sábado, 9 de maio de 2020

Toda ação produz uma reação. A lei do Karma.

Maurício Andrés Ribeiro

Toda ação é uma causa que traz consequências. Boas ações produzem circunstâncias positivas para quem as pratica, enquanto más ações produzem sofrimento para quem as realiza.
No mundo contemporâneo, com as comunicações instantâneas, muitas reações são imediatas no tempo. Uma ação  praticada agora repercute e provoca reações num prazo muito curto. Antigamente as reações demoravam mais e podiam acontecer até mesmo numa outra encarnação, como creem os hindus, os espíritas e outros grupos.
Cada indivíduo tem uma conta ou cartão de crédito cármico, um “credicarma”, com seus créditos e débitos, que se acumulam e que são pagos ou resgatados, cedo ou tarde, imediatamente, no médio ou no longo prazo.
Cretit Karma. San Francisco
No hinduísmo, Errou, pagou!  Nesta vida ou em outras vidas. Não há indulgências, não se compra a absolvição. Karma é uma palavra do sânscrito que significa ação. Karma é a lei da causa e efeito aplicada à vida. Karma yoga é o yoga da ação. Há quem tenha um karma pesado a pagar, já outros tem um destino mais aliviado.
As ações podem ser motivadas  por razões do ego – a ego ação motivada pelo egoísmo, a ganância, a busca de poder; por uma ética ecológica, a eco-ação voltada para cuidar do ambiente que sustenta a vida; ou pela prestação de um serviço desinteressado, a seva, palavra do sânscrito que significa serviço abnegado e que  resulta de uma liberdade da alma.





Motivações para a ação.
O Bhagavad Gita, texto sagrado hindu,  recomenda que as ações sejam realizadas desinteressadamente. Sri Ramakrishna esclarece: “Quando a Gita pede para realizarmos nossas ações sem qualquer pensamento sobre o resultado, não espera que eliminemos todos os motivos como tais, mas que eliminemos todos os motivos mundanos e que tenhamos o desenvolvimento de nossa natureza espiritual como o único motivo para nossas ações”.[1]
Seva ação é aquela que  se pratica no sentido de servir, pela qual o indivíduo liquida o débito do carma passado e obtém um crédito para se libertar.



[1] RAMAKRISHNA. Yoga: its various aspects: Gita on Karma yoga, p.30-31.
 

