quinta-feira, 28 de maio de 2020

Um webinar ecológico


 
“ A história é como um estilinguequanto mais se estica para trás o elásticomais à frente é arremessada”.   Aloisio Magalhães

Maurício Andrés Ribeiro

Como parte das atividades que comemoram seus 50 anos, a Fundação João Pinheiro  programou seminários pela internet (webinars) ao vivo (lives)  para conversar sobre sua história.  Participei com Roberto Messias Franco de uma live sobre Meio ambiente no dia 27 de abril.
A história da política ambiental em Minas Gerais foi contada pelo Centro de Estudos Históricos e Culturais da FJP que publicou em 1998 um livro sobre o tema.
Livro publicado em 1998 pela FJP e FEAM sobre a história.
Em 1995, a FJP teve papel destacado na concepção da Lei Robin Hood que alterou os critérios para redistribuição do ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias em Minas Gerais.  Convidou a Fundação Estadual do Meio Ambiente- FEAM para elaborar o critério ambiental. Resultou disso que passaram a ser concedidos incentivos para municípios que investissem em criação de unidades de conservação (agenda verde) e para municípios que tivessem licenciado estações de tratamento de esgoto e aterros sanitários para resíduos ( agenda marrom), este último critério, que tirava dos sujos para dar aos limpos, foi adotado pioneiramente em MG.
Em 1975, José Israel Vargas assumiu a presidência da FJP e criou uma diretoria de Tecnologia e Meio Ambiente na qual se forjou o DNA da atuação ambiental, baseado na ciência e na tecnologia.  Ignacy Sachs, o socioeconomista polonês, trouxe o conceito do Ecodesenvolvimento, inspirador para os trabalhos então realizados.
Em 1975 a FJP publicou um estudo abrangente sobre meio ambiente na RMBH.
O contexto da época era de intensa urbanização e industrialização; as poluições ambientais se avolumavam. Em 1972 acontecera a Conferência de Estocolmo sobre Ambiente Humano, o primeiro grande evento da ONU sobre o tema; o Clube de Roma publicara um livro de impacto sobre Os limites do crescimento. Em 1973 fora criado  o Pnuma- Programa das Nações Unidas sobre o Meio ambiente. No Brasil entre 1968 a 1974 vivia-se o chamado “milagre econômico”, com a construção de Itaipu e de Usina nuclear em Angra dos Reis.
Em Minas Gerais  criou-se em 1973 o  Centro de Conservação da Natureza; em 1975 houve a suspensão das atividades da fábrica Itaú, em Contagem pela prefeitura; em resposta houve a federalização da questão com o  Decreto lei n. 1403  que atribuía ao governo federal a competência exclusiva de suspender  atividade industrial. Em 1975 criou-se no Governo Federal  a Sema - Secretaria Especial do Meio Ambiente. 
Com José Israel Vargas, várias diretorias da FJP atuaram na questão do meio ambiente: a dimensão ambiental foi incluída em planos regionais para o Rio doce, o sul de Minas, o Noroeste entre outros; em planos urbanísticos municipais, com destaque para aqueles do circuito do Ouro e do circuito do Diamante; a Revista Fundação JP publicou muitos artigos sobre o tema.
A FJP foi uma incubadora de instituições na área ambiental que  floresceram no CETEC, na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente e no Copam, conselho de política ambiental implantado pioneiramente no Brasil; posteriormente , foi criada a FEAM.

No século XII temas emergentes surgiram com força: em 2007 tornou-se mais visível a questão do clima quando foi publicado relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC. Nesse contexto o tema da água  emergiu com intensidade, por meio de eventos críticos como secas, inundações e estresse hídrico em muitas partes do mundo e do Brasil.
Avanços na consciência e no conhecimento se impõem: hidratar as  políticas públicas e reduzir a hidroalienação; resgatar o eco de ecodesenvolvimento que se perdeu com a adoção dominante do conceito de desenvolvimento sustentável. Ecologizar tudo, a economia, a cultura, a sociedade, o pensamento, se impõe, na perspectiva da ecologia integral. A escala temporal precisa ser alargada: de anos ou décadas, o horizonte de tempo com que se trabalha com o desenvolvimento,  é necessário  expandir esse horizonte  para centenas ou milhares de anos, articulando a história humana com a história natural ( algo que Yuval Harari faz em seus livros Sapiens e Homo Deus).  É necessário expandir uma visão desenvolvimentista para uma abordagem evolucionista.Finalmente, a pandemia de 2020 torna evidente como nossa espécie é parte integrante da natureza e mostra como um microscópico vírus pode mudar em pouco tempo a vida humana. Dissolve-se a fantasia da separatividade e o equívoco de considerar que nossa espécie se descolou da natureza. Junto com o sofrimento, doenças e mortes que trouxe, a pandemia teve efeitos colaterais positivos: a despoluição do ambiente, do ar, da água; a volta dos animais a áreas de que tinham sido expulsos, a solidariedade de empresas para com os mais vulneráveis, a solidariedade entre países; a aceleração da aplicação de novas tecnologias da comunicação com escritórios em casa e videoconferências.  Quando a FJP me convidou para participar desse encontro, a ideia era que eu me deslocasse de Brasília para BH para participar de um evento presencial num auditório. Em apenas três meses isso mudou radicalmente e realizou-se uma live webinar, com pouco custo econômico e ecológico.
Transformar os efeitos colaterais positivos que foram adotados involuntariamente devido à pandemia  em práticas duradouras  é uma meta que se coloca diante de todos. Novas pandemias virão, eventos climáticos críticos se tornam mais frequentes e intensos e o  futuro demanda muito conhecimento científico e tecnológico, muita capacidade de gestão, um aprimoramento espiritual e novas atitudes de frugalidade, simplicidade voluntaria, austeridade feliz e valorização do conforto essencial.
Com a pandemia, um seminário que seria presencial tornou-se um evento virtual. A FJP se moderniza para responder ao novo tempo.
 

