domingo, 1 de novembro de 2026

Mafiacracia e captura das instituições do estado.

 

Resumo crítico do artigo anexo sobre Mafiacracia e captura das instituições do estado.

Resumo Crítico: "From Caged Animals to Caged Citizens: Mafiacracy and State Capture in Rio de Janeiro" (Luiz Ventura, 2026)

1. Síntese do argumento

O artigo propõe o conceito de mafiacracia (grafado também como malofocracy/mafocracy no texto, numa inconsistência terminológica que persiste ao longo de todo o manuscrito) como uma configuração específica de captura do Estado em que organizações criminosas deixam de ser atores externos que "infiltram" instituições e passam a ser participantes coalisionais na moldagem das regras, da autoridade institucional e da alocação de recursos públicos. O autor distingue mafiacracia de três conceitos vizinhos: (a) crime organizado em si (foco em mercados ilícitos); (b) criminal governance (regulação de territórios e da vida civil na ausência do Estado); e (c) corrupção estratégica (uso da corrupção como instrumento externo de influência).

O argumento é desenvolvido em três movimentos:

1.      Fundamentação conceitual: revisão da literatura sobre state capture (Hellman et al., 2003; Kaufmann, 2024), corrupção estratégica e governança criminal, com a proposição de que a captura é simultaneamente espacial e temporal — o Estado "nasce capturado", e a captura se consolida por trajetórias path-dependent.

2.      Reconstrução histórica diacrônica: do jogo do bicho (1892) à consolidação das milícias, passando pelo período ditatorial, pelo julgamento dos bicheiros (1993, juíza Denise Frossard), pela CPI das Milícias (2008), pela intervenção federal (2018) e pelo caso Marielle Franco.

3.      Mecanismos de reprodução: captura política (CPAP) e lavagem de dinheiro como "ponte regulatória" entre esferas formal e informal, fechando o ciclo extração → capital → influência institucional.

O arcabouço analítico adapta o State Capture Index (SCI) de Kaufmann — CCRL (rule of law corrupto e capturado), CPAP (acesso político e policy capturados) e CENE (ambiente facilitador da captura) — como scaffold conceitual, não como ferramenta empírica replicável.

2. Avaliação crítica

2.1 Pontos fortes

a) Contribuição conceitual genuína. A distinção entre mafiacracia e conceitos adjacentes é analiticamente produtiva. A ênfase no caráter coalisional (e não meramente infiltrativo) da participação criminal na autoridade institucional captura algo que a literatura de criminal governance (Arias, Lessing, Mantilla) e a de state capture (Kaufmann) tratam separadamente. A ideia de que a mafiacracia se sustenta preservando a aparência formal de legalidade — em vez de substituí-la — é particularmente feliz.

b) Perspectiva diacrônica e espacial. A recusa de uma leitura linear ("descida") em favor de "um século de mutações, rupturas e reconstruções" é metodologicamente sofisticada. A articulação entre controle territorial e captura institucional — via Misse e a noção de mercadorias políticas — enriquece a análise.

c) Transparência metodológica incomum. O autor é explicitamente cuidadoso em distinguir proposições conceituais, afirmações descritivas documentadas, exemplos ilustrativos e conclusões interpretativas (Seção 5.2). O reconhecimento das limitações das fontes secundárias (jornalismo, relatórios institucionais) e a recusa de apresentar as tabelas como "registro legal verificado" são louváveis.

d) Uso criterioso do SCI como arquitetura analítica. A adaptação ao nível subnacional — com equivalentes funcionais locais para CCRL, CPAP e CENE — é uma contribuição metodológica para pesquisas futuras, ainda que o próprio autor admita que a operacionalização fica para uma agenda posterior.

2.2 Fragilidades e pontos de tensão

a) O conceito é mais afirmado do que demonstrado. O artigo é explicitamente exploratório e theory-building, mas o leitor fica com a sensação de que a mafiacracia é definida por um conjunto de traços que, na prática, se sobrepõem consideravelmente à criminal governance e à captura do Estado por elites. A "mais-valia" analítica do conceito — o que ele explica que os conceitos existentes não explicam — é enunciada com clareza, mas a demonstração empírica de que se trata de uma configuração distinta (e não de um caso de captura elitista com participação criminal) permanece incompleta. O critério de falseabilidade é vago.

b) Inconsistência terminológica. O manuscrito oscila entre "mafiacracia", "mafocracy", "malofocracy", "mafocratic", "malfacratic" e "mafioocracy". Isso não é apenas um problema de revisão linguística: sugere que o conceito ainda não estabilizou sua própria identidade. Para um artigo que faz da precisão conceitual sua principal contribuição, é uma fragilidade significativa.

c) Tratamento da lavagem de dinheiro como "hipótese ilustrativa". A Seção 9 é, talvez, a mais interessante e a mais frágil. O autor reconhece que os três canais (especulação imobiliária, contratos públicos, negócios de caixa) são "aplicações interpretativas de padrões estabelecidos", não achados verificados. Isso é honesto, mas enfraquece a pretensão de que a lavagem seja o "mecanismo regulatório" central que "fecha o ciclo" da captura. A evidência apresentada é amplamente indireta e baseada em reportagens.