Prevenção de futuras pandemias e aldeias rurais


Maurício Andrés Ribeiro
 
Um efeito colateral da pandemia é o regresso às aldeias, liberando espaço nas cidades. Com a descentralização e a necessidade do isolamento físico, ganham relevo as ecovilas, as comunidades rurbanas, as vilas rurais.
Depois de décadas de urbanização acelerada no mundo inteiro, e mais ainda no Brasil, o pêndulo caórdico da evolução oscila para o outro lado, o da desurbanização e da descentralização. Esse movimento pendular é facilitado pelas novas tecnologias da informação e da comunicação e impulsionado pelos menores custos para se viver em pequenas cidades e no interior. Nas grandes cidades as áreas mais bem equipadas com infraestrutura estão gentrificadas e expulsam quem não tem condições de pagar os altos preços para viver ali.
Essa tendência à desurbanização é um atrativo especial para idosos empobrecidos num mundo com previdência social em crise e que maltrata os velhos urbanos.
Há outros benefícios dessa tendência, como a maior proximidade com o ambiente natural e maior facilidade para o isolamento físico, o que não significa maior o isolamento social, pois no século XXI as conexões sociais se estabelecem via internet e redes.  
Há várias décadas o Vila Rural foi um programa pioneiro  do Paraná para redistribuir a população e aliviar pressões migratórias sobre as cidades. Assentamentos de cinquenta a cem famílias em vilas cercadas por terrenos para cultivo são localizados nas proximidades dos distritos e povoados. O uso da escola, do posto de saúde e de equipamentos coletivos é compartilhado com a população das vilas rurais. Evitando-se a localização das vilas rurais próximas de grandes cidades, elas são mais viáveis porque a terra é barata; funcionam melhor porque não se tornam cidades-satélites ou dormitório de metrópoles. Os trabalhadores rurais têm condições de exercer sua profissão de plantar. Como não estão dispersos em fazendas isoladas, têm acesso aos serviços públicos. Cria-se cultura urbana num assentamento rural, e a proximidade física entre as casas dá proteção, segurança e economia de infraestrutura. Quando tiverem sido implantadas muitas vilas rurais, haverá um amplo contingente de população fixado no campo. A distribuição espacial da população terá reduzido a dispersão rural e o congestionamento urbano. A organização do espaço será energeticamente mais eficiente, já que cada vila rural poderá abastecer-se, no entorno, com água, materiais de construção, fontes de energia e alimentos locais, o que reduz a demanda de transporte de longas distâncias. A longo prazo, pode-se  constituir uma rede de assentamentos conectados entre si, num padrão de organização espacial equilibrado e econômico.
A atual e as próximas pandemias fortalecem essa tendência à desurbanização em direção a um padrão territorial organizado numa rede de milhares de pequenas vilas e cidades de modo descentralizado. . Ao implantar o programa das vilas rurais, o Paraná resgatou um padrão de assentamento que se mostrou energeticamente eficiente e sobreviveu por milênios.
Esse padrão é similar àquele que se estruturou durante milênios na Ásia. Na Índia, 60% dos seus mais de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes vivem numa das 600 mil aldeias que pontilham o território do país e que são semiautônomas no abastecimento de água, energia, alimentos, materiais. Na hipótese de um colapso no abastecimento de combustíveis fósseis, estão menos vulneráveis do que as metrópoles energívoras. Na hipótese de uma pandemia como a que assola o mundo em 2020, essas aldeias são menos vulneráveis à propagação do vírus, o que talvez ajude a explicar os  baixos números de casos e de mortes na pandemia de 2020 na Índia, se comparados com os números que acontecem em outros países aparentemente melhor equipados e estruturados para lidar com a pandemia.
Kenchankuppe é uma das 600 mil aldeias indianas em que vivem 800 milhões de pessoas.
 
 
Crianças indianas comemoram a doação de livros para sua escola.
Aula ao ar livre numa escola na aldeia de Kenchankuppe no sul da Índia.
 
Na França e na Alemanha, as pequenas cidades são as que mais se valorizam nessa pandemia, ao passo que as grandes cidades, saturadas, poluídas e com altos custos de infraestrutura, vêm perdendo população. Ao redor de cidades como Milão configuram-se redes de pequenas cidades com alta qualidade ambiental e com menos custo energético.
Essa desurbanização é um processo de ajuste de longo prazo em direção a uma sociedade energeticamente mais eficiente e que antevê o declínio da era dos combustíveis fósseis. De fato, a cidade que hoje se  constrói ainda é rígida o suficiente para que, daqui há cinquenta anos, suas construções estejam de pé. Naquele momento, a disponibilidade de petróleo será menor, seu preço será mais alto do que é hoje, a consciência sobre os impactos ambientais e climáticos de seu uso será maior e também será maior a consciência sobre os riscos a que está exposta a saúde de seus cidadãos, especialmente os mais vulneráveis.
Vilas rurais, ecovilas ou comunidades rurbanas  podem vir a se constituir no padrão de assentamentos mais adequado  a uma civilização pós-petróleo e que tome medidas preventivas em relação às próximas e  futuras pandemias.
 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Visão histórica sobre o IAB-MG


Maurício Andrés Ribeiro (*)

Outubro de 1943. A segunda guerra mundial está em seu auge e no Brasil os pracinhas se mobilizam para participar dela. Em Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, o prefeito municipal, contratou com Oscar Niemeyer o projeto do conjunto arquitetônico da Pampulha, que está em construção. Alberto da Veiga Guignard dirige e dá aulas na escola do parque municipal.

Nesse contexto um grupo de arquitetos resolve fundar o Departamento de Minas Gerais do Instituto de Arquitetos do Brasil, que se filia ao IAB Nacional, criado em 1920 no Rio de Janeiro. Em novembro procedeu-se à solenidade de posse da 1ª Diretoria do IAB-MG “Tendo o arquiteto Luiz Pinto Coelho, 1º. presidente da entidade, em seu nome e em nome dos seus companheiros de diretoria, afirmado a sua resolução no sentido de trabalhar com denodo e convicção no erguimento da classe em Minas Gerais.”.

Uma ata curiosa registra a posse da segunda diretoria do IAB-MG: “Aos 3 dias do mês de julho do ano de 1945 realizou-se no Salão do Instituto de Belas Artes, a posse da diretoria eleita do Departamento de Minas Gerais do IAB. A sessão revestiu-se de brilhantismo, contando com a presença de representantes das altas autoridades, da Sociedade Mineira de Engenheiros, da Associação Comercial, do Partido Comunista e de todos os sócios do Instituto de Arquitetos, professores, alunos do Instituto de Belas Artes e grande número de pessoas.”.

Em 1951, o arquiteto Sylvio de Vasconcellos propôs reformas nos Estatutos da entidade. Houve discussões acaloradas e quando aos poucos vão serenando os ânimos pode-se ouvir o presidente fazendo apelos no sentido de se evitarem discursos paralelos. O presidente é chamado de ditatorial, discricionário, denunciam-se “golpes” para a derrubada de emendas; Sylvio de Vasconcellos abandona algumas vezes a direção dos trabalhos, retirando-se para os fundos da sala e só volta a reassumi-la depois de grande insistência dos colegas. Ao final de dez páginas manuscritas de ata, encerrou-se a aprovação do novo estatuto do Departamento.

Em 1953, o III Congresso Brasileiro de Arquitetos “denunciaria a constante ameaça de outros profissionais trabalhando no campo da arquitetura, que realmente deveria ser exclusivo dos arquitetos.” O governador do Estado, Juscelino Kubitschek abriu os trabalhos e o prefeito Américo René Gianetti dissertou sobre os progressos dos arquitetos mineiros. Em 1959 Suzy Pimenta de Mello foi a primeira presença feminina na diretoria do IAB.

Em 1963 o IAB-MG organizou ida de arquitetos mineiros ao congresso da UIA em Havana, Cuba. De 1964 a 66 o IAB-MG passou por hibernação quase total, dadas as condições desfavoráveis para o trabalho de entidades da sociedade civil organizada.

Em 1966, 27 arquitetos inscreveram-se na 1ª premiação anual de arquitetura do IAB-MG e o crítico de arte Frederico Morais foi um dos integrantes do júri. .

Em 1968 o VII Congresso Brasileiro de Arquitetos realizou-se em Belo horizonte. A escola de Arquitetura o chamava de “Congresso de Comunistas”.

Em 1974, na gestão de István Farkasvolgyi, a prefeitura de Belo horizonte doou um terreno onde seria erigida a sede própria. Naquela década a crise alcançava o IAB até mesmo por falta de chapas a concorrerem às eleições.

Em 1977 o IAB elaborou manifesto ao governador do estado para neutralizar os impactos da mineração na Serra do Curral, entrou na discussão sobre as enchentes no Arrudas e participou da campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita. Envolveu-se na luta pela conservação de grutas e abrigos com pinturas rupestres na área do Aeroporto de Confins; na denuncia sobre a remoção de favelados em áreas atingidas por inundações; na luta pela preservação da praça da Estação em Belo Horizonte. Eram temas frequentes as deficiências no mercado de trabalho, exercício da profissão, legislação profissional; a renovação de áreas urbanas, legislação de uso do solo, patrimônio cultural e arquitetônico, habitação, mobilidade e transportes. Havia articulação e parcerias com entidades ambientalistas, de designers, engenheiros, economistas. Nos anos 70 e 80 o IAB colaborou com revistas como Arquitetura e Engenharia, o encarte Vão Livre, no Informador das Construções, a revista Pampulha.

Nesses 70 anos, o IAB conquistou um espaço de expressão na imprensa e junto a entidades representativas do governo. A profissão de arquiteto sofreu grandes transformações e hoje há muitos escritórios, muitas escolas de arquitetura, muitos arquitetos assalariados no setor público.