 

Espero que a Fundação João Pinheiro, nos próximos 50 anos, se reinvente, inove com criatividade e inteligência. E que continue a prestar bons serviços a Minas Gerais!

 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A pandemia e a proxêmica, a ciência das distâncias


Mauricio Andrés Ribeiro
Nos anos 60  o antropólogo canadense Edward T. Hall escreveu dois livros  sobre um campo de estudos inovador,  a Proxêmica. Em “The silent language” e “The hidden dimension”, ele estudou o que as distâncias significam na comunicação verbal e não verbal.  Hall distinguia entre as zonas íntimas (que acontecem no abraço, no toque, no sexo ou na luta corporal- até 45cm), as zonas pessoais em que  pessoas ficam próximas umas das outras (até 120cm); as zonas sociais para interação entre conhecidos ( até 3,5m), até as zonas públicas (acima de 3,5m). A percepção das distâncias varia de cultura para cultura. Pessoas  em  algumas culturas se sentem psicologicamente mais desconfortáveis com a proximidade do que em outras.  A  proxêmica trabalha com a invasão dos territórios pela intimidade e pela proximidade corporal.
O distanciamento corporal, segundo a Proxêmica

O adensamento, mostrou E.T Hall em seus livros, provoca comportamentos patológicos, como entre ratos numa caixa. Quando se adensamento é excessivo passam se comportar de modo  autodestrutivo e agem como se estivessem instintivamente tentando reduzir o adensamento agredindo os demais ou matando-os.
Designers, arquitetos e urbanistas que lidam com o projeto de espaços em várias escalas usam os conhecimentos da proxêmica. Médicos, infectologistas, epidemiologistas, psicólogos, profissionais da segurança pública e privada também lidam com as distâncias e proximidades.
A Proxêmica adquire um significado especial num período de pandemia, em que vírus se aproveitam da proximidade física entre as pessoas para se movimentar pelo ar e contaminarem outras pessoas.
Como forma de combater a disseminação do vírus, os epidemiologistas recomendam o distanciamento social. Trata-se de um distanciamento físico e corporal, já que hoje, as modernas tecnologias, a internet e a TV, intensificam e mantêm a proximidade social das pessoas conectadas entre si e com o mundo. As telecomunicações alteraram a noção de distância. pois virtual e eletronicamente estamos próximos do que acontece no noutro lado do mundo, nessa aldeia global em que a educação  à distância, o trabalho à distância, o lazer  por meio de filmes e músicas em streaming e outras atividades são possibilitadas pela tecnologia e pela internet.
Além de um distanciamento corporal, uma pandemia induz a um maior distanciamento de grupos, para viverem em comunidades longe dos centros urbanos adensados. Uma pessoa que esteja numa fazenda numa área rural pode estar distante fisicamente das demais, mas se está conectada ao mundo pela internet pode continuar interagindo socialmente com elas como se estivesse na porta do apartamento vizinho numa grande cidade.
Questões de saúde estão envolvidas com o distanciamento. Numa comunidade favelada urbana muitas doenças do adensamento acontecem – tuberculose, pneumonia e outras. Tais doenças acontecem quando se adensa demais a ocupação de uma área e ela passa a ter problemas de iluminação, falta de higiene ambiental, ventilação precária, afetando o sistema respiratório das pessoas que ali vivem.
Uma distância é colocada entre reis, governantes e o povo, para garantir a segurança das autoridades. Quando se transgride essa regra básica de segurança pela distância, está-se mais sujeito a ser atacado. O cumprimento indiano do Namasté tem origem em questões segurança para evitar os riscos a que uma pessoa se expõe ao dará mão ou abraçar um desconhecido que pode atacá-lo. 
As distâncias cerimoniais exigem simbolicamente mais distanciamento, até mesmo por razões de segurança. Numa aglomeração em que as pessoas estão próximas umas das outras fica difícil garantir sua segurança contra terrorismo, ataques, violências físicas.
A distância é um modo de aumentar a segurança: Mantenha distância, se lê em para-choques de caminhões, recomendando ao motorista de trás que não se aproxime demais, evitando riscos de colisão e acidentes.
O distanciamento por razão de segurança




