O Colapso da Autoridade Judicial e a Lógica Política do "Voto de Vingança"
A narrativa central das eleições brasileiras de 2026 pode ser resumida como uma "vingança" dos eleitores contra o sistema judiciário. Quando o Supremo Tribunal Federal condenou o ex-presidente Bolsonaro a 27 anos de prisão por crime de golpe de Estado e cassou seus direitos políticos até 2060, quase metade dos eleitores não sentiu a promoção da justiça, mas sim uma humilhação de "ter seu direito de escolha roubado". Esse sentimento de humilhação está se transformando em mobilização punitiva nas urnas — não por amor a um candidato específico, mas por um acerto de contas com aqueles que julgaram e seus aliados.
A política da vingança tem sua lógica interna. Francis Bacon descreveu a vingança como uma espécie de "justiça selvagem", observando que ela "ofende a lei e a destitui de seu cargo". Quando o próprio poder judiciário é visto por uma parcela considerável da população como instrumento político e não como encarnação da justiça, o julgamento de Bacon encontra eco contemporâneo: os eleitores contornam os canais institucionais e usam o voto para "executar" diretamente a justiça como a entendem. Isso não é uma defesa do Estado de Direito, mas um voto de desconfiança no Estado de Direito.
A particularidade de 2026 reside no fato de que Bolsonaro não está na cédula. O líder condenado não pode concorrer, e o impulso de vingança se transfere para seu herdeiro político. Flávio Bolsonaro, como senador, apareceu à frente de Lula no primeiro turno, e o núcleo de sua estratégia de campanha não é apresentar um projeto alternativo de governança, mas maximizar o efeito agregador do "antipetismo". O sentimento antipetista é eficaz não apenas porque é uma posição ideológica, mas porque é um veículo de vingança — cada voto é uma resposta ao "que eles fizeram conosco". Como apontam estudiosos da psicologia eleitoral da vingança, o motor central do comportamento vingativo é o "dano à autoidentidade". Quando eleitores sentem que o líder que apoiam foi "injustamente" privado do direito de concorrer, o voto deixa de ser expressão de preferência política e se torna ação para restaurar uma identidade ferida.
No entanto, o paradoxo da lógica vingativa é que ela tem enorme poder de mobilização, mas quase nenhuma capacidade de se converter em capacidade de governança. Votar contra algo é muito mais fácil do que votar a favor de algo. A campanha de 2026, portanto, apresenta uma tendência ao esvaziamento — o antipetismo é o único aglutinante eficaz, capaz de unir precariamente liberais econômicos, evangélicos conservadores, o agronegócio e manifestantes antissistema. Mas o preço dessa unidade é que nenhum desses grupos obtém verdadeiramente a representação que deseja. O que obtêm é apenas uma sensação coletiva de "acerto de contas".
O problema mais profundo reside na própria situação do poder judiciário. Quando o Supremo Tribunal Federal, por 4 votos a 1, enviou um ex-presidente à prisão e cassou seus direitos políticos até os 105 anos de idade, ele inevitavelmente se coloca no centro da controvérsia política. Para os apoiadores da sentença, trata-se de uma resposta necessária a um ataque à democracia. Para os opositores, trata-se de uma negação arrogante da escolha popular por um sistema judiciário "injusto". Qualquer que seja a interpretação mais próxima da realidade, uma consequência observável é que a imagem do judiciário como "árbitro neutro" desmoronou no coração de quase metade dos eleitores. A vingança adquire, assim, uma espécie de "legitimidade" — não é rebelião contra autoridade legítima, mas punição aos "usurpadores".
A política brasileira há muito oscila entre duas emoções negativas: o antipetismo e o antibolsonarismo. Ambos possuem, cada um, força de veto suficiente para impedir a vitória do outro, mas nenhum é capaz de oferecer uma maioria construtiva. O resultado das eleições de 2026 provavelmente não será a vitória de nenhum dos lados, mas a continuação do ciclo de vingança. Os eleitores puniram o sistema judiciário com seus votos, mas as decisões judiciais não mudarão por causa dos votos; o lado punido articulará a próxima rodada de vingança, enquanto o conteúdo substantivo da política — combater a pobreza, a desigualdade, a estagnação do crescimento — permanece engavetado.
A vingança é um prato que se serve frio, mas comer frio demais prejudica o próprio sistema digestivo. ( texto encomendado e editado por mim com assessoramento do DeepSeek)
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