Foi realizado um concurso para construir a sede do IAB no terreno doado pela prefeitura, na rua Mestre Lucas,70. Mas o projeto não foi construído. Uma sede provisória começou a ser construída e durante muitos anos o IAB funcionou num barracão de obras em frente e ao lado de uma frondosa árvore. A sede foi inaugurada no início dos  anos 80, com a colaboração de toda a diretoria da época e de arquitetos amigos que mobilizaram seus conhecidos e empresas para doarem móveis, serviços e materiais de construção. Naquela ocasião o IAB arrendava a sede em construção  para arrecadar fundos e concluir as obras. Cada recurso era usado para concluir a sede: o piso, o portão metálico, o mobiliário. Para sustentar os gastos correntes, o IAB convidou ONGS como a AMDA- Associação Mineira de Defesa do Ambiente; a associação de desenhistas industriais, o Sindicato de Arquitetos para se sediarem ali e compartilharem parte das despesas de manutenção do local. Essa parceria perdurou por vários anos, além de ter propiciado uma aproximação nos projetos comuns dessas entidades, de interesse da sociedade.

Em 1985 Belo Horizonte sediou no Minas Centro um memorável Congresso Brasileiro de Arquitetos organizado pelo IAB-MG.

No século XXI, com a crise climática, projetar o ambiente construído de modo ecologicamente responsável tornou-se mais um desafio. O projeto e a construção do habitat humano e toda a cadeia produtiva da construção civil demandam muitos recursos naturais e provocam impactos ambientais e emissão de gases de efeito estufa. O IPCC – Painel intergovernamental de mudanças climáticas identificou no campo do ambiente construído grandes possibilidades para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Um arquiteto ecologicamente e hidricamente consciente e responsável precisa projetar edificações que dispensem o uso intensivo de ar condicionado, que tenham baixo consumo de energia, adaptados do ambiente natural, num design que economize, que reaproveite a água e demais recursos naturais e que reduza a emissão de gases de efeito estufa. Nesse  século XXI, com suas catástrofes, pandemias, eventos críticos cada vez mais frequentes, o arquiteto precisa projetar tendo consciência sobre os impactos sociais e ambientais do seu projeto.

 (*) Arquiteto, presidente do IAB MG 81-82. Autor de Ecologizar, Tesouros da Índia; Ecologizando a cidade e o planeta, Meio Ambiente & Evolução Humana e coautor de A água fala. http://ecologizar.blogspot.com ecologizar@gmail.com  Este texto se baseia em Uma história para o IAB-MG, 1983.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Salvar o planeta!?!



Maurício Andrés Ribeiro 
 “Devemos ter sempre em mente que é arrogância achar que sabemos como salvar a Terra: nosso planeta cuida de si próprio. Tudo o que podemos fazer é tentar nos salvar.” James Lovelock

Organizações ambientalistas e órgãos de imprensa, empresas, governos, campanhas de mídia, publicações e autores  têm usado a expressão “salvar o planeta”. Uma busca rápida na internet mostra vários exemplos desse uso.


No sentido religioso, salvar é livrar das penas do Inferno e obter a salvação eterna. Salvar tem o sentido de livrar de ruína, pôr-se a salvo de algum perigo ou risco iminente.
Numa escala restrita e limitada, um médico, uma enfermeira, um socorrista, um bombeiro ou a defesa civil podem salvar vidas em pandemias, desastres e catástrofes, como terremotos e tsunamis, enchentes e deslizamentos de encostas. 
Numa escala mais ampla, pode ser que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia nos torne capazes de desviar corpos celestes em rota de colisão com a terra, evitando mega desastres e, assim, salvar a terra.
Salvar também tem o sentido de preservar o status quo, de manter; preservar, conservar intato; salvar um determinado modo de vida que está em risco. 
Diz James Lovelock, o criador da teoria de Gaia, referindo-se às mudanças climáticas com as quais nos defrontamos que “a Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é “salvar o planeta como o conhecemos” e isso agora é impossível.”
A vida humana está presente numa fração mínima da história da Terra. O homo sapiens surgiu há apenas 150 mil anos. Há 50.000 anos, o sucedeu o homo sapiens sapiens, uma espécie que sabe que sabe. A vida humana entrou em cena já no final da era cenozóica, a era dos mamíferos, que se iniciou depois da última grande extinção e dura até nossos dias. A era mesozóica, quando imperaram os dinossauros, durou entre 245 e cerca de 65 milhões de anos atrás. Terminou devido a uma catástrofe que pode ter sido causada pelo choque de um asteróide com a Terra.  Nosso planeta tem mais de quatro bilhões de anos, e nele a vida se desenvolveu há milhões de anos.
O uso da expressão em português pode ser o resultado de tradução mal feita do inglês, língua na qual o verbo to save tem o sentido de guardar (nos computadores, salvar um texto ou arquivo é guardá-lo). Em inglês, to save pode significar poupar, economizar (savings - poupança). Faz sentido poupar os recursos naturais do planeta, evitar seu mau uso ou desperdício. Mas como em português o verbo salvar não é usado com tal significado, a expressão soa inapropriada.
A expressão salvar o planeta envolve, portanto ou uma má tradução, ou uma dose de presunção.  Em qualquer desses casos, precisa ser evitada.
A comunicação e a expressão corretas de pensamentos e ideias ajudam a promover a compreensão e a construção da consciência ecológica. O cuidado com o significado das palavras e com seu uso apropriado ajuda a promover a necessária ecoalfabetização.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Water Speaks