quinta-feira, 14 de maio de 2020

Simplicidade voluntária e frugalidade


Maurício Andrés Ribeiro
Durante a pandemia do coronavirus em 2020 houve efeitos colaterais positivos do isolamento e das quarentenas adotadas em inúmeros países. Reduziu-se a poluição do ar, reapareceram paisagens que antes ficavam encobertas pela poeira, como os Himalaias, reduziu-se a poluição das águas; tartarugas e peixes voltaram a rios e baias, reduziram-se as emissões de gases de efeito estufa, diminuíram algumas doenças respiratórias devido à redução das poluições urbanas, aliviaram-se os hospitais com a redução de acidentes de trânsito.
Além disso, manifestações de solidariedade tornaram-se mais frequentes. Palestinos e israelenses se uniram para lidar com o coronavirus de modo cooperativo; grandes  empresas e seus acionistas deixaram de buscar egoisticamente apenas seus lucros e  doaram recursos para lidar com a doença e suprir necessidades básicas dos mais afetados pelas quarentenas e isolamentos; comunidades carentes descobriram novas formas de cooperar diante desse risco.
De certo modo o vírus impôs, de fora para dentro, uma mudança de hábitos cotidianos que trouxe ganhos para o ambiente natural e social. Esses resultados  positivos da parcial hibernação provocada pela pandemia evidenciam como o intenso ritmo de atividades  humanas  causa impactos negativos que adoecem a natureza.
Uma vez passada a fase crítica da pandemia, o que fazer para que tais atitudes de fraternidade,  cooperação e união se tornem, voluntaria e conscientemente, o novo normal nas sociedades? O que fazer para que os efeitos colaterais ambientais positivos passem a ser produtos de atitudes conscientes e deixem de ser apenas contingências impostas de fora para dentro pelo coronavirus?
De certo modo a pandemia  valorizou um sentido de unidade humana para além das diferenças  e fez aflorar um sentido de superação do egoísmo e de fortalecimento da fraternidade.
O novo normal depois da pandemia significa viver com menos consumismo, com menos viajismo, com menos carnivorismo, com menos agressão aos animais silvestres, com menos pressões sobre a capacidade de suporte da natureza. Em  suma, reduzir as normoses existentes no período anterior à pandemia. Ao mesmo tempo, viver com maior sentido de unidade humana, para além das  diferenças e com mais fraternidade. Isso se traduz nas atitudes de se adotar a austeridade feliz, a simplicidade voluntária, o conforto essencial e a frugalidade.
Austeridade feliz é a proposta  de se adotar voluntariamente um modo de vida austero com ética ecológica e que proporcione bem estar.  A renúncia ao luxo e ao supérfluo, a contenção e autolimitação do consumo reduzem os impactos ambientais da ação humana. A austeridade feliz vai na contramão dos apelos valorizados pela propaganda como relevantes para a felicidade. Propõe reduzir o consumo material para poupar os recursos da natureza. A austeridade feliz produz um modo de vida que torna mais leve a pegada ecológica. É uma atitude de vida capaz de harmonizar o ser humano com o ambiente, e um modo de vida que reflete uma visão compassiva e solidária.
Simplicidade voluntária é uma opção deliberada de quem reduz suas demandas para poupar os recursos da natureza. Para que seja adotada, é preciso dissolver os desejos por aquisição  de mais bens, mais viagens, mais eletrodomésticos, mais conforto material, que têm como consequências mais poluição e mais gastos de recursos naturais. A simplicidade voluntária é diferente da privação forçada e involuntária.
Já o conforto essencial é o nível de conforto básico que traz bem estar e que evita o supérfluo. Em alguns casos, para alcançar o conforto essencial  é necessário virar a própria mesa e sair do comodismo e do conformismo.  
Frugalidade é sobriedade, temperança, parcimônia, simplicidade de costumes e de modo de vida. Ela supera a idolatria e o apego irracional ao crescimento exponencial contínuo num planeta finito. Propõe que se alcance uma economia estável, que respeite os limites da biosfera. A frugalidade pode reduzir a emissão de CO2 na atmosfera e a emissão de todos os tipos de resíduos na biosfera.
Pique nique no parque. Lodi Estate, Delhi, 2013.
Há exemplos históricos de frugalidade em antigas civilizações.  Gandhi disse que “A civilização, no verdadeiro sentido da palavra, não consiste em multiplicar nossas necessidades, mas em reduzi-las voluntariamente, deliberadamente.”  Milenarmente, a Índia adotou estilo de vida frugal e adotou uma economia que respeitou os limites da biosfera. Sacralizou bichos e plantas. Praticou o vegetarianismo. Organizou-se espacialmente numa rede de pequenas aldeias semi autossuficientes e em ashrams ou comunidades espirituais. Exercitou posturas corporais que reduzem a demanda por objetos.

 Entretanto, na Índia atual (como também no mundo todo) os apelos ao consumo se exacerbaram e com eles a pressão sobre a natureza e o clima. A frugalidade adotada por milênios é colocada em risco por estilos de vida predatórios e  crescentes aspirações de bem  estar  material por parte daqueles que sofrem privações. Ainda não se sabe se no período pós-pandemia essa tendência prevalecerá ou se cederá lugar para um mundo mais frugal no qual a austeridade possa ser feliz, a simplicidade seja adotada voluntariamente e os desperdícios cedam lugar a uma atitude de busca do conforto essencial.

