domingo, 1 de novembro de 2026

Mafiacracia e captura das instituições do estado.

 

Resumo crítico do artigo anexo sobre Mafiacracia e captura das instituições do estado.

Resumo Crítico: "From Caged Animals to Caged Citizens: Mafiacracy and State Capture in Rio de Janeiro" (Luiz Ventura, 2026)

1. Síntese do argumento

O artigo propõe o conceito de mafiacracia (grafado também como malofocracy/mafocracy no texto, numa inconsistência terminológica que persiste ao longo de todo o manuscrito) como uma configuração específica de captura do Estado em que organizações criminosas deixam de ser atores externos que "infiltram" instituições e passam a ser participantes coalisionais na moldagem das regras, da autoridade institucional e da alocação de recursos públicos. O autor distingue mafiacracia de três conceitos vizinhos: (a) crime organizado em si (foco em mercados ilícitos); (b) criminal governance (regulação de territórios e da vida civil na ausência do Estado); e (c) corrupção estratégica (uso da corrupção como instrumento externo de influência).

O argumento é desenvolvido em três movimentos:

1.      Fundamentação conceitual: revisão da literatura sobre state capture (Hellman et al., 2003; Kaufmann, 2024), corrupção estratégica e governança criminal, com a proposição de que a captura é simultaneamente espacial e temporal — o Estado "nasce capturado", e a captura se consolida por trajetórias path-dependent.

2.      Reconstrução histórica diacrônica: do jogo do bicho (1892) à consolidação das milícias, passando pelo período ditatorial, pelo julgamento dos bicheiros (1993, juíza Denise Frossard), pela CPI das Milícias (2008), pela intervenção federal (2018) e pelo caso Marielle Franco.

3.      Mecanismos de reprodução: captura política (CPAP) e lavagem de dinheiro como "ponte regulatória" entre esferas formal e informal, fechando o ciclo extração → capital → influência institucional.

O arcabouço analítico adapta o State Capture Index (SCI) de Kaufmann — CCRL (rule of law corrupto e capturado), CPAP (acesso político e policy capturados) e CENE (ambiente facilitador da captura) — como scaffold conceitual, não como ferramenta empírica replicável.

2. Avaliação crítica

2.1 Pontos fortes

a) Contribuição conceitual genuína. A distinção entre mafiacracia e conceitos adjacentes é analiticamente produtiva. A ênfase no caráter coalisional (e não meramente infiltrativo) da participação criminal na autoridade institucional captura algo que a literatura de criminal governance (Arias, Lessing, Mantilla) e a de state capture (Kaufmann) tratam separadamente. A ideia de que a mafiacracia se sustenta preservando a aparência formal de legalidade — em vez de substituí-la — é particularmente feliz.

b) Perspectiva diacrônica e espacial. A recusa de uma leitura linear ("descida") em favor de "um século de mutações, rupturas e reconstruções" é metodologicamente sofisticada. A articulação entre controle territorial e captura institucional — via Misse e a noção de mercadorias políticas — enriquece a análise.

c) Transparência metodológica incomum. O autor é explicitamente cuidadoso em distinguir proposições conceituais, afirmações descritivas documentadas, exemplos ilustrativos e conclusões interpretativas (Seção 5.2). O reconhecimento das limitações das fontes secundárias (jornalismo, relatórios institucionais) e a recusa de apresentar as tabelas como "registro legal verificado" são louváveis.

d) Uso criterioso do SCI como arquitetura analítica. A adaptação ao nível subnacional — com equivalentes funcionais locais para CCRL, CPAP e CENE — é uma contribuição metodológica para pesquisas futuras, ainda que o próprio autor admita que a operacionalização fica para uma agenda posterior.

