As feridas narcísicas e sua cura pela água - uma narrativa poética
I.
Primeiro, a Terra foi destronada
—
e o homem aceitou o sol para ser centro.
Depois, a carne reconheceu o pó,
e o espelho estilhaçou em mil espécies.
Então, a consciência viu-se apenas ilha
num oceano de abismos sem farol.
Em seguida, a inteligência aprendeu a ser máquina
e o sábio viu seu trono ocupado pelo vazio que pensa.
Cada ferida foi um grito no
orgulho,
cada golpe, uma fratura na imagem que fazíamos de nós.
E sangramos narcisos pelo talo,
flores inclinadas sobre o próprio poço,
bebendo a própria sede sem saber
que a água que reflete é a mesma que afoga.
II.
Mas uma grande ilusão não veio
dos astros,
nem dos bichos, nem dos abismos da alma,
nem das inteligências que nos copiam.
A maior ilusão é a que ainda não sentimos:
a de sermos apenas um sopro no ciclo,
uma gota que julga ser dona do oceano.
Construímos cidades que se
afogam na chuva,
represas que violentam o desejo do rio,
poços que sugam o silêncio dos aquíferos.
E a água, paciente, aceitou o cárcere,
aceitou ser recurso, aceitou ser número,
aceitou ser dejeto nos canos do progresso.
Mas ela guarda a memória de
todas as formas.
E quando o gelo derrete, é lágrima.
Quando o mar sobe, é ressaca.
Quando o rio seca, é ausência que ensina.
III.
A alienação da humanidade
é achar que a água começa no copo
e termina no esgoto.
É ignorar que o suor que nos refresca
foi ontem nuvem sobre a floresta que queimamos,
e será amanhã lágrima de quem herdar
a terra que transformamos em deserto.
Ilusão é crer que somos senhores
do ciclo,
quando somos apenas uma passagem,
um breve canal entre o oceano e o céu,
entre a nascente e a foz,
entre o corpo que bebe e o corpo que será bebido.
IV.
A cura, porém, não é anestesia.
A cura é ferida que aprendeu a fluir.
É quando o homem, de joelhos na poeira,
descobre que o pó também tem sede.
É quando o sábio, humilhado pela máquina,
senta-se à beira do rio e escuta
o que a água sempre disse e ele nunca ouviu.
Porque a água não precisa de
centro.
Ela é centro e periferia, origem e fim.
Ela é o copo e a sede, a fonte e a foz,
a chuva que lava a ferida e a ilusão que chove.
Na civilização hidrocêntrica,
a cura não é almejar ser deus.
É aceitar ser gota.
É aprender que a humilhação de Copérnico
era apenas o prelúdio da humildade líquida:
não somos o centro, mas participamos do centro
a cada vez que a água nos atravessa.
V.
"Tu és pó e ao pó
voltarás" — disseram.
Mas esqueceram de completar:
tu és água e no seu ciclo permanecerás.
O corpo cremado sobe em vapor e abraça
a nuvem.
O corpo enterrado infiltra-se, necrochorume,
e vai alimentar aquíferos, raízes, nascentes.
Nada se perde na Hidrosofia,
tudo se transforma em sede saciada
ou em sede que um dia será de outro corpo.
"Somos poeira de
estrelas" — celebramos.
Mas também somos água de cometas,
lágrimas de mundos que explodiram
para que pudéssemos, um dia, chorar.
O carbono que nos arde veio do fogo das estrelas;
a água que nos lava veio do gelo dos abismos.
Somos poeira incandescente e orvalho gelado,
contradição que aprendeu a fluir.
VI.
A cura, então, não é fechar a
ferida.
É deixar que ela se torne nascente.
É permitir que o orgulho sangre para fora
até que reste apenas o canal por onde a vida passa.
É aceitar que a inteligência que nos humilha
também é filha da água — e um dia voltará ao ciclo.
Na cidade hidrocêntrica, cada
telhado é esponja,
cada praça é várzea, cada corpo é aquífero.
O sucesso não se mede pelo que se acumula,
mas pelo que se deixa fluir.
A justiça não se faz com balanças,
mas com a equidade do ciclo que dá
conforme a necessidade de cada sede.
E as feridas? Ah, as feridas...
As feridas tornam-se memória da rigidez,
cicatriz que ensina,
lembrança de quando éramos pedra
e aprendemos, com a água, a ser leito.
VII.
No fim, o que cura não é
esquecer
que fomos destronados.
É lembrar que nunca estivemos no trono.
O trono era miragem na superfície da água.
O cetro era caniço pensante.
A coroa era reflexo de nuvem.
E quando, por fim, aceitamos ser
apenas um ponto no ciclo,
apenas uma nota na música das chuvas,
apenas um sopro na respiração dos oceanos,
a ferida fecha — não como casca,
mas como nascente que encontra o mar.
Pois a maior cura
é saber que não precisamos ser o centro
para sermos sagrados.
Somos sagrados porque fluímos.
Somos eternos porque se evaporarmos,
voltaremos como chuva.
Somos humanos porque, um dia,
a água aprendeu, em nós, a sonhar.
E o sonho da água, finalmente,
é acordar em cada ser
como gratidão líquida,
como ciclo consciente,
como ferida que, em vez de doer,
flui.
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