 

 

 


 

Ecologizar o cotidiano

Maurício Andrés Ribeiro

Para quem se pauta pela consciência e ética ecológicas, cada papel que desempenha traz oportunidades para ecologizar a vida.
Somos seres humanos multidimensionais. A vida cotidiana é pródiga em oportunidades de ação ecologicamente consciente. Cada um pode, a cada momento, dar sua contribuição para reduzir a pressão sobre a natureza: na vida pessoal, por meio dos hábitos alimentares, da educação dos filhos, dos hábitos de consumo, das práticas frugais, nas  aspirações e desejos, internalizando a consciência ecológica e a ética ecológica em seus pensamentos, emoções e ações, bem como em sua relação com a sociedade e a natureza vivendo conforme os princípios da simplicidade voluntária, da austeridade feliz, do conforto essencial, da frugalidade. Isso implica em mudar desejos, paixões, necessidades, vontades; em suma, transformar as consciências e as energias que movem a ação humana.
O ser humano desempenha vários papeis nos quais pode se ecologizar.
O cidadão pode exercer direitos e ser corresponsável pela qualidade do meio ambiente; evitar sujá-lo; associar-se a movimentos coletivos pelo ambiente e depurar o  próprio ambiente interior do corpo, da mente e das emoções. Cada um de nós é um ser em evolução que na vida cotidiana respira, se alimenta, exercita o corpo.
 
A redução do consumismo e do acúmulo de bens materiais reduz as pressões sobre a natureza. O  consumidor responsável reduz o volume e peso dos produtos usados;  evita desperdícios de água, de energia, de alimentos. Na alimentação, reduz as proteínas animais que são mais pressionadoras do ambiente do que os produtos de origem vegetal, do ponto de vista da ecologia energética.  Adota valores pós-materialistas, que desassociem a noção de qualidade de vida da posse material. Pode boicotar os produtos que tenham causado impactos ambientais negativos durante sua produção e preferir aqueles que tenham o selo verde. Pode selecionar os produtos que compra a partir de critérios ecológicos; adotar estilo de vida de baixo impacto e baixa demanda de carbono. Pode tornar mais leve o peso da pegada ecológica sobre o Planeta. Nessa perspectiva, adotada voluntaria e conscientemente, ter à disposição menor quantidade de bens materiais não significa desfrutar de pior qualidade de vida. O voto de pobreza é uma opção ecológica radical, que reduz os riscos da ganância, da voracidade e da ambição pelo acúmulo de patrimônio e de riqueza material.
O trabalhador pode adotar processos de produção limpos: gastar o mínimo possível de energia, de preferência renovável; reduzir o uso do papel, para salvar árvores e florestas;  poupar água; reduzir a geração de resíduos. Na mobilidade para o trabalho,  praticar o transporte solidário, compartilhando o mesmo veículo com outras pessoas ou usar a bicicleta ou o transporte coletivo ajudam a economizar energia e, portanto, a reduzir a poluição do ar, com ganhos para a saúde. O “home office”, trabalhar em casa, elimina radicalmente esse tipo de gasto no deslocamento. A pandemia de 2020 induziu a esse tipo de trabalho.
O produtor e empresário,  o acionista e o investidor  podem transcender as preocupações com o lucro financeiro,  praticar a responsabilidade socioambiental e  distribuir de forma justa os resultados do trabalho. Os fundos de investimentos éticos – que aplicam recursos em empreendimentos não destrutivos – são uma opção dos investidores conscientes e responsáveis.
O correntista pode optar por bancos que não façam marketing enganoso e maquiagem ecológica. Os bancos podem assumir a responsabilidade ecológica pelo destino que dão a seus empréstimos e considerar os impactos por eles causados, bem como redistribuir seus lucros em ações de solidariedade social e ambiental.
O contribuinte pode influir no destino dado aos tributos recolhidos do trabalho e da riqueza que ajuda a gerar,  por meio de escolhas nos orçamentos participativos, de doações e deduções fiscais.
O eleitor pode votar em políticos que tenham compromisso ecológico e eleger candidatos que tomem decisões, nas políticas públicas e na administração, conscientes dos desafios climáticos e ecológicos.
 O governante precisa ter visão de futuro e do interesse público, para além de seus objetivos eleitorais imediatos. Precisa ser proativo e propor normas e leis que estimulem o avanço tecnológico e induzam a adoção das tecnologias limpas.
O jovem pode informar-se, estar consciente, não se deixar manipular por propaganda ou por apelos de consumo fácil, perceber as injustiças e lutar por ideais para além dos interesses materiais básicos além de adotar estilo de vida que seja amigável com a natureza e que ajude a proteger seu próprio futuro diante dos riscos e das incertezas do mundo contemporâneo.
Mulheres, agricultores, autoridades locais, bem como todos e cada um dos grupos da sociedade podem ser sujeitos ativos de mudanças em seus campos de ação.
Essas são algumas das formas de se exercer a ação ecológica no cotidiano. Ao final de cada dia podemos nos perguntar: quais foram os ecopensamentos, os ecosentimentos e as ecoações, pelas quais fiz a minha parte para me aprimorar, para melhorar minha qualidade de vida e as das demais pessoas e da natureza?
Podemos aplicar aos relacionamentos interpessoais os princípios da tolerância, ética, honestidade, não violência e solidariedade.
Riquezas intangíveis e imateriais são tão importantes quanto a prosperidade física e material, pois cada ser humano tem seu corpo físico, material, e sua mente, suas emoções, sua alma e seu espírito.
No dia a dia cada ação tem efeitos sobre a natureza, da qual somos partes integrantes.  O somatório das atitudes de bilhões de seres humanos ajuda a construir uma nova era na evolução do planeta. Somos seres em transição e uma espécie co-gestora do rumo da evolução.
A somatória de pequenas ações individuais (como as atitudes do beija-flor num incêndio) é necessária para melhorar o todo, mas não é suficiente para fazê-lo. No âmbito coletivo, ação relevante pode ser feita por meio da participação em redes sociais, de associações locais, de vizinhança, regionais ou globais, que lutem por melhorias e pela saúde do ambiente;  ações para levar as empresas e os governos a despertar para a gravidade dos problemas ambientais e climáticos. As práticas da democracia direta e da participação encontram novas opções com o uso da internet, que permite pressionar os tomadores de decisão com mensagens por causas ecológicas. A partir dos teclados de computadores, compartilham-se ideias, também se constrói cultura e faz-se ação política sem sair de casa.
A magnitude dos problemas atuais nesse estágio terminal da era cenozoica exige que tomemos consciência de que cada um dos atos cotidianos, individuais ou coletivos tem consequências diretas e imediatas e repercutem na direção que tomará a evolução da vida na Terra.  Fortalecer a unidade humana para além das diferenças, bem como exercitar a solidariedade para além da competição individualista podem facilitar a transição da atual sociedade com suas várias normoses para uma sociedade mais saudável na relação com a natureza que a sustenta.
 