2.2 Fragilidades e pontos de tensão

a) O conceito é mais afirmado do que demonstrado. O artigo é explicitamente exploratório e theory-building, mas o leitor fica com a sensação de que a mafiacracia é definida por um conjunto de traços que, na prática, se sobrepõem consideravelmente à criminal governance e à captura do Estado por elites. A "mais-valia" analítica do conceito — o que ele explica que os conceitos existentes não explicam — é enunciada com clareza, mas a demonstração empírica de que se trata de uma configuração distinta (e não de um caso de captura elitista com participação criminal) permanece incompleta. O critério de falseabilidade é vago.

b) Inconsistência terminológica. O manuscrito oscila entre "mafiacracia", "mafocracy", "malofocracy", "mafocratic", "malfacratic" e "mafioocracy". Isso não é apenas um problema de revisão linguística: sugere que o conceito ainda não estabilizou sua própria identidade. Para um artigo que faz da precisão conceitual sua principal contribuição, é uma fragilidade significativa.

c) Tratamento da lavagem de dinheiro como "hipótese ilustrativa". A Seção 9 é, talvez, a mais interessante e a mais frágil. O autor reconhece que os três canais (especulação imobiliária, contratos públicos, negócios de caixa) são "aplicações interpretativas de padrões estabelecidos", não achados verificados. Isso é honesto, mas enfraquece a pretensão de que a lavagem seja o "mecanismo regulatório" central que "fecha o ciclo" da captura. A evidência apresentada é amplamente indireta e baseada em reportagens.

d) Assimetria na evidência sobre captura política. A Tabela A4 (casos de vínculos político-criminosos) é apresentada como "ilustrativa", mas o texto constrói inferências relativamente fortes a partir dela. O caso Marielle Franco é mobilizado como "caso paradigmático", mas a conexão com o argumento mais amplo sobre mafiacracia poderia ser mais cuidadosamente calibrada — o crime é atribuído a ex-policiais ligados ao Escritório do Crime, mas a cadeia causal até a "captura institucional" permanece, ela própria, objeto de investigação em curso.

e) Ausência de contra-argumentos e casos negativos. O artigo não examina por que a mafiacracia não se consolidou em outros contextos urbanos brasileiros com características similares (e.g., São Paulo com o PCC, ou outras capitais com milícias). Sem variação comparativa — mesmo que ilustrativa — a inferência sobre os mecanismos causais fica enfraquecida. O autor reconhece que Rio é "analiticamente relevante, não representativo", mas isso não dispensa a necessidade de algum contraste.

f) Tensão não resolvida entre estrutura e agência. O texto afirma que "o Estado nasce capturado" (perspectiva quase estruturalista) e, ao mesmo tempo, enfatiza a "oportunidade e adaptabilidade tática dos atores" (perspectiva agencial). A relação entre essas duas camadas não é teorizada com clareza. A noção de "elite coalitions" é invocada repetidamente, mas o artigo nunca especifica quem são essas elites, como se coordenam, e por que às vezes competem (eixo horizontal) e às vezes convergem contra a sociedade (eixo vertical). A distinção horizontal/vertical é promissora, mas subdesenvolvida.

g) Dependência excessiva de fontes jornalísticas e de uma literatura secundária relativamente estreita. A base empírica repousa pesadamente em O Globo, Folha, Manso (2020), Olliveira (2025) e nos relatórios do GENI/UFF e Fogo Cruzado. Isso é compreensível para um artigo exploratório, mas limita a originalidade empírica. O artigo não utiliza dados primários, entrevistas, ou análise documental de processos judiciais — o que seria esperado para sustentar afirmações sobre "captura" institucional.

h) O SCI é usado de forma mais retórica do que operacional. O autor é explícito ao dizer que não operacionaliza o índice. Mas, ao organizar o artigo em torno de CCRL, CPAP e CENE, cria a expectativa de que essas dimensões serão sistematicamente examinadas. Na prática, a Seção 7 (histórica) ilustra principalmente CENE e CCRL, a Seção 8 (captura política) ilustra CPAP, e a Seção 9 (lavagem) "atravessa" as três — mas sem a disciplina analítica que a estrutura tripartite prometia. O resultado é que o SCI funciona mais como rubrica organizacional do que como ferramenta analítica.

i) Questões de escopo e posicionamento. O artigo é publicado em Frontiers in Political Science, mas o autor é do Departamento de Economia da Universidad Nacional Mayor de San Marcos (Peru). Há uma tensão entre a ambição teórica (contribuir para debates sobre captura do Estado, crime organizado e erosão democrática) e a modéstia empírica (um único caso, fontes secundárias). O artigo se posiciona como "exploratory, theory-building", mas a originalidade teórica — embora real — é mais uma recombinação de conceitos existentes do que uma ruptura paradigmática.

