No contexto político brasileiro, o sentimento que o eleitor desenvolve em relação ao "candidato vítima" é um recurso político complexo e frágil. Seja alguém que sofreu realmente um ataque violento, seja alguém que, após ser condenado judicialmente, se autodenomina "vítima de perseguição política", esse tipo de narrativa pode despertar, em curto prazo, um forte sentimento de compaixão e solidariedade. No entanto, a eficácia política desse sentimento depende da capacidade de convertê-lo, de forma contínua, em controle narrativo.
O efeito de
mobilização emocional de vítimas reais de violência
Em setembro de
2018, Bolsonaro foi alvo de um ataque com faca durante a campanha eleitoral, e
esse episódio teve um impacto mensurável em sua candidatura. Bolsonaro
encontrava-se então no momento mais vulnerável da disputa — acabara de expor
sua falta de preparo no debate televisivo, e os adversários tentavam
sistematicamente "desconstruir" sua imagem. Após o ataque, ele foi
forçado a se retirar dos debates seguintes e obteve uma cobertura midiática
integral que nenhum outro candidato conseguia alcançar. Um estrategista da
campanha de Alckmin na época admitiu: "A facada interrompeu a
possibilidade de mostrar quem ele realmente era."
A reação emocional
dos eleitores — compaixão, solidariedade e até certo senso coletivo de culpa —
tornou moralmente constrangedor atacar Bolsonaro. Os adversários suspenderam os
ataques nos comerciais de TV, porque "como atacar alguém que está em
recuperação?". Esse sentimento não era simplesmente um "voto de
pena", mas um preenchimento de um vácuo narrativo: Bolsonaro deixou de ser
um candidato controverso e muito atacado para se tornar "o sobrevivente
que sofreu pelo país". Essa transformação de identidade teve um valor
simbólico incalculável no último mês da campanha.
No entanto, a
pesquisa acadêmica nos lembra que o "efeito compaixão" é frágil e se
dissipa com o tempo. Na eleição para o Senado de Minnesota em 2002, após a
queda do avião que matou Paul Wellstone, o impulso de compaixão nas pesquisas
em favor de seu substituto, Mondale, desapareceu completamente no dia da
eleição. A variável decisiva é a seguinte: quando a narrativa midiática passa
de "tragédia" para "conflito partidário", o efeito
compaixão se desfaz.
A construção e os
desafios da narrativa de vitimização judicial
Outro tipo de
identidade de "vítima" surge da autodenominação após uma condenação
judicial. O caso de Luiz Inácio Lula da Silva oferece um material de análise
mais complexo. Em 2018, Lula foi condenado pelo juiz Sergio Moro, e o Superior
Tribunal de Justiça manteve a condenação; ele liderava as pesquisas, mas foi
impedido de concorrer por causa da "Lei da Ficha Limpa". A narrativa
construída por seus apoiadores era: um líder popular foi politicamente excluído
pelo sistema judicial.
O desafio dessa
narrativa está na questão da credibilidade. Quando o próprio tribunal goza de
confiança pública, definir uma condenação como "perseguição"
dificilmente produz ressonância ampla. Mas a confiança no tribunal é uma
variável. Dados de 2026 mostram que a nota de confiança da população brasileira
no Poder Judiciário é de apenas 4,9 (em uma escala de 0 a 10), situando-se na
faixa de "alto desgaste". Quando a própria credibilidade da
instituição judicial é questionada, o poder de persuasão da narrativa de
"vítima judicial" aumenta correspondentemente. Apoiadores de
Bolsonaro e eleitores de direita, em especial, enxergam o STF como uma
instituição movida por motivações políticas, enquanto eleitores de esquerda
tendem mais a interpretar as ações judiciais como perseguição sistêmica a
determinados líderes.
Identificação e
enfrentamento da manipulação emocional
A identidade de
"vítima" na política tem caráter plástico e performático. Como
apontam os estudiosos, a identidade de vítima não é um atributo real fixo e
imutável, mas um "ato de fala contingente e moldável", que pode ser
invocado por qualquer ator político para seus próprios fins. Quando alguém no
poder usa a linguagem da vitimização, a pergunta central não é "você
realmente se machucou?", mas "qual é a sua posição social?" — há
uma diferença essencial entre aqueles que se encontram sistematicamente em situação
de vulnerabilidade e aqueles que, tendo poder, se declaram vítimas apenas por
causa de um episódio específico.
Diante desse tipo
de mobilização emocional, eleitores e instituições democráticas podem responder
em vários níveis:
Primeiro,
questionar a persistência na dimensão temporal. Narrativas
reais de trauma têm forte impacto emocional no curto prazo, mas sua eficácia
política decai com o tempo, a menos que sejam institucionalmente reproduzidas
de forma contínua. O eleitor pode perguntar: meses ou até anos após o episódio,
o candidato continua apresentando propostas políticas ou repete incessantemente
o momento em que foi vítima?
Segundo, distinguir
o apelo político de "compensar a vítima" do de "punir o
agressor". Estudos indicam que os eleitores tendem mais a votar em candidatos
que defendem compensar as vítimas (e não apenas punir os
agressores), e esse efeito opera por meio da "temperatura" percebida.
Se o candidato usa sua própria vitimização apenas para estimular o ódio ao
"inimigo", em vez de apresentar propostas concretas de cura ou
reforma, a base ética de sua mobilização emocional é frágil.
Terceiro,
identificar a armadilha simplificadora da narrativa de
"cumplicidade". Definir um candidato como "cúmplice da
injustiça judicial", assim como defini-lo como "vítima", é uma
operação de política identitária baseada em oposições binárias. Essa narrativa
reduz problemas institucionais complexos a um drama moral de lealdade e
traição, e o resultado costuma ser o aprofundamento do confronto, e não o avanço
da responsabilização.
Quarto, retornar
aos fatos verificáveis. Quando a narrativa emocional domina, o
histórico concreto de decisões, as propostas de governo e as trajetórias de
comportamento auditáveis ficam marginalizados. O eleitor pode exigir ativamente
que os candidatos discutam conteúdo concreto de governo, em vez de
se concentrarem apenas em sua "história". A mídia e a sociedade civil
podem criar mecanismos permanentes de checagem de fatos, evitando
que a narrativa de vitimização seja usada indefinidamente como escudo contra o
escrutínio substantivo.
A política democrática não pode, nem deve, excluir completamente a emoção. Mas uma mobilização emocional saudável aponta para a empatia e a responsabilidade, não para o ressentimento e a absolvição. Quando a identidade de "vítima" se torna um salvo-conduto permanente para o poder político, ela deixa de ser uma denúncia da injustiça e se transforma em uma fuga da responsabilização. (texto encomendado e editado por Maurício Andrés, assessorado pelo DeepSeek)