d) Assimetria na evidência sobre captura política. A Tabela A4 (casos de vínculos político-criminosos) é apresentada como "ilustrativa", mas o texto constrói inferências relativamente fortes a partir dela. O caso Marielle Franco é mobilizado como "caso paradigmático", mas a conexão com o argumento mais amplo sobre mafiacracia poderia ser mais cuidadosamente calibrada — o crime é atribuído a ex-policiais ligados ao Escritório do Crime, mas a cadeia causal até a "captura institucional" permanece, ela própria, objeto de investigação em curso.

e) Ausência de contra-argumentos e casos negativos. O artigo não examina por que a mafiacracia não se consolidou em outros contextos urbanos brasileiros com características similares (e.g., São Paulo com o PCC, ou outras capitais com milícias). Sem variação comparativa — mesmo que ilustrativa — a inferência sobre os mecanismos causais fica enfraquecida. O autor reconhece que Rio é "analiticamente relevante, não representativo", mas isso não dispensa a necessidade de algum contraste.

f) Tensão não resolvida entre estrutura e agência. O texto afirma que "o Estado nasce capturado" (perspectiva quase estruturalista) e, ao mesmo tempo, enfatiza a "oportunidade e adaptabilidade tática dos atores" (perspectiva agencial). A relação entre essas duas camadas não é teorizada com clareza. A noção de "elite coalitions" é invocada repetidamente, mas o artigo nunca especifica quem são essas elites, como se coordenam, e por que às vezes competem (eixo horizontal) e às vezes convergem contra a sociedade (eixo vertical). A distinção horizontal/vertical é promissora, mas subdesenvolvida.

g) Dependência excessiva de fontes jornalísticas e de uma literatura secundária relativamente estreita. A base empírica repousa pesadamente em O Globo, Folha, Manso (2020), Olliveira (2025) e nos relatórios do GENI/UFF e Fogo Cruzado. Isso é compreensível para um artigo exploratório, mas limita a originalidade empírica. O artigo não utiliza dados primários, entrevistas, ou análise documental de processos judiciais — o que seria esperado para sustentar afirmações sobre "captura" institucional.

h) O SCI é usado de forma mais retórica do que operacional. O autor é explícito ao dizer que não operacionaliza o índice. Mas, ao organizar o artigo em torno de CCRL, CPAP e CENE, cria a expectativa de que essas dimensões serão sistematicamente examinadas. Na prática, a Seção 7 (histórica) ilustra principalmente CENE e CCRL, a Seção 8 (captura política) ilustra CPAP, e a Seção 9 (lavagem) "atravessa" as três — mas sem a disciplina analítica que a estrutura tripartite prometia. O resultado é que o SCI funciona mais como rubrica organizacional do que como ferramenta analítica.

i) Questões de escopo e posicionamento. O artigo é publicado em Frontiers in Political Science, mas o autor é do Departamento de Economia da Universidad Nacional Mayor de San Marcos (Peru). Há uma tensão entre a ambição teórica (contribuir para debates sobre captura do Estado, crime organizado e erosão democrática) e a modéstia empírica (um único caso, fontes secundárias). O artigo se posiciona como "exploratory, theory-building", mas a originalidade teórica — embora real — é mais uma recombinação de conceitos existentes do que uma ruptura paradigmática.

2.3 Questões abertas para o debate

1.      A mafiacracia é um tipo ideal ou um continuum? O artigo sugere ambas as coisas. Se é um tipo ideal, quais são os casos puros? Se é um continuum, onde estão os limiares?

2.      Qual é a relação entre mafiacracia e democracia? O texto afirma que a mafiacracia persiste "dentro de uma ordem formalmente democrática", mas não desenvolve uma teoria da erosão democrática que dê conta dessa coexistência.

3.      O conceito viaja para fora do Rio? O autor sugere que sim (América Latina, "territorially fragmented and institutionally vulnerable settings"), mas sem especificar as condições de aplicabilidade.

4.      Como medir mafiacracia? O artigo deixa a operacionalização para pesquisas futuras — o que é legítimo, mas também adia a teste da fecundidade do conceito.

3. Conclusão

O artigo é uma contribuição conceitualmente ambiciosa e metodologicamente honesta para os estudos sobre crime organizado, captura do Estado e governança híbrida. Seu principal mérito é propor uma síntese — a mafiacracia — que articula literaturas frequentemente separadas (state capture, criminal governance, economia política da corrupção) e o faz com sensibilidade histórica e espacial. A reconstrução diacrônica do Rio de Janeiro é rica e bem informada, e a discussão sobre lavagem de dinheiro, embora especulativa, é provocativa.

Suas principais fragilidades são: (a) a inconsistência terminológica, que compromete a estabilidade do conceito; (b) a demonstração empírica insuficiente da distinção da mafiacracia em relação a conceitos vizinhos; (c) a ausência de contraste comparativo; (d) o uso mais retórico do que analítico do SCI; e (e) a dependência de fontes secundárias e jornalísticas para afirmações relativamente fortes.

Em suma: um artigo que vale ser lido e debatido, mas cujo conceito central ainda precisa ser submetido a teste empírico e comparação sistemática para se consolidar como ferramenta analítica robusta. A agenda de pesquisa que o autor esboça — operacionalização subnacional, análise de redes de lavagem, estudos comparativos — é, ela própria, o reconhecimento de que a mafiacracia é, por ora, mais uma promessa teórica do que uma explicação consolidada.

(Resumo encomendado e editado por Maurício Andrés com assessoramento do DeepSeek)

 

Nenhum comentário: