As várias hidrologias especializadas situam-se num quadro geral em que a água pode ser considerada de modo mais amplo, numa abordagem integral.
Abordagens integrais
vêm sendo aplicadas a variados temas, da psicologia à ecologia, da educação ao
yoga. Por meio delas, vai-se além de
enfoques que fragmentam o campo estudado. Assim, por exemplo, a ecologia integral pioneiramente
estudada por Pierre Dansereau, Pierre Weil e outros, foi adotada pelo Papa
Francisco em sua encíclica Laudato Si. Ela estuda tanto os aspectos biológicos
relacionados com as espécies vegetais e animais em seus ambientes, como também
as questões culturais, sociais e políticas que incluem a espécie humana, além
da dimensão subjetiva e psicológica relacionada com a ecologia do ser. A educação integral trata de modo holístico esse
campo estratégico para a formação das consciências. Pioneiro dos estudos
integrais, Ken Wilber se aprofundou na psicologia integral e na espiritualidade integral. O sábio indiano
Sri Aurobindo desenvolveu o Yoga integral, que abarca os inúmeros
campos em que se desdobra aquela ciência e prática milenar.
Quando se aplica a visão integral ao campo da hidrologia, consideram-se todos e cada um dos aspectos temáticos específicos da água. Considera-se seus aspectos científicos bem como sua manifestação nas artes, nas tradições espirituais e na filosofia. A hidrologia integral busca superar visões reducionistas e quantitativas. Numa abordagem integral, procura-se refletir em várias escalas, do cosmos à gota e à molécula. Da escala mega até a escala nano. A hidrologia integral não é apenas uma ciência árida e seca. Ela é fertilizada com enfoques qualitativos. A abordagem integral é
inclusiva. Vai além da visão dos especialistas, reconhece sua importância e a
insere num contexto maior. Essa
abordagem não fica refém de condicionamentos conceituais legais, como por
exemplo os adotados nas leis que valorizam a água como um recurso dotado de
valor econômico e que não explicitam seu valor ecológico e sua importância
como um patrimônio coletivo. |
Uma abordagem integral a partir da água pode ser necessária
para compreender a era de incertezas, mudanças e inseguranças em que vivemos;
uma era líquida, mutável, em que conceitos antropocêntricos, ecocêntricos,
biocêntricos, cosmocêntricos se tornam pouco esclarecedores e a ação baseada
neles pouco eficaz.
É necessário desenvolver uma visão orgânica de como ela flui
no ambiente, para além de visões sistêmicas parciais e setoriais; ampliar a
consciência dela como parte de um sistema hídrico, que por sua vez é componente
vital de um organismo vivo, seja ele o corpo humano, uma bacia hidrográfica ou
o planeta Terra.
A abordagem integral enxerga os múltiplos ângulos em que as
águas permeiam os ambientes, desde o cosmos até o interior dos corpos dos seres
vivos. A água é múltipla, mas também é uma só. A abordagem integral ruma a uma visão
em que a água passa a ser tema dos estudos teóricos e práticos da hidrosofia
(hidro+sophia), uma abordagem que traz sabedoria, e da hidrofilia, a amizade
para com a água (hidro+ philos) para além dos conhecimentos, das informações e
dos dados.
Para lidar com a água numa perspectiva integral é necessária
a abordagem transdisciplinar, que combina ciência e arte, tradições e
filosofias, e que vai além de cada uma das disciplinas acadêmicas
especializadas a partir das quais ela é percebida e estudada.
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