segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Autodepuração das águas

 A água poluída tem capacidade de se auto depurar.  A natureza presta gratuitamente esse serviço ambiental. Micro organismos presentes na água ou plantas que se alimentam das substâncias encontradas na poluição absorvem e assimilam os poluentes e limpam as águas. A aeração em cachoeiras e corredeiras traz oxigênio que também recupera a qualidade da água. Águas poluídas ou contaminadas com esgotos sem tratamento depois de alguns quilômetros rio abaixo, são capazes de se auto depurar e recuperar sua qualidade.

Tal capacidade de autodepuração das águas foi largamente utilizada durante a história brasileira. Exigia pouco esforço e era barato jogar lixo e esgoto in natura nos rios  e deixar que a natureza prestasse o seu serviço ambiental gratuitamente. Isso foi possível durante séculos e décadas, especialmente em bacias e regiões hidrográficas em que havia grandes espaços, grandes distâncias, pequeno adensamento populacional e de atividades econômicas.  Por muito tempo a má qualidade das águas esteve fora das atenções e da percepção da coletividade. Mas onde passou a haver maior adensamento de população , de industrias e outras atividades poluidoras, a poluição das águas passou  a ser mais percebida. O mau odor e  a visão de rios oleosos ou pegajosos passaram a incomodar. A necessidade de tratamento de esgotos antes de lançá-los aos rios e mares tornou-se mais premente. Investir em saneamento passou a ser considerado necessário. Começou a haver o controle ambiental  dos poluentes lançados nos rios, industrias foram pressionadas a implantar sistemas de tratamento de efluentes, municípios foram levados a implantar estações de tratamento de esgotos ou outras formas e técnicas de reduzir as poluições. Municípios rio abaixo que utilizam a mesma água passam a pressionar para que haja tratamento de esgotos, para evitar de beber água contaminada e para reduzir os seus próprios custos de tratamento de água antes de servi-la a sua população.  Nas cidades com potencial turístico, os turistas passaram a evitar locais sujos, contaminados com esgotos e lixo, o que lhes trouxe prejuízos econômicos.

A existência de um forte usuário das águas a jusante aumenta a pressão política e social pelo tratamento das águas. Isso acontece entre países. O rio Reno, que nasce na Suíça, atravessa a Alemanha e desemboca na Holanda é um exemplo de como essas pressões de baixo para cima funcionam. Os alemães precisam entregar à Holanda águas com qualidade aceitável, para evitar tensões e conflitos com seus vizinhos rio abaixo.  No Brasil, estados e regiões que dispõem de situações como esta são pioneiros no controle da poluição das águas, quando torna-se insuportável conviver harmonicamente com rios poluídos.  Já em bacias nas quais os usuários rio abaixo tem menor poder de pressão política, de influência social e de poderio economico, há menores pressões para que soluções sejam tomadas rapidamente.

Situação similar acontece nos oceanos e lagos. Os esgotos urbanos são despejados in natura longe da costa  por meio de emissários. Espera-se  que o mar preste o seu serviço ambiental de autodepuração das águas.

Mas diluição não é solução para a poluição e mesmo as outorgas para o lançamento de efluentes que são dadas pelos órgãos gestores de recursos hídricos, muitas vezes são autorizadas mediante condicionantes de que em prazo de algum tempo, haja investimentos em tratamento de esgotos.

Lixões na beira de rios e de córregos, em muitas cidades brasileiras, também se beneficiaram dessa prestação de serviços ambientais gratuita feita pela natureza ao levar para longe o lixo e trabalhar para que ele se reduza alguns quilômetros rio abaixo. Historicamente, os governos não priorizaram investir em saneamento e essa situação perdurou séculos e décadas. Mas se intensificaram as pressões para que haja um tratamento adequado.  Em 2007 aprovou-se a lei nacional do saneamento básico. A lei do marco de saneamento básico aprovada  em 2019 no Congresso  tentou criar condições para que haja maior estimulo para competição entre empresas, aumento de eficiência e produtividade e para que  mais recursos e capitais sejam investidos no saneamento.