Ecologizar a vida, trazer as práticas de ecologia integral para o cotidiano de cada um é um modo  harmônico de inserir o ser humano no ambiente em que vive e que o sustenta. Aprender como fazer isso, aproveitando o conhecimento acumulado por antigas sociedades e civilizações e agregando-lhe os conhecimentos contemporâneos, pode ser vital para que o ser humano, um ser em transição, se torne um cogestor consciente da evolução neste planeta.
 
 
 
 

sábado, 9 de maio de 2020

Toda ação produz uma reação. A lei do Karma.

Maurício Andrés Ribeiro

Toda ação é uma causa que traz consequências. Boas ações produzem circunstâncias positivas para quem as pratica, enquanto más ações produzem sofrimento para quem as realiza.
No mundo contemporâneo, com as comunicações instantâneas, muitas reações são imediatas no tempo. Uma ação  praticada agora repercute e provoca reações num prazo muito curto. Antigamente as reações demoravam mais e podiam acontecer até mesmo numa outra encarnação, como creem os hindus, os espíritas e outros grupos.
Cada indivíduo tem uma conta ou cartão de crédito cármico, um “credicarma”, com seus créditos e débitos, que se acumulam e que são pagos ou resgatados, cedo ou tarde, imediatamente, no médio ou no longo prazo.
Cretit Karma. San Francisco
No hinduísmo, Errou, pagou!  Nesta vida ou em outras vidas. Não há indulgências, não se compra a absolvição. Karma é uma palavra do sânscrito que significa ação. Karma é a lei da causa e efeito aplicada à vida. Karma yoga é o yoga da ação. Há quem tenha um karma pesado a pagar, já outros tem um destino mais aliviado.
As ações podem ser motivadas  por razões do ego – a ego ação motivada pelo egoísmo, a ganância, a busca de poder; por uma ética ecológica, a eco-ação voltada para cuidar do ambiente que sustenta a vida; ou pela prestação de um serviço desinteressado, a seva, palavra do sânscrito que significa serviço abnegado e que  resulta de uma liberdade da alma.





Motivações para a ação.
O Bhagavad Gita, texto sagrado hindu,  recomenda que as ações sejam realizadas desinteressadamente. Sri Ramakrishna esclarece: “Quando a Gita pede para realizarmos nossas ações sem qualquer pensamento sobre o resultado, não espera que eliminemos todos os motivos como tais, mas que eliminemos todos os motivos mundanos e que tenhamos o desenvolvimento de nossa natureza espiritual como o único motivo para nossas ações”.[1]
Seva ação é aquela que  se pratica no sentido de servir, pela qual o indivíduo liquida o débito do carma passado e obtém um crédito para se libertar.



[1] RAMAKRISHNA. Yoga: its various aspects: Gita on Karma yoga, p.30-31.
 

