I.
Ouvi, humanos, o clamor que sobe
das profundezas do poço que seca,
do leito exposto do rio que morre,
da nuvem que passa e não mais rega.
Crise, colapso, emergência,
falência —
as palavras duras batendo no peito.
A água que era dom e abundância
tornou-se grito, tornou-se preceito.
Mas no fundo da noite mais
escura,
quando a sede já queima a garganta,
uma palavra antiga se levanta,
feita de força, feita de ternura.
II.
Mutirão.
Vem do tupi,
"mbo'tira",
e traz no ventre o sentido primeiro:
ajuda mútua, trabalho companheiro,
mão que se junta, alma que se vira.
É o povo que ergue a casa do
vizinho,
é a comunidade que limpa o terreno,
é a roça plantada em mutirão,
é o olho brilhando de sonho pequeno
que aprendeu que o todo é mais que o ninho.
A COP-30 viu, em Belém,
essa semente virar floresta.
Água e floresta são irmãs, e a festa
da vida depende do que nos convém:
cuidar do ciclo, inteiro, completo,
do rio voador ao aquífero secreto.
III.
Convocação!
Não é para os governos apenas,
não é só para as empresas ou leis.
É para todos, é para qualquer um
que saiba que a água corre em suas veias
e volta um dia, em forma de choro ou de espuma,
ao grande ciclo que nos contém.
Indivíduos, Guardiões
Cotidianos:
cada gota que poupas é um oceano
que começa a nascer na tua mão.
Cada óleo que não desces pelo ralo
é um aquífero que pede perdão.
Cada esgoto que tratas com respeito
é um rio que aprende a ser leito outra vez.
Profissionais, Geradores de
Ciência:
que vossos laboratórios escutem
a linguagem antiga das nascentes.
Que a técnica se dobre à inteligência
do ciclo que nos faz tão dependentes.
Pesquisai a dessalinização,
o tratamento que devolve a pureza,
a agricultura que bebe com razão,
a meteorologia que lê a natureza.
Academia, não sejas torre de
marfim:
desce ao chão, molha as mãos no mutirão.
O saber que não serve pra cuidar da água
é sede que não sacia, é ilusão.
IV.
Sociedade Civil, Articuladores:
vós que tendes a voz e a coragem,
organizai os mutirões de limpeza,
plantai nas margens a mata ciliar.
Sede a ponte entre o saber da ciência
e a sabedoria que os povos tradicionais
guardam como herança, como semente,
como água que corre nos ancestrais.
Comitês de Bacia, Parlamentos
das Águas:
que vossas decisões não sejam cegas
aos aquíferos ocultos, às geleiras,
aos rios voadores que a atmosfera carrega.
Planejai considerando o todo,
mediando conflitos com justiça hídrica,
cobrando de quem usa, e devolvendo
em projetos de cura e de carícia.
V.
Empresas, Agentes de Produção:
chegou a hora de internalizar
o custo real de cada gota.
Não basta não poluir — é preciso regenerar.
Fechai os circuitos, reusai, tratai,
fazei da vossa indústria um ciclo santo.
A prosperidade nova se medirá
não pelo que extrais, mas pelo que devolveis
ao ciclo que vos sustenta e vos quer tanto.
Governos, Reguladores de Escala:
conectai as políticas, integrai
água, saneamento, clima, chão.
Protegei as zonas de recarga,
fiscalizai com mão firme e razão.
Investi em infraestrutura verde,
em soluções que a natureza ensina:
wetlands, florestas, matas ciliares,
saneamento que cura e não que alucina.
E lá no alto, na esfera global,
cooperai na proteção dos oceanos,
dos aquíferos que atravessam fronteiras,
do clima que governa os temporais.
O ciclo não conhece divisões:
o que fazes aqui, lá repercute.
A água é uma só em suas transformações.
VI.
E vós, Povos Indígenas,
Guardiões da Origem,
detentores dos saberes milenares:
vossos olhos viram o rio nascer
quando ainda não havia nomes.
Vossas mãos sabem a dança das chuvas,
vossos ouvidos escutam o aquífero,
vossas línguas guardam as palavras justas
para nomear cada nascente, cada curso,
cada encontro da terra com o céu.
Vinde ao mutirão, ensinai-nos a
escuta
que a civilização perdeu.
Vossa sabedoria é a fonte
que pode adoçar nosso veneno.
Sem vós, o mutirão é só barulho;
convosco, ele se faz canto pleno.
VII.
E tu, cidadão comum, que lês
agora,
que seguras este papel ou esta tela:
não digas que é muito, não digas que é fora,
não digas que a força é pequena ou singela.
Cada um segundo sua
possibilidade,
cada qual conforme seu dom:
o que importa é entrar na corrente,
é juntar a vontade, é fazer mutirão.
Pois o mutirão não é só para os
grandes,
não é só para os que têm poder.
É para a dona de casa que ensina os filhos
a fechar a torneira ao escovar os dentes.
É para o agricultor que protege a nascente.
É para o professor que leva ao quadro-negro
o ciclo da água e seu sentido profundo.
É para o poeta que canta a água
e acorda nos outros o amor fecundo.
VIII.
Os Mutirões das Águas já
começaram.
Não espera por leis, não espera por cúpulas.
Começa em ti, começa em mim, começa agora,
neste instante em que a consciência aflora
e vê que a água não é recurso apenas,
mas a matriz, o útero, a morada.
A onda do cuidado coletivo já se
formou.
Resta-nos mergulhar de corpo e alma,
resta-nos ser a gota que se soma
até formar o oceano que nos acalma.
Porque a água que defendes lá
fora
é a mesma que corre em tuas veias.
Cuidar do rio é cuidar de ti mesmo.
Cuidar da nuvem é cuidar do que semeias.
Cuidar do aquífero é cuidar do abismo
que em ti é fonte, poço, nascimento.
IX.
Vinde, humanos, ao grande
mutirão!
Deixai de lado a ilusão da separação.
A água é uma só, do gelo ao vapor,
do sangue ao oceano, da lágrima à flor.
Não há tarefa pequena, não há
gesto vão.
Cada nascente protegida é uma canção.
Cada rio despoluído é um poema.
Cada aquífero poupado é um sistema
que agradece em forma de vida nova.
Vamos juntos, de mãos dadas,
feito enxurrada,
feito rio que encontra o mar e se transforma,
feito nuvem que viaja e fecunda a terra,
feito ciclo que se fecha e recomeça.
Estes são os Mutirões das Águas.
Convocação para a missão mais bela:
garantir que a água continue fluindo,
límpida, abundante, eterna,
para a vida em geral,
para as gerações presentes e futuras,
para os seres todos que, como nós,
são apenas água sonhando
que um dia, juntos,
aprenderão a fluir.
X.
Vem.
A água te chama.
O ciclo te espera.
Os mutirões são agora.
A vida é quem clama.
Mergulha.