Padres e bispos, pastores, pais e
mães de santo, rabinos, monges, médiuns, gurus, mestres espirituais, líderes
religiosos de todas e de cada uma das tradições religiosas influenciam as
mentes e as atitudes de seus liderados.
Eles são milhões em todo o mundo,
com bilhões de seguidores. São ouvidos, suas vozes são respeitadas. Transmitem,
de geração para geração, valores e princípios de comportamento. Codificam
princípios éticos e obtêm a adesão voluntária de seus seguidores. Transmitem
conhecimentos, com impacto sobre o estilo de vida daqueles que a elas aderem.
Formam a cosmovisão e moldam o imaginário individual e grupal, influenciam
hábitos alimentares e de consumo em geral, bem como a vida pessoal e as ações
profissionais. Quando propõem mudanças de valores, estilos de vida e padrões de
consumo podem ajudar a lidar com o colapso climático e ambiental.
Na sociedade
contemporânea, várias fontes influenciam a consciência das pessoas: desde os
meios de comunicação de massa, com seus apelos consumistas, até as escolas, as
organizações sociais, as famílias, os ambientes de trabalho. As religiões,
fatos antropológicos que geram intensa energia individual e social, modelam
comportamentos. Por um lado, produzem fanáticos fundamentalistas intolerantes.
Por outro lado, são veículos para disseminar a consciência ecológica.
Ken Wilber
constata no seu livro Espiritualidade Integral
que a consciência se manifesta em vários estágios: arcaicos, míticos, mágicos,
racionais. As religiões não excluem esses vários estágios da consciência. Nesse
ponto diferem da ciência, racional, que descarta as versões infantis da consciência
e “adota apenas os resultados mais recentes do momento”. A consciência racional da era moderna e
pós-moderna rejeita crenças e mitos e não abre espaço para eles, o que na visão
de Ken Wilber, produz reações como as dos terroristas e militantes fundamentalistas.
Cada um desses estágios é como uma estação num caminho. As pessoas estacionam
em algum deles antes de avançar para o seguinte. “As primeiras estações – do arcaico
para mágico e até mítico – envolvem estágios que, todavia, são aqueles que a
vanguarda da humanidade vivenciou em seus primórdios da vida, na infância e na
adolescência.” Ele afirma que a religião “é a única instituição com permissão
para sancionar estágios que a humanidade atravessou nos seus primórdios, agora
codificados em suas versões do nível mítico de sua mensagem espiritual.” Ele
diz que a religião dá legitimidade aos mitos criados no passado e que são
significativos para cerca de 70% da população mundial que vivem nesses estágios
mágicos ou míticos. Ele constata que a religião funciona como uma esteira
transportadora de um estágio de consciência para outros. Ken Wilber observa que
“quanto antes as tradições espirituais começarem a oferecer estágios e estados
superiores, mais cedo a religião poderá assumir seu novo papel no mundo moderno
e pós-moderno: o papel de grande esteira transportadora da humanidade em
geral.” As religiões podem oferecer a seus praticantes a vivência de estados de
consciência contemplativos e meditativos e, dessa forma, ajudá-los a ascender
para estágios de consciência mais amplos.
Pensadores e cientistas na
vanguarda reconhecem o potencial das tradições espirituais para contribuir na
formação da consciência ecológica. Diz James Lovelock, em A vingança de Gaia que “Meu desejo há muito tempo é que as
religiões e os humanistas seculares se voltem para o conceito de Gaia e
reconheçam que os direitos e necessidades humanos não são suficientes. Os
religiosos poderiam aceitar a Terra como parte da criação de Deus, protegendo-a
da profanação.” (2006, p. 132) Entretanto o próprio Lovelock constata as
limitações das religiões ao observar que “Os fundadores das grandes religiões
do judaísmo, cristianismo, islamismo, hinduísmo e budismo viveram em épocas
quando éramos bem menos numerosos e vivíamos de um modo que não sobrecarregava
a Terra.” E que “Nossas religiões ainda não nos deram as regras e orientações
para o nosso relacionamento com Gaia. O conceito humanista de desenvolvimento
sustentável e o conceito cristão de direção são maculados por uma arrogância
inconsciente. Não dispomos do conhecimento nem da capacidade para
atingi-los.” (2006, p.
131)
Algumas tradições compreendem a
espécie humana como parte da grande teia da vida, dependente da sobrevivência
do mundo animal e vegetal. Podem ajudar a disseminar a consciência ecológica. A
transmissão de mensagens e valores por meio das tradições espirituais é parte
da aprendizagem ecológica. Em várias religiões, essa transmissão era feita por
intermédio de imagens, mitos e histórias que, numa linguagem ao mesmo tempo forte
e atraente, disseminaram as informações fundamentais para a sobrevivência
autossustentada.
O papa
Francisco, com sua encíclica Laudato Si de 2015 procura cobrir uma lacuna no
pensamento e na cosmovisão católicas, antropocentradas e com pouca ênfase na
natureza, com a exceção de São Francisco de Assis. A Encíclica é um movimento
no sentido de ecologizar o catolicismo. As religiões e tradições espirituais,
se ecologizadas, poderiam contribuir para a consciência e as práticas
ecológicas. Ecologizar as religiões pode ser um caminho promissor para transformar
a consciência e as atitudes humanas no sentido de maior cuidado com o ambiente.
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