For future generations it will be increasingly vital to have not only specialized knowledge but also a holistic and integral awareness of water. Since in this book it is the water that speaks, thus, the book is written in the first person, as if the narrative were made by the water itself. It is addressed to young people in a synthetic and poetic language, permeated by illustrations.

The book describes, in five parts, a journey through the complete water cycle in the environment, its movement, its presence in living bodies, in culture, and issues related to its use.

The first part invites the reader to approach water, to know its travels through the universe and on earth. This part describes how water circulates in the environment. The book shows the various states it assumes when faced with heat and cold and the temperature changes that make water into vapor, or its liquid or solid form. The text shows that it can be sweet, brackish or salty and that water is a sign that indicates the existence of life.

In the second part the reader is invited to follow water in its movement, experiencing the forms it takes and the various places it occupies in the heavens as hail, rain, or snowflakes, on earth, or underground. The water cycle is described, in its forms as precipitation, evaporation, soil infiltration, how it arises in springs and causes soil erosion, as well as flooding and drought.

The third part describes the path of water in the living bodies of humans, animals and plants and highlights its role and importance to life. Water is in the sap that carries mineral salts in the plants that exude water into the environment, in the fluids of living bodies, such as tears, sweat, blood, urine, in the placental fluid where babies live in their mother’s wombs, in cleansing of bodies while batheing.

Since water is a frequent theme in culture, religion and the arts, the fourth part of the book shows how it is sung and spoken about and shown in various cultural and artistic manifestations – music, poetry, dance, urbanism and landscaping. In many spiritual traditions water is considered sacred and used in purification rituals like Christian baptism and also mentioned in biblical narratives like the great flood. In other traditions, there are water gods and goddesses, and there are rituals like the rain dances of Indians. Many words in all languages refer to water, and many places and cities have water-related names.

In the fifth and final part, the book highlights some of water’s multiple uses: for human supply and for animals to drink, for irrigated agriculture, power generation, transportation, as well as for fishing, recreation, leisure and tourism. This final part shows everyone's need for water to maintain health and well-being and denounces the waste that happens during its consumption. The last part emphasizes the problems and insecurity arising from water scarcity or excess in the cases of droughts and floods. It shows the importance of building dams, canals, aqueducts, water and sewage treatment plants and of conserving the soil to prevent leaching and silting and promoting protection of soil and water sources. It underlines the importance of developing cooperation concerning water and devising ways to promote dialogue and avoid rivalries, conflicts and violence between those who need it and dispute possession of water.

A glossary defines the main concepts used. Questions are formulated to enable the reader to take a guided reading, the answers to which help to better understand water and its multiple uses.

