quinta-feira, 12 de março de 2026

Hidratar a Alma do Mundo

 

Secos estão os velhos alfarrábios

onde a justiça é letra sem nascentes,
e a coragem, um grito entre escombros
de sistemas que esqueceram suas fontes.

Mas eis que um novo verbo se anuncia,
sussurrado na chuva que chega:
hidratar é a tarefa sagrada,
impregnar a ideia de essência fluida.

A sabedoria, antes tão árida,
agora aprende a curva do riacho,
percebe nas entrelinhas do aquífero
a linguagem que une o topo e o baixo.
O sábio é aquele que escuta a nuvem
e decifra o frescor do orvalho manso.

E a justiça? Já não é mais balança
de olhos vendados, fria e calculista.
É o ciclo que a todos abastece,
cada ser recebe conforme a sede,
cada um devolve o que não lhe cabe,
equilíbrio dinâmico e perfeito
que a água, em sua dança, sempre sabe.

A coragem se faz permeável,
não a força que quebra, mas a veia
que persiste no leito mais difícil,
desgastando a rocha que incendeia.
É a gota que pinga sempre no mesmo ponto,
não por teimosia, mas por saber
que a constância dissolve o que é opaco
e ensina a rocha a também florescer.

Temperança é a água no seu limite,
que conhece a borda, respeita o chão,
que nunca transborda para destruir,
mas umedece com moderação.
É o freio no poço, a mão que poupa,
a sede consciente que sabe parar
antes que o aquífero se esgote
e a fonte deixe de cantar.

A solidariedade ganha poros,
alcança os vales mais impermeáveis,
penetra em frestas, dissolve muros
com a paciência das águas incansáveis.
E a compaixão, solvente dos egoísmos,
trabalha lenta, sem fazer alarde,
desfaz as crostas da indiferença
e lava o mundo, gota a gota, cedo ou tarde.

Vem a gratidão, orvalho do espírito,
reverência pelo copo, pelo poço,
pela chuva que lava a alma antiga
e umedece o ressequido osso.
A responsabilidade, enfim, aprende
o princípio do ciclo integral:
cada ato é uma água que retorna
em forma de rio ou de vendaval.

Hidratar os valores é lembrar
que não somos senhores do que flui,
mas a própria onda que aprendeu a amar,
a própria sede que, em si, reconstitui
a memória do oceano primordial.

Que venha a era de valores vivos,
de princípios que correm como fontes.
Que a justiça seja rio, a paz, um ciclo,
e a ética, um mar de horizontes.

Pois hidratar o humano é, simplesmente,
deixar a água voltar para casa:
no corpo, na alma, no laço entre os seres,
nessa dança líquida que arrasa
toda a rigidez que um dia fizemos
e nos devolve, enfim, ao que somos:
expressão da chuva, netos da nascente,
florescendo apenas porque... bebemos.

 

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