele relacionado com a consciência humana. A partir da neurociência, da psicologia, da informática, com seus softwares e hardwares, projetam-se imagens e modelos de como atua a consciência humana.
Ken Wilber é um dos importantes autores nesse campo. Ele escreveu o livro O espectro da consciência, no qual mostra que há diferentes estágios de consciência e áreas cegas para alguns e que são evidentes para outros, em função de suas capacidades de compreensão.
Ken Wilber é um dos cientistas ocidentais que conhece e valoriza as concepções se Sri Aurobindo sobre a consciência, admitindo que existem faixas do espectro da consciência abaixo e acima daqueles percebidas nos estados de consciência normais de vigília. Dependendo da faixa com a qual estamos sintonizados, captamos as ondas de um canal de rádio ou de televisão. Se girarmos o dial e sintonizarmos em outra faixa desse espectro, a realidade para nós se altera.


O espectro eletromagnético. Abaixo do infravermelho e acima do ultravioleta as ondas não são perceptíveis a olho nu e demanda-se o uso de instrumentos para percebe-las.


Ken Wilber escreveu a introdução ao livro de A.S. Dalal sobre A greater Psychology, que sintetiza as ideias de Sri Aurobindo sobre a subjetividade e sobre a infra e a supraconsciência.[1]
A abordagem psicológica iogue é baseada numa visão ampla e generosa do que é o ser humano, com seus aspectos corporais, mentais, emocionais, espirituais. “Para cada conceito psicológico em inglês há quatro em grego e quarenta em sânscrito. ” observa A.K. Coomaraswamy[2] apontando para a profundidade dos conceitos psicológicos e subjetivos na civilização indiana.
O espectro integral da consciência, com a infra e a ultraconsciência.

Ramos da psicologia ocidental admitem a existência do inconsciente individual ou coletivo ou do subconsciente, mas negam a existência da supraconsciência ou da ultraconsciência. Compreendendo o espectro integral da consciência na natureza, na vida, na cultura, Sri Aurobindo propôs o Yoga integral, que inclui os seguintes níveis: a matéria, o vegetativo, a sensação, a percepção, o vital-emocional, a mente inferior, a mente concreta, a mente lógica, a mente mais elevada, a mente do mundo, a mente intuitiva, satchitananda/supermente – divindade ou ente supremo.

[1] DALAL, A. S. A Greater Psychology – An introduction to the psychological thought of Sri Aurobindo. Pondicherry: Sri Aurobindo Ashram Press, Índia, 2001.

[2] Citado por RUSSELL, Peter. Acordando em Tempo – encontrando a paz interior em tempos de mudança acelerada. São Paulo: WHH, Antakarana, 2006.