 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

A água fala



 

Para as próximas gerações será cada vez mais vital ter não apenas conhecimento especializado, mas uma consciência holística e integral sobre a água. Motivados por isso escrevemos o livro  "A água fala" na primeira pessoa do singular, como se a narrativa fosse feita pela própria água. Ele é dirigido aos jovens, numa linguagem sintética e poética, permeada por ilustrações da artista Maria Helena Andrés. 
O livro descreve, em cinco partes,  uma viagem pelo ciclo completo da água no ambiente, seu movimento, sua presença nos corpos vivos, na cultura e as questões relacionadas com o seu uso.
A primeira parte convida o leitor para se aproximar da água,  para conhecer suas viagens pelo universo e pela Terra. Descreve como ela circula no meio ambiente.  Mostra os diversos estados que assume diante do calor e do frio e das mudanças de temperatura que a tornam vapor, líquida ou sólida. Mostra que pode ser doce, salobra ou salgada e como é um sinal  que indica a existência de vida.
 Na segunda parte o leitor é convidado a acompanhar a água em seu movimento, vivenciando as formas que ela assume e os diversos lugares que ocupa nos céus, na terra, no subsolo como granizo, chuva, flocos de neve. Descreve seu ciclo, com a precipitação, a evaporação, a infiltração no solo, mostra como surge em nascentes e provoca a erosão dos solos, as enchentes, as inundações e as secas.
Ilustração de Maria Helena Andrés

A terceira parte descreve o caminho da água nos corpos vivos de seres humanos, animais e plantas e ressalta seu papel e importância para a vida. Ela está na seiva que transporta sais minerais nas plantas que a transpiram para o ambiente, nos líquidos dos corpos vivos, como as lágrimas, o suor, o sangue, a urina, no líquido em que os bebês vivem no útero das mães, na limpeza dos corpos nos banhos.
Ilustração de Maria Helena Andrés

Como a água é tema frequente na cultura, nas religiões e nas artes, a quarta parte do livro aponta como ela é cantada, falada e mostrada nas diversas manifestações culturais e artísticas, na música, na poesia, na dança, no urbanismo e no paisagismo. Em muitas tradições espirituais ela é sagrada e está nos rituais como o batismo cristão e nas narrativas bíblicas como a do dilúvio. Em outras tradições, há deuses e deusas ligados à água, há rituais como a dança da chuva dos índios. Muitas palavras em todos os idiomas se referem a ela e muitos lugares e cidades têm nomes relacionados com as águas.

Na quinta e última parte, o livro realça alguns de seus múltiplos usos: para o abastecimento humano e para matar a sedes dos animais, para a agricultura na irrigação, para a geração de energia, para o transporte, para a pesca, a recreação, o lazer e o turismo. Mostra a necessidade que todos têm dela para manter a saúde e o bem estar. Denuncia os desperdícios que acontecem no seu consumo. Enfatiza os problemas e a insegurança decorrentes de sua escassez ou excesso, com as secas e as inundações. Mostra a importância de se construírem obras tais como açudes, canais, aquedutos, estações de tratamento de água e de esgotos e de conservar os solos e promover sua proteção como uma riqueza de grande valor. Realça a importância de desenvolver a cooperação em torno da água e criar modos  de promover diálogo e de evitar rivalidades, conflitos e violência entre aqueles que dela precisam e que a disputam.

Um glossário define os principais conceitos usados. Formulam-se perguntas para permitir ao leitor uma leitura orientada, cujas respostas ajudam a compreender melhor a água e seus múltiplos usos.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Comunicação não-violenta

Maurício Andrés Ribeiro (*)

A violência física, com homicídios e agressões, é a ponta do iceberg de uma violência mais geral, que se inicia nos sentimentos e emoções, nos pensamentos e nas palavras. A violência física é um estágio avançado que muitas vezes sucede a violência verbal ou na comunicação, a qual por sua vez pode suceder a violência mental existente nos pensamentos e sentimentos.

Quando um adolescente que sofreu bullying volta armado à sua escola e mata seus colegas, uma ação que não é crime, mas que é uma forma de comunicação violenta (caçoar ou zombar de alguém ou de algo) induz a uma ação criminosa (atirar e matar).

A comunicação pode ser violenta ou não-violenta. [1] Um bom modo de prevenir na sua origem a escalada de violência na sociedade é adotar as práticas da comunicação não -violenta. Pensamento, sentimento e emoção não violentos estão na raiz da comunicação não-violenta. Eles ajudam a prevenir a violência física, a criminalidade e a insegurança.

