terça-feira, 4 de abril de 2017

A ARTE DE SAIR DE CENA






Maurício Andrés Ribeiro (*)

“É tarde demais para o desenvolvimento sustentável; precisamos é de uma retirada sustentável.”
James Lovelock, em A vingança de Gaia

Assisti ao tema da `Arte de sair de cena’  em uma peça de teatro no Centro Brahma Kumaris de Bangalore. O palco era ocupado por muitos personagens, príncipes, generais, administradores, servos, sacerdotes. Entretanto, o mote central da peça não era o papel desempenhado no palco. O tema era a arte de sair de cena, uma alegoria da vida e da morte: desde o nascimento, inicia-se uma contagem regressiva para o momento de sairmos de cena.
No teatro, alguns personagens estão em primeiro plano, como atores principais e não  deixam a ribalta. Outros ficam em segundo plano, coadjuvantes da cena principal, ou ocupam o fundo do palco, onde desempenham papel sem visibilidade. Nas novelas da TV, o autor mata o personagem quando as pesquisas de opinião assim o indicam ou ele fica até o fim e tudo termina num final feliz ou trágico.
A arte de sair de cena é aplicável às situações de trabalho e à vida pessoal.  Na profissão, a saída de cena pode se dar por meio de demissão por justa causa ou imotivada, ou o trabalhador pede as contas e sai. Na vida pessoal, num casamento, há o alívio da separação  amigável ou os problemas do litígio na justiça.
Na vida pública, há políticos que insistem em ficar em cena mesmo quando não estão agradando São tirados de cena pela pressão da opinião pública ou pela derrota eleitoral imposta pelo eleitor insatisfeito. Alguns são postos para fora a contragosto, depostos de suas funções, saem do palco de forma melancólica, desmoralizados ou desgastados. Alguns saem discretamente; outros se indignam e  disparam metralhadoras giratórias; há os que ao sair de cena chamam a atenção para si, dramaticamente. Outros se retiram de maneira digna e conquistam admiração. Há os que morrem jovens, fazem falta e deixam saudades. Os que sofrem morte súbita causam comoção. Algumas são saídas honrosas e dignas, outras são saídas à francesa, de fininho.
Sair de cena se aplica aos jogos e às guerras. Num jogo, pode-se sair expulso ou contundido. Na guerra do Vietnam, o presidente americano Richard Nixon recebeu o conselho de um general: “Declarar vitória e bater em retirada”.
Sair de cena é um exercício que ensina a lidar com a vaidade, com o orgulho, com a revolta, com a indignação e transformá-los em humildade e aceitação. Ensina a aceitar a mudança, a transformação, a perda e a renovação. Saber o momento de retirar-se e encontrar a melhor forma de fazê-lo exige sensibilidade, percepção e senso de oportunidade. A coragem para retirar-se e para render-se à vontade maior requer, ainda, treinamento espiritual.
A arte de sair de cena aplica-se, também, aos processos da evolução. Em seu livro “A vingança de Gaia” James Lovelock questiona a viabilidade do desenvolvimento sustentável e propõe uma retirada sustentável. A proposta por Lovelock diante das forças da natureza é a de uma retirada honrosa, evitando a derrota trágica. Ele é o criador da Teoria de Gaia, pela qual a terra é um organismo vivo  com um sistema nervoso central e no qual a espécie humana ocupa o lugar da massa cinzenta  do cérebro de Gaia. Substituir a proposta de desenvolvimento pela de retirada implica em mudar a direção do pensamento e das ações e em abandonar alguns supostos antropocêntricos. A proposta lembra o episódio bíblico da expulsão do paraíso. É como se, antes de ser expulsos, Adão tomasse a iniciativa de se retirar, voluntariamente.
Essa retirada pode ser econômica ou demográfica. Entre as formas possíveis de retirada econômica existem ações brandas, tais como a redução dos impactos ambientais das atividades humanas por meio da melhoria da ecoeficiência e a redução de emissões de poluentes, entre eles os gases de efeito estufa; a desativação progressiva de atividades ecologicamente destrutivas; a imposição de limites e restrições à realização de atividades poluidoras; finalmente o banimento ou eliminação de atividades não essenciais, supérfluas ou desnecessárias e que produzem impactos climáticos e ambientais.