2.3 Questões abertas para o debate

1.      A mafiacracia é um tipo ideal ou um continuum? O artigo sugere ambas as coisas. Se é um tipo ideal, quais são os casos puros? Se é um continuum, onde estão os limiares?

2.      Qual é a relação entre mafiacracia e democracia? O texto afirma que a mafiacracia persiste "dentro de uma ordem formalmente democrática", mas não desenvolve uma teoria da erosão democrática que dê conta dessa coexistência.

3.      O conceito viaja para fora do Rio? O autor sugere que sim (América Latina, "territorially fragmented and institutionally vulnerable settings"), mas sem especificar as condições de aplicabilidade.

4.      Como medir mafiacracia? O artigo deixa a operacionalização para pesquisas futuras — o que é legítimo, mas também adia a teste da fecundidade do conceito.

3. Conclusão

O artigo é uma contribuição conceitualmente ambiciosa e metodologicamente honesta para os estudos sobre crime organizado, captura do Estado e governança híbrida. Seu principal mérito é propor uma síntese — a mafiacracia — que articula literaturas frequentemente separadas (state capture, criminal governance, economia política da corrupção) e o faz com sensibilidade histórica e espacial. A reconstrução diacrônica do Rio de Janeiro é rica e bem informada, e a discussão sobre lavagem de dinheiro, embora especulativa, é provocativa.

Suas principais fragilidades são: (a) a inconsistência terminológica, que compromete a estabilidade do conceito; (b) a demonstração empírica insuficiente da distinção da mafiacracia em relação a conceitos vizinhos; (c) a ausência de contraste comparativo; (d) o uso mais retórico do que analítico do SCI; e (e) a dependência de fontes secundárias e jornalísticas para afirmações relativamente fortes.

Em suma: um artigo que vale ser lido e debatido, mas cujo conceito central ainda precisa ser submetido a teste empírico e comparação sistemática para se consolidar como ferramenta analítica robusta. A agenda de pesquisa que o autor esboça — operacionalização subnacional, análise de redes de lavagem, estudos comparativos — é, ela própria, o reconhecimento de que a mafiacracia é, por ora, mais uma promessa teórica do que uma explicação consolidada.

(Resumo encomendado e editado por Maurício Andrés com assessoramento do DeepSeek)

 

Comparação do Consumo de Água: Data Centers vs. Agricultura vs. Atividades Bélicas

 

Estimativas recentes (IEA, 2024; Li et al., 2023) indicam que data centers globais

consomem: Eletricidade: ~1–2% da demanda mundial (com projeção de crescimento acelerado

devido à IA); Água: entre 1 e 2 bilhões de m³/ano (consumo direto para resfriamento), com grande

variabilidade regional. Nos EUA, data centers respondem por cerca de 0,5–1% do

consumo hídrico nacional, mas em estados como Arizona ou Virgínia a pressão local é

desproporcional. O consumo hídrico dos data centers é localizado, concentrado e crescente, o que o

torna politicamente sensível mesmo quando o número global é modesto.

 Agricultura

Retiradas: ~70% das retiradas globais de água doce (FAO, 2020);

Consumo (evaporação): ~60% do consumo global;

Ineficiência: em muitas bacias, 40–60% da água irrigada é perdida por evaporação, infiltração ou escoamento;

Pegada hídrica: a produção de alimentos responde por ~90% da pegada hídrica global da humanidade (Hoekstra & Mekonnen, 2012). A agricultura é, de longe, o maior usuário consuntivo de água doce. Qualquer discussão séria sobre falência hídrica precisa colocá-la no centro.

 Atividades Bélicas

A pegada hídrica das atividades militares é subestimada e mal contabilizada: Consumo direto: bases militares, operações e treinamentos consomem água em larga escala (ex.: operações no deserto);

Contaminação: explosivos, combustíveis, agentes químicos e destruição de infraestrutura contaminam aquíferos e rios (ex.: contaminação por urânio empobrecido no Iraque; destruição da barragem de Kakhovka na Ucrânia em 2023);

Pegada indireta: a produção de armamentos tem pegada hídrica enorme (aço, alumínio, semicondutores, combustíveis);

Água como arma: o controle de infraestrutura hídrica é instrumento de guerra (ex.: cerco de Mariupol, uso do água como arma pelo Estado Islâmico).

Não há estimativa global consolidada, mas estudos setoriais sugerem que o complexo militar-industrial responde por uma fração significativa da pegada hídrica de países como EUA, Rússia e China — frequentemente maior, em termos per capita, do que o consumo de data centers.

 Conclusão comparativa: o consumo dos data centers é quantitativamente menor que o da agricultura e, provavelmente, que o das atividades bélicas em termos globais. Contudo, é qualitativamente distinto: concentrado, crescente, vinculado a corporações transnacionais e frequentemente implantado em regiões já sob estresse hídrico. ( texto encomendado e editado por Mauricio Andrés, com assessoramento do DeepSeek).

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Sobre segurança publica e maioridade penal

 I. PEC da Segurança Pública: governança colaborativa vs. expansão de poder

Argumentos centrais do lado favorável:

A governança da segurança pública no Brasil é historicamente liderada pelos estados e altamente fragmentada, o que permitiu que o crime organizado se expandisse entre estados e até internacionalmente. Esta PEC inscreve pela primeira vez o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) na Constituição, tornando o governo federal um sujeito diretamente responsável no combate ao crime, atuando de forma coordenada com as polícias estaduais e municipais. Ao mesmo tempo, o projeto estabelece mecanismos de proteção para fundos como o Fundo Nacional de Segurança Pública, impedindo que o orçamento seja congelado ou desviado para outras finalidades.

Preocupações do lado contrário:

O Ministério Público Federal (MPF) aponta que a proposta tem uma tendência de "priorizar a repressão e menosprezar as garantias", com problemas específicos que incluem: a inserção direta de regras penais severas no artigo 5º da Constituição (cláusula de direitos fundamentais), o que pode erodir a presunção de inocência e o princípio da individualização da pena; a concessão ao Congresso do poder de derrubar normas relacionadas ao CNJ e ao CNMP, o que pode politizar os órgãos de controle judicial; e a falta de independência real das corregedorias e ouvidorias estaduais, tornando os canais de denúncia contra violência policial meramente simbólicos. Além disso, a cláusula que autoriza a criação de polícias municipais também gera preocupação, com alguns parlamentares argumentando que milhares de forças policiais municipais podem ser mais facilmente infiltradas pelo crime organizado.

II. Redução da maioridade penal: confronto direto entre opinião pública e dados

Argumentos do lado favorável:

A CCJ da Câmara dos Deputados aprovou, por 44 votos a 18, a proposta de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos (PEC 32/15). O senador Rogério Marinho apresentou ainda uma emenda que defende a regra geral de redução para 16 anos e, para crimes graves (como crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo e participação em organização criminosa), para 14 anos. A lógica central dos defensores inclui: jovens acima de 16 anos já possuem discernimento suficiente; o limite atual de internação máxima de 3 anos no sistema socioeducativo é incompatível com a gravidade de crimes como homicídio e latrocínio; e as organizações criminosas se aproveitam justamente da brecha da "impunidade do menor" para recrutar adolescentes.

Dados e argumentos do lado contrário:

O UNICEF e o MPF apresentaram vários conjuntos de dados cruciais que questionam fundamentalmente essa lógica:

  • A criminalidade juvenil não está aumentando, está diminuindo: entre 2019 e 2024, o número de adolescentes apreendidos pela polícia caiu mais de 35%. Os jovens são mais vítimas da violência do que agentes dela — entre 2020 e 2023, mais de 15 mil jovens de 0 a 19 anos foram assassinados, a maioria negros e moradores de favelas.

  • A reincidência no socioeducativo é muito menor do que no sistema prisional adulto: a taxa de reincidência no sistema socioeducativo é de aproximadamente 20% (2 em cada 10), enquanto no sistema prisional adulto é de cerca de 40% (4 em cada 10). Enviar adolescentes para prisões de adultos equivale a expô-los a um ambiente de "educação avançada" das organizações criminosas.

  • A experiência internacional não sustenta que "reduzir a idade reduz o crime": a Dinamarca e o estado de Nova York, nos EUA, reduziram a maioridade penal e posteriormente revogaram a reforma. A redução da idade não diminuiu nem a taxa de criminalidade juvenil nem a reincidência, mas pelo contrário, levou à deterioração do desempenho escolar desse grupo.

Controvérsia no plano constitucional:

A PFDC do MPF entende que excluir os menores de 18 anos do sistema penal comum é um direito fundamental estabelecido pelo artigo 228 da Constituição, constituindo cláusula pétrea, e que a PEC não tem o poder de cancelar essa garantia por meio de emenda constitucional. Outros especialistas observam que essa disposição decorre de obrigações internacionais de direitos humanos assumidas pelo Brasil (como a Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU), e que a redução unilateral da idade pode constituir um retrocesso em compromissos internacionais.

III. Uma distinção crucial entre "nome e realidade"

O lado contrário à redução da idade enfatiza repetidamente um fato frequentemente confundido: o Brasil não é um país onde "menores de 16 anos não são responsabilizados" — a responsabilização já começa aos 12 anos. De acordo com o ECA, adolescentes acima de 12 anos que cometem atos infracionais já estão sujeitos a medidas socioeducativas, incluindo internação com restrição de liberdade. O verdadeiro problema é o subinvestimento crônico no sistema socioeducativo — há promotores que apontam que apenas 1,26% dos adolescentes internados tiveram acesso a oportunidades de aprendizagem profissional. Em outras palavras, o foco do debate não deveria ser "punir ou não punir", mas sim "por que o sistema punitivo existente não funciona conforme projetado".  (Tecto encomendado e editado por Mauricio Andrés, com assessoramento do DeepSeek)

"Quando as ideologias ficam bem velhinhas, elas se aposentam e vêm morar no Brasil." Millor Fernandes



 O deserto de ideias e os produtos importados que chegam tarde: a crise ideológica brasileira e seus momentos de exceção

"Quando as ideologias ficam bem velhinhas, elas se aposentam e vêm morar no Brasil." Essa ironia de Millôr Fernandes atinge com precisão um nó central da história intelectual brasileira. Em consonância com ela, está a afirmação de Oswaldo Aranha, no final dos anos 1940: o Brasil é "um deserto de homens e de ideias". Esses dois juízos, separados por décadas, constituem pistas fundamentais para compreender a crise ideológica brasileira — este país que parece sempre consumir, em posição retardatária, a herança intelectual das nações centrais, raramente se tornando criador de ideias.

A metáfora do "deserto de ideias" não é um exagero retórico. Quando o comunismo e o fascismo se enfrentavam violentamente na Europa na primeira metade do século XX, a intelectualidade brasileira desempenhava, em sua maioria, o papel de seguidora e intérprete. Mais revelador ainda é o descompasso temporal: o arcabouço de debates estabelecido pelo Manifesto Comunista de 1848 ecoou na fala política brasileira por mais de um século, a ponto de comentaristas observarem, com acidez, que a discussão política no Brasil "estagnou-se em 1848". A ironia de Millôr Fernandes adquire, assim, duplo sentido: o Brasil não é apenas o asilo das ideologias velhas, mas um lugar onde essas ideologias perdem seu contexto histórico e se convertem em signos vazios.

