O planeta Terra encontra-se numa transformação
acelerada que coloca enormes desafios para a civilização e a sobrevivência
humana. Grande parte desses desafios está relacionado com o ciclo da água:
secas e estiagens, enchentes e inundações, ciclones e furacões, elevação do
nível dos mares, derretimento de geleiras e dos polos. Torna-se um aprendizado
essencial para a sobrevivência da espécie com menos sofrimentos e sobressaltos,
compreender com essa substância se comporta diante das mudanças de temperatura,
do frio e do calor, com a evaporação, a condensação, a precipitação; aprender
continuamente sobre o ciclo integral da água; aprender como funcionam projetos
e programas ambientais e florestais realizados com boas intenções, mas que após
algum tempo mostram ter efeitos colaterais negativos; aprender a lidar com
sabedoria com o ciclo integral da água
Isso se realiza com
uma visão Hidrocêntrica, que coloca o ciclo da água como princípio
organizador da vida e que pode guiar a adaptação a esse planeta em
transformação acelerada.
A proposta de uma civilização Hidrocêntrica
representa um salto evolutivo na forma como a humanidade se relaciona com o
mundo.
O físico Marcelo Gleiser fala das feridas
narcísicas da humanidade cada vez que a ciência mostra que não somos o centro
do universo: o geocentrismo acreditava que a Terra era o centro de tudo. Copérnico
tirou a Terra do centro e nele colocou o Sol, com o heliocentrismo. Depois, o
próprio Sol foi entendido como uma estrela de 5ª grandeza numa periferia da Via
Láctea. Outra ferida narcísica ocorreu com Darwin, que colocou o homem como
mais uma espécie na evolução natural; outra ainda com Freud que mostrou que o
mundo consciente é apenas uma pequena fração de um mundo maior que envolve
impulsos inconscientes. Atualmente, o surgimento da Inteligência Artificial
pode abrir uma nova ferida narcísica que desbanca de seus pedestais de
conhecimento os especialistas e os cientistas, pois surge um agente capaz de
fazer mais rápido e melhor uma coleta de informações e sua organização que eles
levariam muito tempo para fazer, e com piores resultados. A autoestima humana
sofre mais um golpe na presença desse ente capaz de vasculhar a infosfera e
selecionar dados e informações com uma linguagem compreensível e amigável.
No
hidrocentrismo a água, em seu
ciclo integral, torna-se o eixo central de valor, compreensão, ética e
organização social. Essa perspectiva transcende e integra perspectivas
anteriores: supera o antropocentrismo (homem
no centro), que vê a natureza como recurso; aprofunda o biocentrismo (vida no centro), ao
focalizar a água, elemento comum e constituinte de toda a vida; e enriquece
o ecocentrismo (ecossistema
no centro), revelando a dinâmica fluida que interliga todos os ecossistemas.
A abordagem Hidrocêntrica
não cria novas feridas narcísicas. Ela tem o condão de dar um crédito ao ser
humano e de revalorizá-lo. Somos uma gota minúscula, uma molécula num oceano de
água. Essa visão completa verdades enunciadas de forma parcial, como por
exemplo, a afirmativa bíblica de que tu és pó e ao pó voltarás. Essa é parte da
verdade; a outra parte é que tu és água e no ciclo da água permanecerás. Se o
corpo é cremado, sua água evapora e se integra à atmosfera. Se o corpo é
enterrado, sua água se infiltra no solo, torna-se necrochorume e passa a fazer
parte das águas subterrâneas. A abordagem hidrocêntrica também completa a
conhecida frase do astrônomo e divulgador da ciência, Carl Sagan, de que somos
poeira de estrelas, pois elementos químicos que compõem o corpo
humano e a Terra — como carbono, nitrogênio e oxigênio — foram forjados em
estrelas que explodiram. Sim, somos poeira de
estrelas, mas também somos água de estrelas, cometas e outros corpos celestes.
No corpo de um indivíduo, no ambiente ao redor ou nas galáxias do universo a
água está presente.
A civilização Hidrocêntrica não é um retorno
romântico ao passado, mas um salto evolutivo para a frente. É a aceitação de que
somos, em essência, água que
pensa. Ao colocar o ciclo integral das águas no centro do projeto civilizatório,
estamos alinhando nossa cultura à lei mais fundamental do planeta: a lei do
fluxo, da conexão e da transformação perpétua.
Cada ação de recuperação de nascente, de
monitoramento da qualidade da chuva, de regeneração de manguezais, é um ato de
construção do mundo hidrocêntrico. É a prática que precede e conforma a nova
consciência. É uma gota que pinga e expande o oceano de conhecimento e das
práticas sobre a água.
Nesta sociedade, valorizar a água em todas as suas formas – da mais
salina à mais doce, da mais gasosa à mais sólida, da que corre no rio à que
pulsa no coração – é valorizar o próprio princípio da vida. É reconhecer que
cuidar da água é cuidar do fluxo consciente do qual somos parte, expressão e
guardião. O hidrocentrismo não é mais uma visão de mundo: é a aceitação de que
já vivemos com ela dentro e fora
do corpo, e que nossa missão é aprender a habitar essa verdade com
sabedoria, reverência e beleza.
A civilização Hidrocêntrica não venera a água
apenas como um símbolo, mas a reconhece como a matriz física, química e simbólica da realidade, construindo sua
cultura, economia, política e espiritualidade a partir dessa premissa radical.
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