segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Rumo ao homo oecologicus

 


Maurício Andrés Ribeiro

A perspectiva humanista, característica da modernidade, coloca no centro a espécie humana, seus direitos, demandas e desejos.  A visão humanista reflete a perspectiva do ser humano como o ápice da evolução.

Algumas tradições religiosas colocam o ser humano como o coroamento da criação, com mandato para dominá-la. O historiador da cultura Thomas Berry apontou as deficiências dessa cosmovisão: “Tanto nossas tradições religiosas como humanistas são primordialmente comprometidas com uma exaltação antropocêntrica do humano.”  

A perspectiva humanista tem sido crescentemente questionada, diante da constatação de que nossa espécie se tornou um grande fator de pressão sobre a natureza e da devastação, ao dizimar habitats, provocar a extinção de espécies e mudar o clima.

James Lovelock, autor da teoria de Gaia, é crítico da visão humanista, que teria levado a sobre explorar o planeta e a precipitar a atual crise hídrica, ecológica e climática. Ele considera que “A humanidade, totalmente despreparada por suas tradições humanistas, enfrenta seu maior teste”. Ele propõe que se priorize o bem-estar e a saúde do planeta, Gaia, tendo em vista que sua existência saudável é precondição para a vida humana e para todas as outras espécies.

A ecologia profunda, que tem uma abordagem distinta do ambientalismo superficial, também rejeita o humanismo. Atribui os problemas ambientais ao antropocentrismo, que procura preservar recursos para o uso pelo homem e não pelo valor intrínseco da natureza.

As respostas para a crise ecológica atual devem estar à altura das dimensões épicas das transformações pelas quais passa o planeta. Isso inclui uma mudança de perspectiva semelhante àquela adotada por Copérnico, que demonstrou que o sol, e não a Terra era o centro do sistema. Galileu sofreu por demonstrar essa realidade. Somos mais periféricos do que eles imaginavam, pois o sol é apenas uma estrela de quinta grandeza situada na periferia de uma das milhões de galáxias no universo.

Cabe à educação transcender a perspectiva humanista e adotar princípios e conteúdo que facilitem a transição para a era da evolução consciente do planeta. Thomas Berry propõe um papel para a educação: “O objetivo da educação não é treinar pessoal para explorar a Terra, mas apoiar os estudantes numa relação íntima com a Terra e estabelecer um caminho mais viável para o futuro.”

Para superar a atual crise  hídrica e da evolução cabe uma perspectiva pós-antropocêntrica. Nela, o ser humano ecologizado e hidroconsciente deixa de ser uma presença devastadora, para tornar-se uma presença benigna diante do mundo natural.  Ele pode tornar-se um cogestor consciente da evolução da Terra e de sua própria evolução. 

Migrar de um ângulo de visão antropocêntrico e humanista para uma perspectiva Gaiacêntrica, que coloca como ponto de partida a saúde do planeta,  demanda humildade e desprendimento. O Homo sapiens não é o fim da evolução, mas é um ser em transição, como definiu Sri Aurobindo. Esse ser poderá ser sucedido por um ser trans-humano, pós-humano ou, numa perspectiva ecológica, eco-humano: o homo ecologicus.

Abolição de usos da água

Maurício Andrés Ribeiro 

No passado, quando a sociedade aceitava a escravidão, era necessário produzir os instrumentos e  equipamentos para subjugar os escravos: gargalheiras, troncos, chibatas, correntes, algemas, pelourinhos. Cada um desses objetos demandava uma quantidade de água para ser produzido.

No passado, quando se aceitava a tortura, era necessário produzir instrumentos para essa finalidade, como as forquilhas, parafusos, chicotes, garrotes etc e aplicar as práticas  como os afogamentos.  Era necessário usar água para produzir tais instrumentos ou  práticas. Quando a tortura deixou de ser socialmente aceitável,  deixou de ser necessário usar água para essas finalidades. Abolir a tortura e a escravidão aboliu também a demanda por uma parte da água que era então consumida.

Na medida em que as sociedades evoluem, mudam as demandas e as necessidades  de uso da água. Alguns usos são abolidos junto com as práticas que os demandavam, outros caem em desuso.

Ao longo do tempo surgem, por outro lado, novas demandas de uso da água. Atualmente há outras atividades humanas, como as guerras, que demandam grande quantidade de água para  a fabricação de tanques, aviões e navios de guerra, submarinos, armamentos de todo tipo. Enorme quantidade de água é demandada para produzir tais objetos bélicos. Caso as guerras fossem abolidas, deixaria de ser necessário o uso de grandes quantidades de água, que poderiam ser liberadas para outras utilizações ou para a proteção e conservação.

Do mesmo modo, caso se mudassem as dietas alimentares, de hábitos carnivoristas para outros mais vegetarianos, veganos, grandes quantidades de água deixariam de ser necessárias para  irrigação, uso em frigoríficos, matadouros, lavagens de resíduos etc e poderiam ser liberadas para finalidades social e ambientalmente menos impactantes.

O consumismo, o viajismo, o belicismo, o carnivorismo estão presentes na sociedade contemporânea e merecem uma abordagem crítica para que sejam reduzidos ou abolidos, do mesmo modo como no passado a escravidão e a tortura foram questionadas e abolidas depois de lutas e embates.

Hoje a sociedade se encontra diante de situações em que é necessário usar a água de modo responsável, parcimonioso, frugal, austero. É necessário não a desperdiçar em usos que não sejam os socialmente prioritários. Uma sociedade que se dispusesse a rumar para uma melhor qualidade de vida para todos deveria escolher que atividades, bens e serviços deve proporcionar e usar a água prioritariamente para tais finalidades. 
Trata-se de escolhas, definições e diretrizes que as sociedades precisam tomar e que repercutem direta ou indiretamente sobre as demandas por água.

No contexto da mudança do clima e da crise ecológica e hídrica, está na hora de levantar tais questões e colocá-las para a reflexão e o debate social, ético, econômico e político. Uma vez feitas tais escolhas ou definições, os gestores das águas teriam um balizamento mais claro sobre como aplicar a cobrança pelo uso da água, que desincentiva seu desperdício, ou a outorga de direitos de uso, que ajuda a reduzir conflitos, o planejamento de recursos hídricos e os demais instrumentos de que dispõem para bem usar ou proteger o patrimônio hídrico.

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

UTILITARISMO E HIDROÉTICA

 Maurício Andrés Ribeiro 

Mas pra que
Pra que tanto céu
Pra que tanto mar,
Pra que
De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem

Tom Jobim

 

Na perspectiva utilitarista, a natureza é um objeto para ser usado e consumido, com seus recursos minerais, sua água, os vegetais e animais, atendendo aos desejos, à demanda e à voracidade do ser humano. Na sociedade utilitarista, a água é valorizada por suas possibilidades mercadológicas e para exploração comercial. Cientificidade e tecnicismo predominam. Adota-se uma abordagem pragmática e ela é percebida como um recurso a utilizar, a ser apropriado privadamente e sua utilidade publica fica em segundo plano.

No mundo contemporâneo, prevalece a força das corporações e empresas internacionais e o valor de troca da água se impõe a ferro e fogo sobre o valor simbólico que é caro aos povos indígenas e a populações tradicionais.

A relação com essa coisa – a Terra objeto - é objetiva, sem afeto, pragmática. Nesse tipo de relação, a principal questão deixa de ser a do sentido: o que significa? – para se tornar a da utilidade: para que serve? Que serviços presta? Se é inútil e não serve para nada, não tem valor de uso. Não é funcional, não contribui para o conforto material e portanto não é valorizada.

O utilitarismo subestima o valor dos serviços ambientais prestados gratuitamente pela natureza, tais como a regulação do clima, a produção de água e outros processos fundamentais para sustentar a vida. Manter ecossistemas intocados, espaços protegidos, templos naturais conservados é visto por aqueles com visão utilitarista como uma absurda renúncia ao desenvolvimento econômico e ao usufruto das riquezas naturais, a renúncia do ser humano à felicidade e ao conforto material. Nas artes, a postura utilitarista que coisifica a natureza levou a se associar a beleza à utilidade e a defender que o útil é o belo.