Assim por exemplo,  a abolição das guerras como forma de resolução de conflitos poderia promover uma substancial redução da emissão de gases do efeito estufa, gerados no processo de produção das guerras, desde a extração de minerais até sua transformação industrial, o transporte de equipamentos militares, seu uso e atividades de reconstrução posteriores à destruição material, provocada pelos conflitos armados. Mas pergunta-se: As sociedades estão dispostas a não guerrear?
Outra atividade a reduzir seria o turismo consumista e o viajismo. Vôos internacionais e nacionais, transporte terrestre, serviços e comércio sofrem a pressão das atividades turísticas e provocam fortes impactos ambientais. Será necessário reduzir as viagens aéreas não essenciais que emitem gases? Que resistências serão encontradas? Os viajantes estão dispostos voluntariamente a abdicar de viajar? Será necessário sobretaxar os deslocamentos ou limitá-los de outras formas?
Pelo lado do consumo, uma forma de retirar-se é reduzir a pressão sobre a natureza, por meio de educação, da cultura ecologizada e da imposição de ônus econômicos e taxação sobre o consumo. Além disso, são formas de reduzir os impactos das atividades humanas:
·         Redesenhar as edificações e cidades dentro de normas e padrões que ajudem a conservação de energia.
·         Adotar vida contemplativa e prezar a meditação e o uso do tempo de formas criativas que não pressionem o ambiente e o clima.
·         Reduzir a pegada ecológica, a pegada hídrica e a pegada energética de indivíduos, cidades, países. Criar imposto progressivo sobre a pegada ecológica.
·         Conter o crescimento econômico insustentável para que a evolução humana se faça dentro de limites dos recursos do planeta.
  • Reduzir a ação sobre o meio físico e limitar a produção de bens materiais que demandam o uso de recursos naturais.
  • Maximizar as atividades menos impactantes, tirar objetos de cena, dissolver desejos e promover menor consumo material.
As retirada demográfica pode ser branda ou drástica. Há um movimento biocêntrico, disseminado pela Internet, pela auto-extinção voluntária da espécie humana, por meio da proposta de filho zero, que em poucas gerações extinguiria ou reduziria a quantidade de indivíduos da espécie.  Essa proposta cortaria pela raiz os efeitos das atividades humanas, mas é utópica, devido às dificuldades para promover a adesão voluntária a ela.
Comenta Lovelock: ”As mulheres nas sociedades prósperas, se dotadas de uma chance justa de desenvolver seu potencial, optam voluntariamente por ser menos fecundas.” O controle do crescimento demográfico é uma maneira de fazer o tamanho da população humana caber nos limites da capacidade de suporte do planeta. Um exemplo é o planejamento familiar com redução da natalidade e do incentivo ao filho único, tal como realizado na China. A retirada demográfica pode-se dar por meio de formas extremas e dolorosas de redução da população, tais como as guerras e o genocídio, bem como a exposição a pragas e doenças. Aqui se colocam questões éticas, como lembra Pierre Weil : “Entre aceitar a morte como processo vital e provocá-la se encontra a diferença fundamental entre um valor construtivo e um destrutivo.”[1]
Lovelock estima que chegaremos ao final do século XXI reduzidos a um bilhão de pessoas, devido aos efeitos das mudanças climáticas em curso.

(*) Autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia para a civilização sustentável. www.ecologizar.com.br    ecologizar@gmail.com









[1] Weil, Pierre, in Valores éticos em ciência e tecnologia, palestra no simpósio sobre “Ética e tecnologia, onde podemos ir?”, Unipaz, 1989.

Um comentário:

Eleonora Santa Rosa disse...

Excelente artigo, Maurício! Questões cruciais, complexas, que merecem ampla divulgação, reflexão e tomada de posição! Muito sério e muito bom! Parabéns!