Mahatma Gandhi aplicou o princípio da não-violência, ou ahimsa, quando da luta de libertação da Índia. Valeu-se também do princípio da satyagraha, ou experiência com a verdade. O compromisso com a verdade é um princípio poderoso para a comunicação não-violenta. Tal postura é pragmática para aumentar as chances de êxito dos menos truculentos ou menos armados. Pode significar o êxito da inteligência contra a força bruta.

Palavras e imagens na comunicação podem ser armas poderosas que precisam ser usadas com cuidado e precisão. O uso leviano delas pode se voltar como um bumerangue e atingir quem as usa. Submersos e invisíveis nas mensagens escondem-se necessidades, interesses, crenças, desejos, sentimentos, pensamentos, emoções e preconceitos. Mensagens  podem ser portadoras de verdade, mentira, meias verdades; podem evocar beleza ou feiura; podem transmitir bondade ou maldade. Podem injuriar, difamar, ironizar, alfinetar e ferir, caçoar e zombar, insinuar maldosamente. Nesse sentido são armas, para ofender, atacar e se defender de ataques adversários. Nas relações interpessoais, todos nós experimentamos momentos de comunicação harmônica e veraz e momentos de comunicação tensa ou truncada, com mensagens subliminares ou manipulações estratégicas.

A internet e a mídia são campos de batalha onde se disseminam milhões de informações todo o tempo. Na mídia e nas redes sociais assiste-se a uma guerra virtual de ideias, com ataques e contra-ataques, com agressões à honra, agressividade, falta de cortesia. Na guerra da comunicação e da informação, as palavras e imagens são armas poderosas. Nesse ambiente, disseminam-se inverdades plantadas por quem interessa corroer a imagem de oponentes, adversários ou inimigos. A falta de relação com a verdade, a hipocrisia, a dissimulação, os enganos e autoenganos, a mensagem agressiva e ofensiva, insultuosa e não verdadeira são formas de uso violento da comunicação. No ambiente virtual há múltiplas facilidades para manipulação de informações, edição e montagens, fazer passar ficção por realidade, criar factoides, fake news, mentiras e enganos. Os meios de comunicação, com a propaganda e a publicidade, com frequência usam técnicas de manipulação das consciências com finalidades comerciais ou de dominação política.

Pode ser que a violência física no Brasil se reduza ao se evitar a violência nas mensagens e na comunicação e ao se reduzir aquela contida nos pensamentos e nos sentimentos. A violência nas escolas brasileiras, antes de ser física, é uma violência verbal e mental.

A construção de uma cultura da paz exige transformação de valores, mentalidade e comportamentos. A UNESCO já reconhecia a necessidade de trabalhar a paz dentro de cada pessoa quando adotou a seguinte frase como introdução ao ato que a constituiu: “Se as guerras nascem no espírito dos homens, é nos espíritos dos homens que devem ser erguidos os baluartes da paz.”

A falta de fraternidade induz a violência. Liberdade de expressão sem fraternidade e respeito pelos outros pode ter resultados violentos e criminosos, como mostram episódios de comunicação no Brasil e no exterior. Toda ação gera uma reação, que pode ser desproporcional quando envolve fundamentalismos religiosos. O sábio indiano Sri Aurobindo observou que  a fraternidade é a chave para viabilizar a liberdade com igualdade.

Mensagens podem inspirar, promover virtudes, despertar sentimentos edificantes. O cuidado com as mensagens  e com a linguagem integra o esforço de aprimoramento da evolução humana. Gentileza, cortesia, cordialidade, empatia e compaixão, fraternidade e amor são atitudes que podem promover encontros, cooperação e compreensão e desarmar escaladas de violência a partir da comunicação.

(*) Autor dos livros Ecologizar, Tesouros da Índia, Meio Ambiente & Evolução Humana.





[1] Marshall Rosenberg escreveu o livro Comunicação não-violenta, no qual desenvolveu técnicas para aprimorar os relacionamentos pessoais e profissionais. Dominic Barter oferece cursos sobre o tema em português. Ver  https://www.youtube.com/watch?v=Frg2Qc2AzCs