No entanto, qualificar o Brasil simplesmente como "deserto de ideias" pode ser, em si, uma preguiça intelectual. Deserto não significa que jamais tenham existido oásis. A história brasileira conhece ao menos dois momentos que podem ser chamados de "momentos de pensamento ativo", e que provam que esta terra não é naturalmente estéril.

O primeiro momento é a ascensão do nacional-desenvolvimentismo, cuja encarnação institucional foi o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), fundado nos anos 1950. Os intelectuais do ISEB, tendo à frente Alberto Guerreiro Ramos, formularam um programa metodológico original: a "redução sociológica". O conceito lança mão de uma dupla metáfora — da metalurgia e da fenomenologia husserliana —: assim como extrair metal do minério exige remover a escória, extrair dos teóricos estrangeiros o conhecimento aplicável ao Brasil exige uma operação crítica de "redução", eliminando as "intencionalidades" incompatíveis com a realidade brasileira. A proposição de Guerreiro Ramos é radical: toda teoria sociológica serve a intenções nacionais específicas; a teoria de Spencer só tem sentido pleno "para os ingleses", a de Weber só tem sentido pleno "para os alemães". Portanto, o Brasil deve desenvolver sua própria sociologia, sua própria filosofia, sua própria ciência política. Não se trata mais de simples importação de ideias, mas de uma arte seletiva de digestão cultural.

O segundo momento esconde-se em práticas institucionais mais concretas. Entre o final dos anos 1960 e os anos 1970, o Brasil criou um milagre de autonomia tecnológica por meio da articulação profunda entre empresas estatais e institutos de pesquisa. O nascimento da Embraer tem como base a "infraestrutura institucional" construída pelo Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); a capacidade de exploração em águas profundas da Petrobras deriva de décadas de acumulação de seu centro de pesquisas (CENPES). O traço comum desses casos é que eles não consomem soluções estrangeiras prontas, mas, orientados pela vontade estatal, convertem conhecimento externo em capacidade local. A descoberta do pré-sal foi reconhecida mundialmente como um avanço tecnológico — e ocorreu no Brasil, não em alguma "nação central".

A lição desses dois momentos é profunda. A crise ideológica brasileira talvez não tenha raiz na "falta de ideias", mas na fragilidade das condições sociais de produção do pensamento. O ISEB foi dissolvido após o golpe de 1964, e a tradição intelectual nacional-desenvolvimentista foi substituída pelas "fronteiras da Guerra Fria" do regime militar; os esforços de autonomia tecnológica foram marginalizados pela onda neoliberal que se seguiu. O "asilo de ideologias" de que zombava Millôr Fernandes é menos o resultado da inércia intelectual dos brasileiros do que a reprodução de estruturas de dependência — quando as relações de dependência econômica, política e cultural não são radicalmente tocadas, o "atraso" do pensamento torna-se uma constante sistêmica.

O problema do Brasil, portanto, nunca foi a falta de pessoas capazes de pensar, mas a falta de continuidade institucional e vontade política para converter o pensamento em projetos autônomos. De Guerreiro Ramos e sua "redução sociológica" à proeza tecnológica do pré-sal, oásis existiram. Sua seca não é resultado do clima natural, mas o preço de escolhas históricas. (Texto encomendado e editado por Maurício Andrés, com assessoramento do DeepSeek)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

O voto de vingança e as eleições Brasileiras de 2026:

O Colapso da Autoridade Judicial e a Lógica Política do "Voto de Vingança"

