No crepúsculo turbulento da Era Cenozoica, marcada pelo apogeu e, agora, pela crise dos mamíferos, vislumbra-se um novo horizonte evolutivo para a história natural: a Era Hidrosófica.
Cientistas, visionários e pioneiros já imaginaram
vários cenários para o que seria a próxima era na história natural. Três deles se voltavam para o mundo exterior:
a era ecozóica (Swimme e Berry), a era tecnozóica (Bell) e a era cosmozóica ou
eremozóica (E.O.Wilson). Outros três cenários se voltavam para o mundo
interior: a era noológica, a era subjetiva e a era espiritual (Sri Aurobindo).
Estaremos no rumo de uma Era Hidrosófica quando a espécie humana evoluir de sua fase infantil, que não mede as consequências de seus atos, evoluir de sua adolescência e com espasmos de comportamento de delinquência juvenil que produz a atual fase de falência, crise e emergência hídrica, a fase de hidroalienação e de hidro ignorância. É a etapa em que a espécie humana, após o tumultuado período de adolescência geológica, atinge uma possível maturidade planetária.
O final da era cenozoica (a dos
mamíferos) e o Antropoceno serão lembrados como a época da grande cegueira: a
ilusão de separação. A sociedade
antropocêntrica tratou a água em suas partes — como recurso hídrico a ser
explorado, como receptor de efluentes, como obstáculo a ser canalizado —,
fragmentando o ciclo e quebrando as conexões vitais entre oceano, nuvem, rio,
aquífero e organismo. A crise climática, a escassez, a poluição e a perda de
biodiversidade são sintomas desta desconexão.
A Era Hidrosófica não representa meramente uma
nova era geológica, mas uma transição civilizatória profunda, o
ponto de inflexão onde a humanidade escolhe finalmente alinhar sua cultura,
economia e espiritualidade ao princípio organizador mais fundamental do
planeta: o ciclo integral da água. É a era em que a Sophia (sabedoria) encontra
o Hidros (água).
A Era Hidrosófica nasce do reconhecimento,
forjado no sofrimento e na ciência, de que toda a vida, incluindo a humana, é
um fenômeno hídrico. O fracasso do projeto de dominação torna-se a semente da
sabedoria da integração.
Na Era Hidrosófica, a civilização se
reorganiza:
·
Cidades são esponjas vivas, infraestruturas
azuis-verdes que captam, limpam, retardam e celebram a água em seu território.
·
A produção
de alimentos sincroniza-se
com os ciclos de umidade e os rios voadores, praticando uma agro hidrologia
reverente.
·
A ciência converte-se em Hidrosofia Aplicada, uma
prática transdisciplinar de escuta e diálogo com a inteligência do ciclo.
·
O sucesso
individual e coletivo é
medido pela contribuição à saúde hídrica local e planetária.
O advento da Era Hidrosófica representa mais
do que uma mudança de hábitos. É uma transição de percepção e de
consciência: de nos vermos como senhores de um recurso hídrico, para nos
entendermos como expressões conscientes e responsáveis do próprio ciclo da água.
A Era Hidrosófica não é um destino garantido, mas um cenário
possível e necessário, forjado na forja das crises atuais. Nesta era, a
humanidade não será a espécie que dominou a água, mas aquela que, finalmente,
aprendeu a escutá-la, honrá-la e fluir com ela — reconhecendo, por fim, que a
sabedoria da água é a sabedoria da própria vida, e que nosso futuro é
inseparável do futuro de cada gota, em cada estado, em cada canto do planeta
vivo.
Um comentário:
É bem assim, Maurício. Iludidos pelas distorções das diversas etapas da nossa evolução na Terra Mãe, nos distraímos pelas nossas capacidades criativas e velozes. Somos água há muitas eras, começamos por secar a boca e os olhos, e precisamos como nunca cuidar de nossas águas. Que flutuemos na Era Hidrosófica!!
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