quarta-feira, 6 de junho de 2018

Castas, uma abordagem ecológica


Anúncios classificados em jornais indianos -  procura-se noivo ou noiva - um dos critérios é a casta.
 Ilustração: Maria Helena Andrés, no livro Pepedro nos caminhos da Índia
Nas páginas de classificados em jornais indianos encontra-se grande quantidade de pequenos anúncios em que se procuram noivos ou noivas. Uma das principais informações ali divulgadas refere-se à casta de quem quer se casar e do seu possível par. A partir dali estabelecem-se as relações entre as famílias e realizam-se os casamentos.
Existe certa coerção social que desincentiva casamentos entre pessoas de castas diferentes.
O sistema de castas induz a um isolamento reprodutivo no qual membros de uma casta tendem preferencialmente a se casarem com outros indivíduos daquela mesma casta.
O isolamento reprodutivo está presente na especiação na natureza. A especiação é o processo evolutivo pelo qual as espécies vivas se formam e surgem novas espécies a partir de um tronco original. “A especiação se inicia quando uma subpopulação de uma espécie se isola geograficamente, altera o seu nicho ecológico ou o seu comportamento, de maneira que fique isolada reprodutivamente do restante da população daquela espécie.” (Wikipédia) Ela sofre mutações cumulativas que a alteram e alteram a sua relação com o meio.  A espécie humana aprendeu a usar o isolamento reprodutivo para criar espécies novas e para engenheirar certas características nessas espécies em função de seu interesse. Pratica a seleção biológica na pecuária e nas espécies animais de cães e gatos domesticados.  A criação de novas espécies a partir da mosquinha da fruta é um experimento famoso. Diane Dodd demonstrou a especiação por isolamento reprodutivo da mosca Drosophila pseudoobscura que ocorreu após apenas oito gerações usando diferentes tipos de alimentos.

Isolamento reprodutivo na natureza e surgimento de nova espécie
O sistema de castas hindu é como a experimentação biológica e genética de uma população humana sobre si mesma, não para criar uma nova espécie, como na especiação biológica, mas para promover a especialização funcional e profissional, a partir das vocações individuais. Por meio do isolamento reprodutivo e do aprendizado proporcionado pela proximidade cotidiana com pessoas que desempenham a mesma ocupação, o sistema de castas aceleraria a especialização funcional e a economia de recursos naturais.  
Em um artigo clássico sobre o  significado adaptativo do sistema de castas indiano a partir de uma perspectiva ecológica, Madhav Gadgil ( ver Ann Hum Biol. 1983 Sep-Oct;10(5):465-77.) observa que   A sociedade indiana é uma aglomeração de vários milhares de grupos ou castas endogâmicas, cada um com um alcance geográfico restrito e um modo de subsistência determinado hereditariamente. Essas castas reprodutivamente isoladas podem ser comparadas a espécies biológicas e a sociedade é considerada uma comunidade biológica, com cada casta tendo seu nicho ecológico específico”. Nesse artigo ele examina as relações de nicho ecológico das castas que dependem diretamente dos recursos naturais e apresenta evidências  para mostrar que as castas que vivem juntas na mesma região organizaram seu padrão de uso de recursos de modo a evitar a excessiva competição para limitar os recursos. Assim, um determinado recurso vegetal ou animal em uma dada localidade era usado quase exclusivamente por uma dada linhagem dentro de uma geração de castas. Isso favoreceu a evolução cultural das tradições, garantindo o uso sustentável dos recursos naturais. Isso deve ter contribuído significativamente para a estabilidade da sociedade de castas da Índia ao longo de vários milhares de anos. O colapso da base de recursos naturais e a crescente monetarização da economia, entretanto, destruíram a complementaridade anterior entre as diferentes castas e levaram a crescentes conflitos entre elas nos últimos anos.”
(Este texto é parte de um conjunto sobre o tema das castas, a ser publicado em série)


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