A perspectiva utilitarista e pragmática confronta-se com limites éticos.  O bom nem sempre é o útil, apontou o sábio indiano Sri Aurobindo: “Há somente uma regra segura para o homem ético, alinhar-se ao seu princípio do bem, seu instinto do bem, sua visão do bem, sua intuição do bem, e governar assim sua conduta. Ele pode errar, mas estará no seu caminho, a despeito de todos os tropeços, porque será fiel à lei de sua natureza. A lei da natureza do ser ético é a busca do bem; não pode nunca ser a busca de utilidade.”

Nessa perspectiva crítica se coloca o Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais – MAUSS que questiona a abordagem de considerar a natureza como objeto a serviço do ser humano. O MAUSS advoga uma relação contemplativa e uma ética do não consumo. 

A crítica ao utilitarismo vem também de uma voz indígena.   Escreve Ailton Krenak[1] que “os povos originários ainda estão presentes neste mundo não porque foram excluídos, mas porque escaparam, é interessante lembrar isso. Em várias regiões do planeta, resistiram com toda força e coragem para não serem completamente engolfados por esse mundo utilitário... Escapar dessa captura, experimentar uma existência que não se rendeu ao sentido utilitário da vida, cria um lugar de silêncio interior. Nas regiões que sofreram uma forte interferência utilitária da vida, essa experiência de silêncio foi prejudicada.” (pg 111) 

Para Ailton Krenak, “A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária. Por que insistimos em transformar a vida em uma coisa útil?” Ele continua :”Nós estamos, em nossa relação com a vida, como um peixinho num imenso oceano, em maravilhosa fruição. Nunca vai ocorrer a um peixinho que o oceano tem que ser útil, o oceano é a vida. Mas nós somos o tempo inteiro cobrados a  fazer coisas úteis.”

A ética utilitária busca o crescimento econômico e o bem estar material; já a ética autóctone defende seus lugares sagrados e apenas secundariamente busca o crescimento econômico. Numa cosmovisão, a água é um recurso econômico; noutra, ela é um patrimônio ecológico e espiritual.

O grande desafio para implementar uma política de águas é ético e espiritual: transformar uma relação agressiva e utilitarista em uma postura amigável, de cuidado e de reverência para com ela.  Nesse contexto, cabe desaprender conceitos e visões de mundo, descondicionar a consciência de seu viés utilitarista e fortalecer o valor da  proteção e da frugalidade.  A demanda por água, se descontrolada e desregulada, se não balizada por limites técnicos e éticos, pode levar a sua exaustão e fazer com que desapareça e se torne escassa, prejudicando a vida e a qualidade de vida. A postura utilitarista enxerga a água como um recurso, sem questionar o uso que  é feito dela.
 

A legislação brasileira é diferente de outras legislações, como a europeia, por exemplo, que enfatiza a importância ecológica da água como um patrimônio a ser protegido. O viés utilitarista da lei brasileira precisa ser contrabalançado com uma valorização da água por seu valor ecológico.



[1] Krenak,Ailton Avida não é útil  Companhia das Letras, São Paulo, 2022. Pgs 108 e 111.

 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

GERENCIAMENTO INTEGRAL DO CICLO DA ÁGUA

Maurício Andrés Ribeiro

 


Figura: Fonte USGS. É possível gerenciar integralmente o ciclo da água?


O gerenciamento das águas de superfície é uma tarefa difícil e complexa que depende de conhecimentos técnicos, domínio de instrumentos de ação, capacidade de articulação entre níveis de governo e com a sociedade e integração de sistemas  de informação.

O gerenciamento das águas subterrâneas tem as mesmas complexidades, acrescidas do fato de que é mais difícil detectar a sua presença e conhecer a sua dinâmica.

O gerenciamento integrado de águas superficiais e subterrâneas soma mais complexidade técnica, política e administrativa.

Praticamente todo o volume de água do planeta – nos oceanos, na atmosfera, no permafrost, no gelo, nos seres vivos encontra-se fora do alcance da gestão das águas, que atualmente prioriza a gestão das águas doces superficiais e secundariamente as subterrâneas.

  

Neste texto, proponho que se enfrente o gerenciamento integral do ciclo da água, que inclui as águas atmosféricas. As águas atmosféricas correspondem a apenas 0,04% do volume total de agua no planeta, mas uma pequena variação desse volume traz grandes impactos e eventos climáticos extremos. A evaporação dos oceanos, das florestas, das águas superficiais aumenta com o aumento da temperatura global.  

A gestão integral do ciclo vai além da gestão integrada de recursos hídricos superficiais e subterrâneos. Ela agrega uma complexidade e uma dificuldade ainda maior aos já enormes problemas envolvidos com o gerenciamento integrado das águas subterrâneas e superficiais. 

Uma gestão do ciclo integral envolve todos os aspectos, desde a água na atmosfera, as nascentes, a proteção florestal e o uso do solo. Uma abordagem holística e transdisciplinar considera o ciclo integral, inclusive sua fase meteórica ou na atmosfera, pois cada vez mais a gestão de recursos hídricos está dependente do clima e de suas variações.  Tal gestão considera as interconexões entre o que ocorre quando ela escorre superficialmente, se infiltra nos solos e forma os lençóis subterrâneos e  quando se encontra em estado meteórico, no vapor na atmosfera.

A gestão integral do ciclo considera todas as suas formas de presença na natureza: sólida, líquida, gasosa; meteórica, superficial e subterrânea. Ela exige uma compreensão ampla desse ciclo.

 A caixa de ferramentas da lei de recursos hidricos é insuficiente para  lidar  com a gestão integral do ciclo da água.

É necessário um grande conjunto de ferramentas que vai muito além desses instrumentos legais e que estão presentes em outras políticas, como a do meio ambiente, do saneamento, da segurança de barragens, do ordenamento territorial, das mudanças climáticas, do patrimônio natural, das unidades de conservação, da educação ambiental, entre outras.

Neste ano de 2024, muitos eventos climáticos extremos se precipitaram: enchentes no Rio Grande do Sul, incêndios no Brasil, Bolívia, na África, em Portugal e na Califórnia; furacões na Flórida, seca nos rios da Amazônia; chuvas no Saara, esverdeamento da Antártida e muitos outros.Neste ano, no mundo todo e no Brasil, intensificaram-se os eventos climáticos de enchentes, inundações, secas e queimadas, nas quais o excesso e a escassez de água são componentes centrais.

 Existe maior percepção e consciência sobre a importância das águas na forma de vapor, nas nuvens, rios voadores e outras denominações para designar essa parcela do conjunto das águas no planeta, que influencia crescentemente a vida, a economia, os desastres que afetam de modo mais impactante as populações vulneráveis, os ribeirinhos, os pescadores, o transporte hidroviário, a geração de energia hidrelétrica  todos os  campos da sociedade e setores da economia que são direta ou indiretamente relacionados com as águas.

A gestão integral do ciclo da água depende de uma boa articulação federativa entre o nível federal, os estados e municípios,  a partir de dados e informações compartilhados. Numa federação, cada ente tem suas responsabilidades. A chuva chove nos municípios, pois ela cai no território da bacia e quem cuida do uso e ocupação do solo são os municípios. Depois ela escorre para riachos e córregos estaduais e algumas vezes chega a rios federais. Quando ela infiltra no solo passa a ser de domínio dos estados, que gerenciam as águas subterrâneas. Enquanto está na atmosfera, ninguém é responsável pelo seu gerenciamento.

Para se lidar de modo integral com a gestão do ciclo, é relevante reduzir as demandas nas diversas atividades econômicas, especialmente o consumo pelo usuário que mais a utiliza, a agricultura irrigada.  Isso implica em inovar em tecnologias e em atuar sobre a economia para reduzir as demandas excessivas que causam estresse hídrico, sobre a cultura e os hábitos alimentares e de vida.

A gestão do ciclo de vida das águas articula seu planejamento e gestão numa perspectiva de longo prazo. Ela compartilha dados e sistemas de informação. Requisito importante para se tornar realidade é evoluir dos estudos técnicos especializados e dos conhecimentos da hidrologia como atualmente praticada, para  a perspectiva de uma hidrologia integral, transdisciplinar, e daí para a Hidrosofia, ou seja, lidar com a água com sabedoria.

A Amazônia oferece um laboratório prático para se testar globalmente  a gestão integral do ciclo da água. Um dos modos de  incluir as aguas atmosféricas na gestão é proporcionar os meios para que a floresta continue a existir e que os rios voadores continuem a prestar os seus serviços ecossistêmicos.

Ao mesmo tempo expandimos a visão, para além do enfoque utilitarista associado aos conceitos de recursos hídricos,  e contemplamos a importância da proteção das águas num enfoque mais holístico e transdisciplinar e isso demanda o uso de instrumentos de ordenamento territorial, uso e ocupação do solo, proteção de unidades de conservação e do patrimônio natural.

O gerenciamento do ciclo integral das águas é um projeto potencial e virtual que se inicia com a hidratação das mentalidades, da sociedade, da economia, para que a civilização se torne hidrocêntrica, supere a hidroalienação e valorize a hidroconsciência.

O gerenciamento integral do ciclo da água é uma missão impossível, um objetivo utópico? Preferimos acreditar que é um ideal e uma meta  que progressivamente dá seus primeiros passos. Há uma longa caminhada pela frente para que ele se realize.

ATENDIMENTO A EMERGÊNCIAS HÍDRICAS

 Maurício Andrés Ribeiro

 

Numa emergência médica, o paciente vai para um pronto socorro onde recebe os primeiros cuidados. Sendo grave o seu estado, ele é internado numa Unidade de Tratamento Intensivo- UTI onde é monitorado com aparelhos sofisticados e atendido por médicos  especializadas. Quando o paciente melhora, é levado para uma unidade de tratamento semi-intensivo e depois para um quarto. Quando recebe alta, vai para casa e lá continua seu tratamento.

Nas emergências hídricas, na iminência de um colapso no abastecimento, o pronto socorro é feito pelas salas de crise.

Salas de crise são espaços para encontros híbridos, virtuais e presenciais, nos quais participam os principais atores e instituições relacionados com a gestão da água numa bacia que entrou em estado crítico, seja por falta ou excesso. Elas são criadas quando se acendem sinais de alerta ou alarme nos dados de chuva e vazão  que são coletados sobre as bacias brasileiras. Desde que foram criadas,  centenas de reuniões foram realizadas em salas de crise e acumulou-se experiência em lidar com os eventos críticos e em resolver conflitos. São  eficientes  para a o tratamento de emergências e urgências.

As Salas de crise  atuam com um horizonte temporal que inclui os próximos dias ou semanas em função da situação conjuntural e das  circunstâncias do momento. Elas trabalham com horizontes mais curtos do que os planos de bacia, que  tratam de um horizonte de anos.

Em função dos principais problemas encontrados em cada bacia hidrográfica, reúnem-se os principais atores. As abordagens variam, conforme as características de cada bacia: em alguns casos é necessário mudar a operação de reservatórios para liberar ou reter água (São Francisco, Paraná, Tocantins). Em outros casos, lida-se com aas secas e as enchentes (rio Madeira, Pantanal) e suas consequências, como por exemplo a interrupção de rodovias ou os incêndios florestais.

 As salas de crise se baseiam em nivelamentos de informações qualificadas. O CEMADEN- Centro nacional de aleta de desastres, com sua visão interdisciplinar e aplicada, apresenta  as perspectiva para os próximos dias. O ONS -Operador nacional do sistema elétrico - apresenta como os reservatórios estão sendo operados nos vários subsistemas regionais no Brasil e o quanto de energia está sendo exportada ou importada de um sistema para o outro . O INEMET -Instituto Nacional de meteorologia faz previsões do tempo para os próximos dias e semanas a partir de modelos europeu americano e outros. Fazem-se previsões climáticas, perspectivas de chuvas, chegada de frentes frias, num horizonte de 15 dias, mais previsível. Na medida em que se aprimoram os modelos climatológicos e meteorológicos as previsões tendem a se tornar mais precisas e reduzem-se as imprevisibilidades.

A base de informações de boa qualidade é o elemento fundamental para a partir dele se construírem os consensos necessários. No início de  cada reunião das salas de crise são expostos com objetividade os dados e informações relacionados com a chuva e a vazão naquela bacia nos próximos meses. Esse nivelamento prévio de informações entre os participantes oferece um patamar comum a partir do qual podem-se propor os modos de solucionar os problemas diagnosticados.  Fala-se em linguagem técnica: modelagens, curvas de segurança, afluências e defluências, modelo curva-vazão, afluências incrementais, evaporação em reservatórios. Apresentam-se gráficos, mapas, modelos, cenários climatológicos, meteorológicos e previsões.  Fala-se em energia armazenada e energia excedente, região importadora de e exportadora de energia, fechamento e abertura de comportas em reservatórios. Simulações, vazão prevista, política de defluência, perspectiva de evolução do volume do reservatório e todo um vocabulário de hidrologuês.

Enquanto há  emergências, a frequência de reuniões precisa ser maior, diária ou semanal pois a agilidade é essencial para enfrentar situações mais graves. Quando passa o período crítico, a sala de crise se transforma numa sala de acompanhamento. É quando a bacia sai da UTI e vai para um tratamento semi-intensivo, com monitoramento para acompanhar seu estado de saúde.

Tanto nas salas de crise como nas de acompanhamento a água em estado meteórico, na atmosfera é uma informação crucial. A água na atmosfera é o elemento fundamental nessas analises e informações pois ela influi nas águas superficiais, nas cheias e secas. Compreender a água na atmosfera é uma ciência cada vez mais estratégica.

Nas salas de crise não há proposta de interferir com geoengenharias ou hidro engenharias  na quantidade de água na atmosfera, bombardeamento de nuvens etc. As salas  de crise foram testadas durante anos e constituem uma experiência positiva em lidar com eventos críticos e com emergências hídricas.

PROJETO ESSE RIO É MEU

 Maurício Andrés Ribeiro

 


O projeto Este rio é meu é uma das iniciativas mais abrangentes e criativas que vem sendo realizadas de educação escolar para crianças e jovens. O projeto estimula o protagonismo infantil e estudantil, a partir de uma parceria da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, por meio das Secretarias de Educação e de Meio Ambiente,  com a OSCIP planetapontocom, dirigida pela educadora Silvana Gontijo e com empresa patrocinadora. O projeto se iniciou com ações no Rio Carioca,  no programa educacional Cidades, Salvem Seus Rios, que propõe uma abordagem educativa que envolve as escolas nos cuidados com os rios locais e dá protagonismo aos estudantes.

O projeto traz o tema dos rios para os processos pedagógicos de modo inter e multidisciplinar e integrado. As coordenações pedagógicas das escolas mobilizam os professores das diversas disciplinas e estimulam a aprendizagem em torno do rio existente nas vizinhanças dessas escolas. Projetos foram desenvolvidos no rio dos Macacos, no rio banana Podre, no rio Carioca, no rio Faria-Timbó,  no rio Acari, no rio das Pedras. Por serem rios urbanos que cortam áreas adensadas, muitos deles estão sujos, poluídos, canalizados e tornam-se destino de lixo e esgotos.  Em cada escola o projeto se adapta às situações locais. Presta-se atenção  ao rio e a percepção sobre ele ressalta seus problemas. A partir da constatação de qual é a relação das crianças e jovens com o rio urbano, são apresentados dados históricos e geográficos sobre ele. Em geral, o projeto realiza um resgate de história do rio, desenha uma linha do tempo e imagina qual o sonho dos participantes para o futuro do rio.

A alfabetização é baseada nas palavras relacionadas com o rio, os animais,  o entorno e a cultura da comunidade. As crianças aprendem com os movimentos comunitários existentes.  

As pesquisas sobre o rio suscitam questões e perguntas  sobre o que é foz, mata ciliar, tamanho da bacia, nascente. As perguntas são respondidas com visitas dos alunos em campo e a reflexão das crianças sobre os rios e sua situação. Realizam-se trabalhos sobre a variedade de situações encontradas: a limpeza dos rios e a questão do lixo, sobre os peixes; pesquisa-se a qualidade das águas e preserva-se a horta escolar.

Como o projeto se realiza simultaneamente em várias escolas no município, elas se reúnem para trocar experiências e aprendizagem. Promove-se a integração pedagógica entre escolas vizinhas numa mesma bacia e que trabalha sobre mesmo rio. A arte é crucial, com a apresentação de coral e músicas, bem como relatos sobre o trabalho. Produzem-se histórias sobre o rio com linguagem própria, em inglês  e em português. Compõem-se músicas sobre o tema e são construídas maquetes da bacia hidrográfica. Criam-se jogos didáticos com  abordagem lúdica e informações  são divulgadas em redes sociais.

A partir da consciência despertada, as escolas se engajam na preservação e recuperação dos rios, promovem o envolvimento das comunidades no entorno e assumem compromissos com o rio.  Produzem-se vídeos para comunicar e leva-se o resultado para os órgãos públicos tomarem providências. Há atuação junto às comunidades, com panfletagem, entrevistas com moradores antigos, divulgação em revista escolar, bem como gincanas de coleta de lixo, com parceria de empresa recicladora.

Desencadeiam-se ações para promover melhorias nos rios vizinhos. Fortalece-se o sentido de pertencimento e de  responsabilidade. Cartas são enviadas ao poder público,  solicita-se ajuda e ações do município, tais como a colocação de caçambas para lixo e de placas de sinalização para  identificar os rios urbanos. Foi proposto um projeto de lei municipal para sinalizar a localização dos rios subterrâneos e para  conscientizar sobre a limpeza dos rios. As melhorias reais trazidas por tais ações realimentam o processo educativo.

A partir da água se pensa sobre a vida e o cuidado do ser humano consigo mesmo e com  o próximo. É um processo de longo prazo e contínuo, um trabalho de formiguinha com efeito multiplicador.

Os relatos sobre as experiências educacionais em várias escolas em que o projeto foi implantado mostram expressivos resultados positivos inesperados. A divulgação é amplificada pelo trabalho de comunicação sobre o projeto, que estimula a mídia a cobrir as escolas e publica  periodicamente informações e matérias numa  revista. Com isso os estudantes e suas realizações saem da invisibilidade. Eles são estimulados a compartilhar e a querer mostrar o projeto. Os professores recebem formação em mídia educação, o que os habilita para serem  ativadores nos territórios em que atuam. Os estudantes aprendem a escrever ofícios, textos para divulgar em rede social, matérias jornalísticas e uma variedade de gêneros literários. Como as redações são feitas com um sentido prático e de ação, aumentaram a produção de textos e o interesse pela leitura e pela escrita.

ÁGUA E SUSTENTABILIDADE

 Maurício Andrés Ribeiro

A água se relaciona com todos e com cada um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

 


As Nações Unidas definiram 17 objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS) com propostas a serem atingidas numa Agenda para 2030.  Usualmente associa-se a água ao objetivo relacionado com água potável e saneamento (ODS 6). Entretanto, é limitante reduzir as questões da Água ao ODS 6, ou ao ODS 14, que trata da vida na água.

Por ser um tema transversal, ela está presente em maior ou menor medida em todos e em cada um dos demais objetivos do desenvolvimento sustentável. Prover água para todos contribui para a erradicação da pobreza (ODS 1); ela é um elemento essencial para erradicar a fome e para a agricultura sustentável (ODS 2), é vital para a saúde e bem-estar (ODS 3); a hidroalfabetização é essencial numa educação de qualidade (ODS 4); prover água perto da casa evita sobrecargas  para as mulheres e contribui para a igualdade de gênero (ODS 5); sua disponibilidade em reservatórios para geração hidrelétrica contribui para obter energia limpa e acessível (ODS 7); ela é essencial para o desenvolvimento econômico e o trabalho decente (ODS 8) e essencial também nas atividades hidro-dependentes na indústria e infraestrutura (ODS 9); a universalização do acesso a ela contribui para reduzir desigualdades (ODS 10); as cidades sensíveis à água são mais  sustentáveis e se adaptam melhor às emergências climáticas (ODS 11); a hidroconsciência  contribui para o consumo e produção sustentáveis (ODS 12); as ações de adaptação, inclusive em relação a eventos extremos envolvendo a água, são parte das ações contra a mudança global do clima (ODS 13). Ela é o meio natural para a vida na água (ODS 14) e é fundamental para a vida animal e vegetal terrestre (ODS 15); a prevenção, mediação e resolução de conflitos em torno da água são essenciais na construção da paz e da justiça e de instituições eficazes (ODS 16) e esse tema tão transversal e onipresente exige múltiplas parcerias e meios de implementação (ODS 17).

Uma abordagem holística, transdisciplinar e transversal do tema da água a relaciona com todos e com cada um dos objetivos do desenvolvimento sustentável definidos pela ONU na sua Agenda para 2030.