Prevenção de futuras pandemias e aldeias rurais


Maurício Andrés Ribeiro
 
Um efeito colateral da pandemia é o regresso às aldeias, liberando espaço nas cidades. Com a descentralização e a necessidade do isolamento físico, ganham relevo as ecovilas, as comunidades rurbanas, as vilas rurais.
Depois de décadas de urbanização acelerada no mundo inteiro, e mais ainda no Brasil, o pêndulo caórdico da evolução oscila para o outro lado, o da desurbanização e da descentralização. Esse movimento pendular é facilitado pelas novas tecnologias da informação e da comunicação e impulsionado pelos menores custos para se viver em pequenas cidades e no interior. Nas grandes cidades as áreas mais bem equipadas com infraestrutura estão gentrificadas e expulsam quem não tem condições de pagar os altos preços para viver ali.
Essa tendência à desurbanização é um atrativo especial para idosos empobrecidos num mundo com previdência social em crise e que maltrata os velhos urbanos.
Há outros benefícios dessa tendência, como a maior proximidade com o ambiente natural e maior facilidade para o isolamento físico, o que não significa maior o isolamento social, pois no século XXI as conexões sociais se estabelecem via internet e redes.  
Há várias décadas o Vila Rural foi um programa pioneiro  do Paraná para redistribuir a população e aliviar pressões migratórias sobre as cidades. Assentamentos de cinquenta a cem famílias em vilas cercadas por terrenos para cultivo são localizados nas proximidades dos distritos e povoados. O uso da escola, do posto de saúde e de equipamentos coletivos é compartilhado com a população das vilas rurais. Evitando-se a localização das vilas rurais próximas de grandes cidades, elas são mais viáveis porque a terra é barata; funcionam melhor porque não se tornam cidades-satélites ou dormitório de metrópoles. Os trabalhadores rurais têm condições de exercer sua profissão de plantar. Como não estão dispersos em fazendas isoladas, têm acesso aos serviços públicos. Cria-se cultura urbana num assentamento rural, e a proximidade física entre as casas dá proteção, segurança e economia de infraestrutura. Quando tiverem sido implantadas muitas vilas rurais, haverá um amplo contingente de população fixado no campo. A distribuição espacial da população terá reduzido a dispersão rural e o congestionamento urbano. A organização do espaço será energeticamente mais eficiente, já que cada vila rural poderá abastecer-se, no entorno, com água, materiais de construção, fontes de energia e alimentos locais, o que reduz a demanda de transporte de longas distâncias. A longo prazo, pode-se  constituir uma rede de assentamentos conectados entre si, num padrão de organização espacial equilibrado e econômico.
A atual e as próximas pandemias fortalecem essa tendência à desurbanização em direção a um padrão territorial organizado numa rede de milhares de pequenas vilas e cidades de modo descentralizado. . Ao implantar o programa das vilas rurais, o Paraná resgatou um padrão de assentamento que se mostrou energeticamente eficiente e sobreviveu por milênios.
Esse padrão é similar àquele que se estruturou durante milênios na Ásia. Na Índia, 60% dos seus mais de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes vivem numa das 600 mil aldeias que pontilham o território do país e que são semiautônomas no abastecimento de água, energia, alimentos, materiais. Na hipótese de um colapso no abastecimento de combustíveis fósseis, estão menos vulneráveis do que as metrópoles energívoras. Na hipótese de uma pandemia como a que assola o mundo em 2020, essas aldeias são menos vulneráveis à propagação do vírus, o que talvez ajude a explicar os  baixos números de casos e de mortes na pandemia de 2020 na Índia, se comparados com os números que acontecem em outros países aparentemente melhor equipados e estruturados para lidar com a pandemia.
Kenchankuppe é uma das 600 mil aldeias indianas em que vivem 800 milhões de pessoas.
 
 
Crianças indianas comemoram a doação de livros para sua escola.
Aula ao ar livre numa escola na aldeia de Kenchankuppe no sul da Índia.
 
Na França e na Alemanha, as pequenas cidades são as que mais se valorizam nessa pandemia, ao passo que as grandes cidades, saturadas, poluídas e com altos custos de infraestrutura, vêm perdendo população. Ao redor de cidades como Milão configuram-se redes de pequenas cidades com alta qualidade ambiental e com menos custo energético.
Essa desurbanização é um processo de ajuste de longo prazo em direção a uma sociedade energeticamente mais eficiente e que antevê o declínio da era dos combustíveis fósseis. De fato, a cidade que hoje se  constrói ainda é rígida o suficiente para que, daqui há cinquenta anos, suas construções estejam de pé. Naquele momento, a disponibilidade de petróleo será menor, seu preço será mais alto do que é hoje, a consciência sobre os impactos ambientais e climáticos de seu uso será maior e também será maior a consciência sobre os riscos a que está exposta a saúde de seus cidadãos, especialmente os mais vulneráveis.
Vilas rurais, ecovilas ou comunidades rurbanas  podem vir a se constituir no padrão de assentamentos mais adequado  a uma civilização pós-petróleo e que tome medidas preventivas em relação às próximas e  futuras pandemias.
 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Visão histórica sobre o IAB-MG


Maurício Andrés Ribeiro (*)

Outubro de 1943. A segunda guerra mundial está em seu auge e no Brasil os pracinhas se mobilizam para participar dela. Em Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, o prefeito municipal, contratou com Oscar Niemeyer o projeto do conjunto arquitetônico da Pampulha, que está em construção. Alberto da Veiga Guignard dirige e dá aulas na escola do parque municipal.