 

Risco de desabastecimento de água

O risco de desabastecimento de água ocorre quando há escassez e a oferta de água torna-se igual ou menor do que a demanda para os vários usos.

Atualmente muitos países e cidades passam por estresse hídrico, situação em que a demanda por água se torna maior do que a oferta. Esse número cresce à medida que cresce a população e que se agravam as mudanças climáticas.

Quando uma sociedade ou uma cidade não consegue lidar de modo consistente com a falta de água pode acontecer o colapso. Há alguns séculos isso aconteceu na ilha de Páscoa, onde aos habitantes desmataram o solo, cortaram a vegetação e reduziram a acumulação de água no solo. Aconteceu também em Fatehpur Sikri, cidade construída no Rajastão indiano para ser a capital do império Mogol, mas que nem chegou a ser habitada pois uma crise climática reduziu drasticamente as chuvas na região e a cidade ficou sem fontes de abastecimento.

Na atualidade, a cidade do Cabo, na África do sul, foi a primeira a correr o risco de chegar a um dia de água zero, há alguns anos. Isso levou a que adotasse medidas para reduzir o risco do colapso. Várias outras metrópoles ou pequenas cidades passam a correr esse risco, à medida que se manifestam os efeitos das mudanças climáticas em curso.

Esse risco pode ser reduzido por meio de medidas que diminuam a demanda de água, tais como o racionamento, a redução de perdas e desperdícios nas redes de abastecimento;  ou por mudanças nos processos de produção industrial ou agrícola; ou por meio da hidroeducação para que os hábitos de consumo se  alterem e se tornem mais hidroconscientes.

O risco de desabastecimento pode ser reduzido, ainda,  por meio do aumento da oferta de água, com a captação em novos mananciais, a proteção dos mananciais existentes, a perfuração de poços tubulares ou artesianos que busquem a água subterrânea para o abastecimento, obras de infraestrutura hídrica que diversifiquem as fontes de abastecimento de uma cidade e reduzam sua vulnerabilidade a estiagens, o incentivo a produtores rurais para que produzam água e adotem tecnologias que as acumulem no solo para serem usadas quando forem necessárias.

Uma gestão adequada da água disponível também é um modo de reduzir riscos: por meio do racionamento, da operação adequada de reservatórios de água, da educação para o uso da água, da declaração de emergência ou de estado de calamidade pública, do monitoramento das secas e dos períodos de estiagem.

É preciso olhar para o presente e para as decisões que se tomam em relação  ao uso de ocupação do solo nas bacias hidrográficas onde existam mananciais de abastecimento público de água.

Entre as medidas que podem ser tomadas está a proteção das microbacias de onde se capta água para o abastecimento urbano. Evitar licenciar nelas atividades potencialmente degradadores ou poluidoras das águas é uma medida preventiva relevante. As áreas de proteção de mananciais precisam ser bem cuidadas. Os macrozoneamentos de uso e ocupação do solo são instrumentos valiosos para proteger áreas de mananciais. O município, em seus planos diretores tem responsabilidade nisso, pois ele é o gestor do uso e ocupação do solo. Um macrozoneamento e um plano diretor hidroconscientes são instrumentos valiosos para reduzir os riscos de desabastecimento de água  no município e em cada um de seus distritos.

 Para enfrentar os riscos de desabastecimento não é suficiente  olhar para as águas de superfície, sua vazão e qualidade. Também é necessário olhar para baixo, para as águas subterrâneas e seu potencial para serem usadas para o abastecimento humano. Um adequado manejo dos aquíferos subterrâneos, com áreas de recarga eficazes, faz com que as reservas subterrâneas possam atender às demandas por longos períodos.

