segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Rumo a uma Civilização Hidrocêntrica


 O planeta Terra encontra-se numa transformação acelerada que coloca enormes desafios para a civilização e a sobrevivência humana. Grande parte desses desafios está relacionado com o ciclo da água: secas e estiagens, enchentes e inundações, ciclones e furacões, elevação do nível dos mares, derretimento de geleiras e dos polos. Torna-se um aprendizado essencial para a sobrevivência da espécie com menos sofrimentos e sobressaltos, compreender com essa substância se comporta diante das mudanças de temperatura, do frio e do calor, com a evaporação, a condensação, a precipitação; aprender continuamente sobre o ciclo integral da água; aprender como funcionam projetos e programas ambientais e florestais realizados com boas intenções, mas que após algum tempo mostram ter efeitos colaterais negativos; aprender a lidar com sabedoria com o ciclo integral da água

Isso se realiza com uma visão Hidrocêntrica, que coloca o ciclo da água como princípio organizador da vida e que pode guiar a adaptação a esse planeta em transformação acelerada.

A proposta de uma civilização Hidrocêntrica representa um salto evolutivo na forma como a humanidade se relaciona com o mundo.

O físico Marcelo Gleiser fala das feridas narcísicas da humanidade cada vez que a ciência mostra que não somos o centro do universo: o geocentrismo acreditava que a Terra era o centro de tudo. Copérnico tirou a Terra do centro e nele colocou o Sol, com o heliocentrismo. Depois, o próprio Sol foi entendido como uma estrela de 5ª grandeza numa periferia da Via Láctea. Outra ferida narcísica ocorreu com Darwin, que colocou o homem como mais uma espécie na evolução natural; outra ainda com Freud que mostrou que o mundo consciente é apenas uma pequena fração de um mundo maior que envolve impulsos inconscientes. Atualmente, o surgimento da Inteligência Artificial pode abrir uma nova ferida narcísica que desbanca de seus pedestais de conhecimento os especialistas e os cientistas, pois surge um agente capaz de fazer mais rápido e melhor uma coleta de informações e sua organização que eles levariam muito tempo para fazer, e com piores resultados. A autoestima humana sofre mais um golpe na presença desse ente capaz de vasculhar a infosfera e selecionar dados e informações com uma linguagem compreensível e amigável.

 No hidrocentrismo a água, em seu ciclo integral, torna-se o eixo central de valor, compreensão, ética e organização social. Essa perspectiva transcende e integra perspectivas anteriores: supera o antropocentrismo (homem no centro), que vê a natureza como recurso; aprofunda o biocentrismo (vida no centro), ao focalizar a água, elemento comum e constituinte de toda a vida; e enriquece o ecocentrismo (ecossistema no centro), revelando a dinâmica fluida que interliga todos os ecossistemas.

A abordagem Hidrocêntrica não cria novas feridas narcísicas. Ela tem o condão de dar um crédito ao ser humano e de revalorizá-lo. Somos uma gota minúscula, uma molécula num oceano de água. Essa visão completa verdades enunciadas de forma parcial, como por exemplo, a afirmativa bíblica de que tu és pó e ao pó voltarás. Essa é parte da verdade; a outra parte é que tu és água e no ciclo da água permanecerás. Se o corpo é cremado, sua água evapora e se integra à atmosfera. Se o corpo é enterrado, sua água se infiltra no solo, torna-se necrochorume e passa a fazer parte das águas subterrâneas. A abordagem hidrocêntrica também completa a conhecida frase do astrônomo e divulgador da ciência, Carl Sagan, de que somos poeira de estrelas, pois elementos químicos que compõem o corpo humano e a Terra — como carbono, nitrogênio e oxigênio — foram forjados em estrelas que explodiram. Sim, somos poeira de estrelas, mas também somos água de estrelas, cometas e outros corpos celestes. No corpo de um indivíduo, no ambiente ao redor ou nas galáxias do universo a água está presente.

A civilização Hidrocêntrica não é um retorno romântico ao passado, mas um salto evolutivo para a frente. É a aceitação de que somos, em essência, água que pensa. Ao colocar o ciclo integral das águas no centro do projeto civilizatório, estamos alinhando nossa cultura à lei mais fundamental do planeta: a lei do fluxo, da conexão e da transformação perpétua.

Cada ação de recuperação de nascente, de monitoramento da qualidade da chuva, de regeneração de manguezais, é um ato de construção do mundo hidrocêntrico. É a prática que precede e conforma a nova consciência. É uma gota que pinga e expande o oceano de conhecimento e das práticas sobre a água.

Nesta sociedade, valorizar a água em todas as suas formas – da mais salina à mais doce, da mais gasosa à mais sólida, da que corre no rio à que pulsa no coração – é valorizar o próprio princípio da vida. É reconhecer que cuidar da água é cuidar do fluxo consciente do qual somos parte, expressão e guardião. O hidrocentrismo não é mais uma visão de mundo: é a aceitação de que já vivemos com ela dentro e fora do corpo, e que nossa missão é aprender a habitar essa verdade com sabedoria, reverência e beleza.

A civilização Hidrocêntrica não venera a água apenas como um símbolo, mas a reconhece como a matriz física, química e simbólica da realidade, construindo sua cultura, economia, política e espiritualidade a partir dessa premissa radical.

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