Todos nós
aprendemos que a água evapora dos rios, lagos e oceanos, forma nuvens,
precipita em chuva, corre pela superfície e volta aos oceanos. Um ciclo lindo,
perfeito, quase poético.
Mas há algo
faltando nesse desenho. Algo essencial. Algo que nos atravessa literalmente.
As águas de
dentro de nossos corpos – a água que corre em nossas veias, que umedece nossos
olhos, que jorra em suor e lágrimas – essas águas são quase sempre esquecidas
quando desenhamos o ciclo da água. Como se o corpo humano fosse uma espécie de
turista nesse planeta, apenas observando o ciclo de fora. Mas não é verdade.
Nós somos o ciclo.
Pense
comigo: cada vez que você bebe um copo d’água, aquela molécula pode ter sido a
mesma que um dinossauro bebeu, que uma nuvem carregou, que um agricultor usou
para irrigar. E agora ela está dentro de você. Circula pelas suas células.
Aquece-se nos seus 37 graus. E um dia, em forma de vapor, ou de lágrima, ou de
urina, ela vai deixar o seu corpo e continuar sua jornada.
Esse é o
ponto central da nossa conversa hoje: a água nos une. E nos une de um jeito
muito mais profundo do que gostamos de admitir.
Vejamos.
Cristãos, muçulmanos, judeus, hinduístas, budistas, ateístas – todos bebem.
Todos urinam. Todos suam. Todos choram. Todos sangram. Da criança recém-nascida
ao idoso no leito de hospital, da pessoa mais rica do mundo à mais pobre –
todos compartilham a mesma composição hídrica. Somos cerca de 60% água. E essa
água não sabe sua religião, seu partido político, sua nacionalidade. Ela
simplesmente flui.
É
impressionante como esquecemos isso. Vivemos construindo muros, rótulos,
diferenças. “Extrema esquerda”, “extrema direita”, “centro”. Muçulmano, judeu,
hindu. Mas, debaixo da pele, debaixo de todas as nossas crenças e ideologias,
há um oceano silencioso que pulsa igual em cada um de nós.
E não para
por aí.
Quando
vivos, a água nos conecta ao mundo. Quando mortos, ela nos devolve ao m
undo. Se
cremados, nosso corpo vira vapor – sobe, encontra as nuvens, vira chuva. Se
enterrados, nossos fluidos se infiltram no solo, tornam-se águas subterrâneas,
alimentam nascentes, viram rios. Em vida ou em morte, somos parte integrante
desse ciclo eterno. Não há escapatória. Não há exceção.
Isso é o
máximo denominador comum entre os seres humanos. Não é uma crença, não é uma
bandeira, não é uma ideologia. É a água.
E aqui quero
fazer uma ponte ainda mais bonita. Os cientistas nos contam que a água da Terra
veio de cometas e asteroides. Aquela molécula de H₂O que você está bebendo
agora pode ter viajado bilhões de quilômetros no espaço, grudada num pedaço de
gelo cósmico, até cair aqui. Isso significa que você e eu não somos apenas água
– somos água de estrelas. Somos poeira de supernova, somos cometas que um dia
erraram pelo universo.
Se isso não
é um chamado à unidade, eu não sei o que é.
Pare por um
instante e imagine: a água que corre nas torneiras de sua casa, a água que
molha a terra onde você pisa, a água que escorre do rosto de alguém que chora
ao seu lado – é a mesma. A mesma substância que esteve nos olhos de sua avó, na
transpiração de um trabalhador anônimo, no batismo de uma criança, na ablução
de um muçulmano antes da oração.
A água nos
une porque ela não pergunta quem somos. Ela simplesmente nos atravessa, nos
sustenta e nos recolhe.
E se hoje eu
pudesse deixar um convite para você, seria este: lembre-se da água dentro de
você. Quando você olhar para outra pessoa, pense na água que habita o corpo
dela. É a mesma que habita o seu. Não importa se vocês discordam sobre
política, sobre Deus, sobre o sentido da vida. A água não discorda. A água
flui.
Somos todos
feitos do mesmo céu líquido. Somos cometas temporários vestidos de pele. E no
ciclo da água – desse ciclo que nunca para – nós permaneceremos juntos. Vivos
ou mortos, unidos.
A água nos
une. E vamos desenhar o ciclo da água com a gente dentro dele.



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