É importante, ainda, olhar para o alto, para a água existente na atmosfera, para os rios voadores e para as mudanças climáticas.  Caso se desmate a Amazônia, a força desses rios voadores nas nuvens decrescerá e pode passar a chover menos no centro oeste e no sudeste brasileiros, desencadeando crises hídricas e maiores riscos de  desabastecimento urbano de água. É preciso olhar para o futuro, para os cenários climáticos  que indicam que aumentarão os períodos de secas prolongadas e também os volumes de chuvas torrenciais. Olhar para o passado e para as series históricas de dados de chuva e vazão dos rios não oferece mais informações suficientes para prever o futuro. Os cenários climáticos estão se alterando e tendem a aumentar os riscos de desabastecimento. O novo normal climático exigirá medidas adicionais relacionadas com as águas para evitar que uma gestão temerária aumente os riscos de desabastecimento.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

A água e a pandemia

 

A higienização se faz em várias escalas, do ser humano interior ao indivíduo, à casa, do bairro à cidade, da região ao país e ao mundo. Figura: Pierre Dansereau

 A pandemia explicitou a desigualdade social, com muita gente sem ter condições de lavar as mãos por falta de saneamento. Bilhões de pessoas no mundo e 40 milhões no Brasil não dispõem de acesso a água em suas casas. Os pobres são os mais duramente afetados pela doença.

Na pandemia evidenciou-se a relação entre saúde, água e saneamento.  A água suja ou contaminada por coliformes, nutrientes como nitrogênio e fósforo e outras substâncias, prejudica a saúde e a qualidade de vida humana e do ambiente. Constatou-se a presença de coronavirus nos esgotos.

Uma das principais estratégias para evitar que as epidemias tenham um alto custo em doentes e mortos é prover água e coleta de esgoto onde as pessoas moram. Investir no saneamento ambiental reduz a sobrecarga sobre os postos de saúde e hospitais.

Universalizar o saneamento básico é prioridade para evitar os custos sociais e humanos de uma pandemia.

Com a pandemia, a questão da saúde readquiriu importância no urbanismo. A visão sanitarista mostrou sua importância e evidenciaram-se os custos que a sociedade paga em vidas e sobrecarga nos sistemas hospitalares quando se descuida da saúde ambiental e urbanística.

Investir no saneamento ambiental, no tratamento de esgoto, para reduzir a sobrecarga da demanda sobre os postos de saúde e hospitais.

A crise sanitária representada pela pandemia da COVID-19 despertou a consciência para a necessidade de conservar a saúde integral, e não apenas tratar corretivamente das doenças.

A saúde pública se beneficia da boa saúde ambiental. Ambientes doentes adoecem as pessoas. O verbo higienizar se tornou de uso corrente durante a pandemia.

Lavar as mãos com água e sabão é uma boa medida para evitar a propagação de várias doenças e da COVID-19; aplicar água sanitária nos objetos para desinfetá-los; usar o vaso sanitário para recolher os dejetos humanos; aplicar a engenharia sanitária para prover água, esgoto, drenagem, gestão dos resíduos numa cidade; preservar a saúde ambiental do planeta evitando sua febre, medida pelo aquecimento global: esses são alguns dos modos de sanitarização do ambiente.

Sanitarizar, no sentido da saúde integral, inclui restaurar ecossistemas e ambientes naturais, mudar padrões de consumo pouco saudáveis; preparar os ambientes urbanos para dar condições de saúde física aos habitantes e de saúde mental e emocional para que tenham bem-estar e qualidade de vida; nas cidades, prover o saneamento básico; no planeta, reduzir a emergência climática por meio de uma reinvenção dos hábitos de consumo e de produção humanos.

A sanitarização da vida é uma meta associada com o controle da poluição e que pode se realizar do global ao pessoal, do doméstico ao regional com benefícios para a saúde ambiental e para a saúde humana.

Além dos aspectos ligadas à higiene corporal e ambiental deve-se prestar atenção à higiene mental e emocional. Manter a paz mental, reduzir a raiva, o medo e a ansiedade são necessários para se lidar com situações externas turbulentas como uma pandemia.