Nesse contexto um grupo de arquitetos resolve fundar o Departamento de Minas Gerais do Instituto de Arquitetos do Brasil, que se filia ao IAB Nacional, criado em 1920 no Rio de Janeiro. Em novembro procedeu-se à solenidade de posse da 1ª Diretoria do IAB-MG “Tendo o arquiteto Luiz Pinto Coelho, 1º. presidente da entidade, em seu nome e em nome dos seus companheiros de diretoria, afirmado a sua resolução no sentido de trabalhar com denodo e convicção no erguimento da classe em Minas Gerais.”.

Uma ata curiosa registra a posse da segunda diretoria do IAB-MG: “Aos 3 dias do mês de julho do ano de 1945 realizou-se no Salão do Instituto de Belas Artes, a posse da diretoria eleita do Departamento de Minas Gerais do IAB. A sessão revestiu-se de brilhantismo, contando com a presença de representantes das altas autoridades, da Sociedade Mineira de Engenheiros, da Associação Comercial, do Partido Comunista e de todos os sócios do Instituto de Arquitetos, professores, alunos do Instituto de Belas Artes e grande número de pessoas.”.

Em 1951, o arquiteto Sylvio de Vasconcellos propôs reformas nos Estatutos da entidade. Houve discussões acaloradas e quando aos poucos vão serenando os ânimos pode-se ouvir o presidente fazendo apelos no sentido de se evitarem discursos paralelos. O presidente é chamado de ditatorial, discricionário, denunciam-se “golpes” para a derrubada de emendas; Sylvio de Vasconcellos abandona algumas vezes a direção dos trabalhos, retirando-se para os fundos da sala e só volta a reassumi-la depois de grande insistência dos colegas. Ao final de dez páginas manuscritas de ata, encerrou-se a aprovação do novo estatuto do Departamento.

Em 1953, o III Congresso Brasileiro de Arquitetos “denunciaria a constante ameaça de outros profissionais trabalhando no campo da arquitetura, que realmente deveria ser exclusivo dos arquitetos.” O governador do Estado, Juscelino Kubitschek abriu os trabalhos e o prefeito Américo René Gianetti dissertou sobre os progressos dos arquitetos mineiros. Em 1959 Suzy Pimenta de Mello foi a primeira presença feminina na diretoria do IAB.

Em 1963 o IAB-MG organizou ida de arquitetos mineiros ao congresso da UIA em Havana, Cuba. De 1964 a 66 o IAB-MG passou por hibernação quase total, dadas as condições desfavoráveis para o trabalho de entidades da sociedade civil organizada.

Em 1966, 27 arquitetos inscreveram-se na 1ª premiação anual de arquitetura do IAB-MG e o crítico de arte Frederico Morais foi um dos integrantes do júri. .

Em 1968 o VII Congresso Brasileiro de Arquitetos realizou-se em Belo horizonte. A escola de Arquitetura o chamava de “Congresso de Comunistas”.

Em 1974, na gestão de István Farkasvolgyi, a prefeitura de Belo horizonte doou um terreno onde seria erigida a sede própria. Naquela década a crise alcançava o IAB até mesmo por falta de chapas a concorrerem às eleições.

Em 1977 o IAB elaborou manifesto ao governador do estado para neutralizar os impactos da mineração na Serra do Curral, entrou na discussão sobre as enchentes no Arrudas e participou da campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita. Envolveu-se na luta pela conservação de grutas e abrigos com pinturas rupestres na área do Aeroporto de Confins; na denuncia sobre a remoção de favelados em áreas atingidas por inundações; na luta pela preservação da praça da Estação em Belo Horizonte. Eram temas frequentes as deficiências no mercado de trabalho, exercício da profissão, legislação profissional; a renovação de áreas urbanas, legislação de uso do solo, patrimônio cultural e arquitetônico, habitação, mobilidade e transportes. Havia articulação e parcerias com entidades ambientalistas, de designers, engenheiros, economistas. Nos anos 70 e 80 o IAB colaborou com revistas como Arquitetura e Engenharia, o encarte Vão Livre, no Informador das Construções, a revista Pampulha.

Nesses 70 anos, o IAB conquistou um espaço de expressão na imprensa e junto a entidades representativas do governo. A profissão de arquiteto sofreu grandes transformações e hoje há muitos escritórios, muitas escolas de arquitetura, muitos arquitetos assalariados no setor público.

