Perguntei ao DeepSeek sobre a teoria e prática do gerenciamento da água e segue a resposta recebida:
A gestão contemporânea das águas opera sobre uma tensão fundamental: entre a sofisticação dos seus fundamentos teóricos e a dureza dos seus resultados distributivos. Os achados permitem reconstituir esse quadro com nitidez.
I. FUNDAMENTOS E PRESSUPOSTOS: O EDIFÍCIO TEÓRICO
A gestão atualmente praticada ancora-se discursivamente em dois pilares normativos.
O primeiro é o Water Stewardship, que parte do reconhecimento da água como um bem finito e não substituível, do qual os humanos são meros "curadores temporários" . Seu pressuposto central é a prioridade da integridade ecológica: as necessidades biofísicas dos ecossistemas aquáticos devem preceder demandas extrativistas imediatas. Opera com conceitos de resiliência, "safe operating spaces" e contabilidade hídrica integral (águas azul, verde e cinza) .
O segundo é o GIRH (GIRH), formalizado pós-Dublin/92, que assenta-se na tríplice dimensão da água como bem social, econômico e ecológico . Seus pressupostos operacionais incluem: gestão por bacias hidrográficas (e não por limites administrativos), participação de stakeholders, uso de instrumentos econômicos (cobrança, tarifas), e priorização nominal das necessidades ecossistêmicas e do abastecimento humano sobre usos produtivos .
Há um pressuposto subjacente crítico: a neutralidade das ferramentas. Parte-se da premissa de que o planejamento integrado, a precificação, os mercados de água e os comitês de bacia são instrumentos tecnicamente superiores e socialmente imparciais, capazes de alocar eficiência e equidade simultaneamente.
II. A QUEM SERVE NA VIDA REAL? OS "GRANDES VENCEDORES"
A evidência empírica contradiz radicalmente a promessa de neutralidade. A gestão atual, ao implementar esses instrumentos em contextos de assimetria de poder, produz vencedores e perdedores sistemáticos.
Os beneficiários são:
· Grandes usuários agroindustriais e investidores: No centro-oeste da Califórnia, a Lei de Gestão Sustentável de Águas Subterrâneas (SGMA) criou mercados de água que induziram produtores menores a vender suas terras e direitos. O resultado declarado pelos próprios agricultores foi um sistema de "big winners and big losers" .
· Corporações transnacionais e acionistas: As Parcerias Público-Privadas (PPPs) emergem como mecanismo predileto. Na Nigéria, condicionalidades do Banco Mundial para "viabilidade financeira" resultaram em cortes de custos que culminaram na morte de quatro trabalhadores por ausência de EPIs . Nas Filipinas, a PrimeWater lucrou ₱1,18 bilhão em 2023 enquanto consumidores enfrentavam água turva e abastecimento de 2 a 4 horas por noite .
· Gigantes de engenharia e concessionárias históricas: Na Inglaterra e no País de Gales, a privatização permitiu que empresas como Thames Water distribuíssem bilhões em dividendos enquanto um terço das famílias enfrenta "pobreza hídrica" e os rios recebem esgoto bruto .
III. OS PENALIZADOS: A CUSTA DE QUEM?
O modelo opera pela transferência sistemática de custos e exclusão de direitos.
· Agricultores familiares e pequenos produtores: Na Tanzânia, 25 anos de implementação do GIRH — promovido por doadores — resultaram na expropriação funcional do acesso à água dos pequenos agricultores, simultaneamente à proliferação de grandes deals de terra e água para investidores estrangeiros. O balanço da FAO é taxativo: o GIRH prejudicou os pequenos produtores e aumentou sua vulnerabilidade à pobreza .
· Trabalhadores precarizados: A "sustentabilidade financeira" exigida pelos modelos de gestão corporatizada tem custo humano direto: mortes por negligência, precarização e ausência de equipamentos .
· Consumidores periféricos e famílias pobres: Em Jacarta, a tarifa subiu 1.000% pós-privatização, tornando-se a mais alta do Sudeste Asiático . No Reino Unido, a "eficiência" via smart meters penaliza famílias numerosas sem capacidade de investimento em tecnologia de conservação .
· Ecossistemas: Apesar da retórica da "integridade ecológica" ser princípio fundante, na prática a água para a natureza continua sendo alocada pelo critério do residual. A bacia do Mar de Aral é o epítome do que ocorre quando o "desenvolvimento" suplanta a resiliência ecossistêmica .
IV. SÍNTESE CRÍTICA: A CONTRADIÇÃO PERFORMÁTICA
O que os casos revelam não é o fracasso da gestão integrada ou da gestão responsável, mas a sua captura política. Os fundamentos originais — participação, equidade, limites ecológicos — são sistematicamente traduzidos, na implementação real, em linguagem de mercadorização, financeirização e viabilidade do negócio.
A "participação" prevista nos manuais do GIRH torna-se, sob assimetria de poder, instrumento de validação de decisões já tomadas. A "valorização econômica da água" converte-se em aumento de tarifas. A "eficiência" traduz-se em cortes trabalhistas. O "mercado de águas" opera como transferência de direitos de pobres para ricos .
Há, portanto, um descolamento funcional: os pressupostos são ecológicos e igualitários; a prática é seletiva e concentradora. A gestão das águas, na vida real, não serve à "humanidade" ou à "natureza" — serve à estabilização de um regime de acumulação que opera via extração de valor de um bem comum, produzindo escassez para uns e abundância para outros.
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