A narrativa central das eleições brasileiras de 2026 pode ser resumida como uma "vingança" dos eleitores contra o sistema judiciário. Quando o Supremo Tribunal Federal condenou o ex-presidente Bolsonaro a 27 anos de prisão por crime de golpe de Estado e cassou seus direitos políticos até 2060, quase metade dos eleitores não sentiu a promoção da justiça, mas sim uma humilhação de "ter seu direito de escolha roubado". Esse sentimento de humilhação está se transformando em mobilização punitiva nas urnas — não por amor a um candidato específico, mas por um acerto de contas com aqueles que julgaram e seus aliados.
A política da vingança tem sua lógica interna. Francis Bacon descreveu a vingança como uma espécie de "justiça selvagem", observando que ela "ofende a lei e a destitui de seu cargo". Quando o próprio poder judiciário é visto por uma parcela considerável da população como instrumento político e não como encarnação da justiça, o julgamento de Bacon encontra eco contemporâneo: os eleitores contornam os canais institucionais e usam o voto para "executar" diretamente a justiça como a entendem. Isso não é uma defesa do Estado de Direito, mas um voto de desconfiança no Estado de Direito.
A particularidade de 2026 reside no fato de que Bolsonaro não está na cédula. O líder condenado não pode concorrer, e o impulso de vingança se transfere para seu herdeiro político. Flávio Bolsonaro, como senador, apareceu à frente de Lula no primeiro turno, e o núcleo de sua estratégia de campanha não é apresentar um projeto alternativo de governança, mas maximizar o efeito agregador do "antipetismo". O sentimento antipetista é eficaz não apenas porque é uma posição ideológica, mas porque é um veículo de vingança — cada voto é uma resposta ao "que eles fizeram conosco". Como apontam estudiosos da psicologia eleitoral da vingança, o motor central do comportamento vingativo é o "dano à autoidentidade". Quando eleitores sentem que o líder que apoiam foi "injustamente" privado do direito de concorrer, o voto deixa de ser expressão de preferência política e se torna ação para restaurar uma identidade ferida.
No entanto, o paradoxo da lógica vingativa é que ela tem enorme poder de mobilização, mas quase nenhuma capacidade de se converter em capacidade de governança. Votar contra algo é muito mais fácil do que votar a favor de algo. A campanha de 2026, portanto, apresenta uma tendência ao esvaziamento — o antipetismo é o único aglutinante eficaz, capaz de unir precariamente liberais econômicos, evangélicos conservadores, o agronegócio e manifestantes antissistema. Mas o preço dessa unidade é que nenhum desses grupos obtém verdadeiramente a representação que deseja. O que obtêm é apenas uma sensação coletiva de "acerto de contas".
O problema mais profundo reside na própria situação do poder judiciário. Quando o Supremo Tribunal Federal, por 4 votos a 1, enviou um ex-presidente à prisão e cassou seus direitos políticos até os 105 anos de idade, ele inevitavelmente se coloca no centro da controvérsia política. Para os apoiadores da sentença, trata-se de uma resposta necessária a um ataque à democracia. Para os opositores, trata-se de uma negação arrogante da escolha popular por um sistema judiciário "injusto". Qualquer que seja a interpretação mais próxima da realidade, uma consequência observável é que a imagem do judiciário como "árbitro neutro" desmoronou no coração de quase metade dos eleitores. A vingança adquire, assim, uma espécie de "legitimidade" — não é rebelião contra autoridade legítima, mas punição aos "usurpadores".
A política brasileira há muito oscila entre duas emoções negativas: o antipetismo e o antibolsonarismo. Ambos possuem, cada um, força de veto suficiente para impedir a vitória do outro, mas nenhum é capaz de oferecer uma maioria construtiva. O resultado das eleições de 2026 provavelmente não será a vitória de nenhum dos lados, mas a continuação do ciclo de vingança. Os eleitores puniram o sistema judiciário com seus votos, mas as decisões judiciais não mudarão por causa dos votos; o lado punido articulará a próxima rodada de vingança, enquanto o conteúdo substantivo da política — combater a pobreza, a desigualdade, a estagnação do crescimento — permanece engavetado.
A vingança é um prato que se serve frio, mas comer frio demais prejudica o próprio sistema digestivo. ( texto encomendado e editado por mim com assessoramento do DeepSeek)
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