Foi realizado um concurso para construir a sede do IAB no terreno doado pela prefeitura, na rua Mestre Lucas,70. Mas o projeto não foi construído. Uma sede provisória começou a ser construída e durante muitos anos o IAB funcionou num barracão de obras em frente e ao lado de uma frondosa árvore. A sede foi inaugurada no início dos  anos 80, com a colaboração de toda a diretoria da época e de arquitetos amigos que mobilizaram seus conhecidos e empresas para doarem móveis, serviços e materiais de construção. Naquela ocasião o IAB arrendava a sede em construção  para arrecadar fundos e concluir as obras. Cada recurso era usado para concluir a sede: o piso, o portão metálico, o mobiliário. Para sustentar os gastos correntes, o IAB convidou ONGS como a AMDA- Associação Mineira de Defesa do Ambiente; a associação de desenhistas industriais, o Sindicato de Arquitetos para se sediarem ali e compartilharem parte das despesas de manutenção do local. Essa parceria perdurou por vários anos, além de ter propiciado uma aproximação nos projetos comuns dessas entidades, de interesse da sociedade.

Em 1985 Belo Horizonte sediou no Minas Centro um memorável Congresso Brasileiro de Arquitetos organizado pelo IAB-MG.

No século XXI, com a crise climática, projetar o ambiente construído de modo ecologicamente responsável tornou-se mais um desafio. O projeto e a construção do habitat humano e toda a cadeia produtiva da construção civil demandam muitos recursos naturais e provocam impactos ambientais e emissão de gases de efeito estufa. O IPCC – Painel intergovernamental de mudanças climáticas identificou no campo do ambiente construído grandes possibilidades para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Um arquiteto ecologicamente e hidricamente consciente e responsável precisa projetar edificações que dispensem o uso intensivo de ar condicionado, que tenham baixo consumo de energia, adaptados do ambiente natural, num design que economize, que reaproveite a água e demais recursos naturais e que reduza a emissão de gases de efeito estufa. Nesse  século XXI, com suas catástrofes, pandemias, eventos críticos cada vez mais frequentes, o arquiteto precisa projetar tendo consciência sobre os impactos sociais e ambientais do seu projeto.

 (*) Arquiteto, presidente do IAB MG 81-82. Autor de Ecologizar, Tesouros da Índia; Ecologizando a cidade e o planeta, Meio Ambiente & Evolução Humana e coautor de A água fala. http://ecologizar.blogspot.com ecologizar@gmail.com  Este texto se baseia em Uma história para o IAB-MG, 1983.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Salvar o planeta!?!



Maurício Andrés Ribeiro 
 “Devemos ter sempre em mente que é arrogância achar que sabemos como salvar a Terra: nosso planeta cuida de si próprio. Tudo o que podemos fazer é tentar nos salvar.” James Lovelock

Organizações ambientalistas e órgãos de imprensa, empresas, governos, campanhas de mídia, publicações e autores  têm usado a expressão “salvar o planeta”. Uma busca rápida na internet mostra vários exemplos desse uso.


No sentido religioso, salvar é livrar das penas do Inferno e obter a salvação eterna. Salvar tem o sentido de livrar de ruína, pôr-se a salvo de algum perigo ou risco iminente.
Numa escala restrita e limitada, um médico, uma enfermeira, um socorrista, um bombeiro ou a defesa civil podem salvar vidas em pandemias, desastres e catástrofes, como terremotos e tsunamis, enchentes e deslizamentos de encostas. 
Numa escala mais ampla, pode ser que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia nos torne capazes de desviar corpos celestes em rota de colisão com a terra, evitando mega desastres e, assim, salvar a terra.
Salvar também tem o sentido de preservar o status quo, de manter; preservar, conservar intato; salvar um determinado modo de vida que está em risco. 
Diz James Lovelock, o criador da teoria de Gaia, referindo-se às mudanças climáticas com as quais nos defrontamos que “a Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é “salvar o planeta como o conhecemos” e isso agora é impossível.”
A vida humana está presente numa fração mínima da história da Terra. O homo sapiens surgiu há apenas 150 mil anos. Há 50.000 anos, o sucedeu o homo sapiens sapiens, uma espécie que sabe que sabe. A vida humana entrou em cena já no final da era cenozóica, a era dos mamíferos, que se iniciou depois da última grande extinção e dura até nossos dias. A era mesozóica, quando imperaram os dinossauros, durou entre 245 e cerca de 65 milhões de anos atrás. Terminou devido a uma catástrofe que pode ter sido causada pelo choque de um asteróide com a Terra.  Nosso planeta tem mais de quatro bilhões de anos, e nele a vida se desenvolveu há milhões de anos.
O uso da expressão em português pode ser o resultado de tradução mal feita do inglês, língua na qual o verbo to save tem o sentido de guardar (nos computadores, salvar um texto ou arquivo é guardá-lo). Em inglês, to save pode significar poupar, economizar (savings - poupança). Faz sentido poupar os recursos naturais do planeta, evitar seu mau uso ou desperdício. Mas como em português o verbo salvar não é usado com tal significado, a expressão soa inapropriada.
A expressão salvar o planeta envolve, portanto ou uma má tradução, ou uma dose de presunção.  Em qualquer desses casos, precisa ser evitada.
A comunicação e a expressão corretas de pensamentos e ideias ajudam a promover a compreensão e a construção da consciência ecológica. O cuidado com o significado das palavras e com seu uso apropriado ajuda a promover a necessária ecoalfabetização.