quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A natureza tem uma ótima maneira de estocar água



Água subterrânea alimenta rios
 É crescente o número de municípios que  sofre crises no abastecimento de água. Em tempos de variabilidade climática e de imprevisibilidade no padrão de chuvas, tais crises se tornam mais frequentes e graves.
Dispor de reservas de água capazes de abastecer as necessidades humanas em periodos de seca é fundamental para a segurança hídrica local. Prover água de forma segura e permanente demanda estocá-la, gerir bem o estoque  e distribuí-la de modo eficiente. Estocada, ela se torna uma poupança valiosa. Para isso, a capacidade de planejamento e gestão precisa ser aprimorada.
 Ela pode ser acumulada em reservatórios e barramentos de água superficial e distribuída por meio de infraestrutura hídrica – dutos,  canais, transposições. Há também  a  forma mais natural de se estocar água: no solo. Ela chove, se infiltra e se acumula nos aquíferos, de onde brota em nascentes e alimenta os córregos, riachos e rios. Esse serviço hidroambiental é prestado gratuitamente pela natureza.
 Nas reservas subterrâneas, a água é filtrada no solo não saturado que retém parte de suas impurezas. Ela se acumula nos aquíferos freáticos de onde brota com qualidade muitas vezes melhor do que aquela que se infiltrou. Sua quantidade também é preservada, pois há menor evaporação do que nos reservatórios de superfície, especialmente em climas quentes e secos.
A proteção das áreas de mananciais e de recarga de aquíferos permite que a água de chuva se infiltre no solo e os reabasteça.
No Brasil, há exemplos inspiradores da importância de acumular água no subsolo para proteger mananciais. No século XIX, o imperador Pedro II  promoveu diretamente o reflorestamento da Floresta da Tijuca, que havia sido devastada para o plantio de café. Tal devastação ameaçava o abastecimento de água da capital do país, o Rio de Janeiro.  A intervenção do próprio imperador atesta a importância estratégica do tema. Esse é um exemplo positivo do que pode ser feito no Brasil em escala maior, para manter vivas as fontes de abastecimento.  Entre as boas práticas atuais nesse tema, destaca-se o Programa Produtor de Água que paga por serviços ambientais os produtores rurais que deixam de usar suas propriedades para outras finalidades e passam a priorizar a produção de água. Vários municípios brasileiros têm adotado esse modo para proteger suas fontes e uma condição essencial para tanto é que haja algum ator disposto a pagar por esse serviço ambiental. Companhias de águas estaduais ou municipais são grandes interessadas nos seus resultados. Outra iniciativa relevante é o programa Cultivando água boa, de Itaipu Binacional, voltado para a sustentabilidade hídrica, com ações socioambientais. Esse programa conserva os solos, reduz erosão, reduz o assoreamento e aumenta a vida útil do reservatório da hidrelétrica.
Há bons exemplos em iniciativas da sociedade civil tais como a  do Instituto Terra, que promove o plantio de árvores numa região devastada pela pecuária no vale do Rio Doce, com resultados expressivos em termos de retorno de nascentes que haviam desaparecido.
Programas de construção de barraginhas também são eficazes para reter água de chuva e permitir sua infiltração, ao invés de escorrerem em enxurradas.
Para a maior parte das 5500 cidades brasileiras e para milhares de distritos e propriedades rurais a formação de estoques de água no solo é uma solução ecológica natural, econômica  e factível tecnicamente.
Os municípios têm competências legais para atuar sobre o que se faz com o seu solo e dispõem de instrumentos tais como leis de ocupação do solo e os planos diretores, que precisam ser formulados de modo hidroconsciente. Hidratar o planejamento e a gestão municipal, ou seja, levar em consideração as questões da água, é um imperativo para se prover fonte segura de abastecimento em tempos de variabilidade climática.
A natureza tem uma ótima maneira de estocar água. Pode-se trabalhar a favor  das pessoas e da natureza aproveitando os serviços que ela oferece. Isso implica reconhecer, valorizar e proteger os serviços hídricos naturais prestados pelo ciclo da água e cuidar para que sejam mantidos.


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