terça-feira, 5 de junho de 2018

Sapiens e Homo Deus




Controvérsias cercam o tema de como a história deve ser ensinada.  Quando eram discutidos no Brasil em 2015 os conteúdos da Base Nacional Comum curricular – BNCC  uma das disciplinas mais controversas foi a da Historia. Debates acalorados opunham uma historia ensinada a partir da origem europeia do Brasil, com  visões que valorizavam a importância da contribuição ameríndia ou africana.
Incomodado com a falta de menção às questões ecológicas, escrevi na época dois artigos, um sobre a ecologização do ensino da historia e outro que articulava a historia humana no contexto da historia natural. Da história pessoal à do universo, há várias formas de narrar os fatos e suas versões. Realçam-se alguns aspectos, em função de interesses e desejos, ao passo que se desvalorizam outros. A narrativa histórica é seletiva, recorta alguns fatos, dá menos visibilidade a outros.
Para além da história do homem – com toda a diversidade de percepções do que seja o gênero Homo, a da espécie se embrenha na história natural, com suas explicações evolucionistas, com o criacionismo bíblico cristão e os demais mitos de criação de outras tradições ancestrais. Na história natural também se multiplicam polêmicas que opõem visões cientificas a visões religiosas.
As escalas temporais com que se trabalha na história natural são de bilhões ou milhões de anos, enquanto que na história das civilizações humanas essa escala se estende por alguns milhares de anos. As mudanças climáticas são processos que duram milhares de anos, mas se aceleram em períodos de transição entre eras  geológicas.
As histórias nacionais, a história da vida humana, a história da vida, estão inseridas num contexto maior, da história do planeta, com suas variações climáticas, com seus grandes eventos de extinções, com as grandes eras, idades, períodos, épocas, estudados na historia geológica do planeta. Essa, por sua vez está inserida  numa visão cósmica, como mostra o astrônomo Carl Sagan em O pálido ponto azul.
Conectam-se então a história nacional, a história mundial da humanidade, a história ambiental, a história natural. Uma história que transite do estado-nação ao planeta e ao cosmos. No antropoceno, faz sentido ecologizar e superar visão antropocentrada da história, reconectar a  evolução da espécie e a da natureza. No antropoceno, faz sentido evoluir para uma visão ecocêntrica  e cosmocêntrica. Faz sentido  tomar consciência de uma história que ajude a enfrentar os desafios da dinâmica acelerada de transformações no ambiente no século XXI.
Tendo refletido e escrito sobre  o tema, foi com satisfação que li os dois livros de Yuval Noah Harari, Sapiens( L&PM) , e Homo Deus, publicado pela Companhia das Letras em 2015. No primeiro, ele trata a historia humana a partir da perspectiva da espécie, articulando-a diretamente com os processos naturais da própria evolução biológica. No segundo, ele se permite um salto prospectivo a partir do antropoceno, a época atual em que nossa espécie se tornou dominante, em que acelera a historia , em que as questões da consciência, do conhecimento e da informação se tornam primordiais. Ele aborda o transhumanismo, os robôs, androides, as próteses que fundem homem e maquina, a inteligência artificial e a nova religião do dataísmo, na qual acumular e processar muitos dados é a base para induzir a própria evolução.

Yuval Noah Harari dedica o livro Homo Deus a seu professor S.N.Goenka, que com afeto lhe ensinou coisas importantes. Trata-se de um conhecido guru indiano. Na raiz do pensamento de Harari há elementos da cosmovisão indiana, talvez a civilização que tenha melhor articulado historia humana e historia natural. Uma cosmovisão que compreende o ser humano como corpo , mente, emoções, alma e espírito e que não o reduz a sua dimensão material ou física. Uma cosmovisão que expande a noção do tempo para os grandes ciclos ou yugas e que o compreende ciclicamente, com a roda das varias vidas e encarnações . Uma cosmovisão politeísta que sacraliza a natureza, bichos, plantas, aguas e que não nega ou subvaloriza a dimensão espiritual.

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