O físico Marcelo Gleiser fala de três feridas narcísicas da humanidade. Primeiro, achávamos que a Terra era o centro do universo. Copérnico chegou e nos deu um golpe: não, a Terra não é o centro, o Sol é o centro de uma parte ínfima do universo, o sistema solar.
Depois, achávamos que éramos a
espécie eleita, criados à imagem e semelhança de Deus. Darwin veio e disse:
vocês são apenas mais um galho na árvore da evolução. Outra ferida.
Em seguida, achávamos que éramos
senhores absolutos da nossa consciência. Freud mostrou que somos movidos por
forças inconscientes que mal controlamos. Mais uma ferida.
Agora, a Inteligência Artificial
nos humilha: máquinas que organizam conhecimento mais rápido e melhor que
qualquer especialista. Esta ferida é um golpe no nosso orgulho, vaidade,
autoestima.
Como curar essas feridas? Uma resposta possível: Tornando-nos um com
o planeta e com o universo por meio da substância que nos constitui: a água.
Um poema nos ensina: "A
cura não é fechar a ferida. É deixar que ela se torne nascente."
A cura não é anestesia. É ferida
que aprendeu a fluir.
É quando o homem, de joelhos na
poeira, descobre que o pó também tem sede.
É quando o sábio, humilhado pela máquina, senta-se à beira do rio e escuta o
que a água sempre disse e ele nunca ouviu.
Porque a água não precisa de
centro. Ela é centro e periferia, origem e fim. Ela é o copo e a sede, a fonte
e a foz, a chuva que lava a ferida e a ferida que chove.
Na civilização hidrocêntrica, a
cura não é voltar a ser deus. É aceitar ser gota. É aprender que a humilhação
de Copérnico era apenas o prelúdio da humildade líquida: não somos o centro,
mas participamos do centro a cada vez que a água nos atravessa.
Completamos também duas frases
incompletas:
"Tu és pó e ao pó
voltarás" — disseram. Mas esqueceram de completar: tu és água e no ciclo
da água permanecerás. O corpo cremado sobe em vapor e abraça a nuvem. O corpo
enterrado infiltra-se, vira necrochorume, alimenta aquíferos, raízes,
nascentes.
"Somos poeira de
estrelas" — celebramos com Carl Sagan. Mas também somos água de cometas,
lágrimas de mundos que explodiram para que pudéssemos, um dia, chorar. Somos
poeira incandescente e orvalho gelado, contradição que aprendeu a fluir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário