terça-feira, 24 de maio de 2016

Psicologia Yogue




A abordagem psicológica yogue é baseada numa visão ampla do que é o ser humano, com seus aspectos corporais, mentais, emocionais, espirituais. “Para cada conceito psicológico em inglês há quatro em grego e quarenta em sânscrito” observa A.K. Coomaraswamy[1], apontando para a importância e profundidade da subjetividade na civilização indiana.
O sábio indiano Sri Aurobindo explicita as diferenças entre a concepção ocidental e oriental do que seja a consciência: “A psicologia Yogue, como a moderna psicologia, é uma ciência empírica no sentido de que ambas são conhecimento baseado na experiência. Ambas empregam a observação e o experimento como seus métodos fundamentais. Entretanto, o campo da psicologia Yogue é muito mais vasto do que aquele da psicologia moderna, pois ele se estende para experiências e fenômenos que estão além da percepção dos sentidos físicos ou cognoscíveis pelo intelecto. ” [2]  
Ramos da psicologia ocidental, tais como a psicanálise, admitem a existência do inconsciente individual ou coletivo ou do subconsciente, mas negam a existência da supraconsciência ou da ultraconsciência. Nos primórdios do século XX, Sri Aurobindo  apontava as limitações de conceitos e práticas psicanalíticas:
“Eles (os psicanalistas) olham de baixo para cima e explicam as luzes mais altas pelas obscuridades mais baixas; mas a fundação dessas coisas (experiências espirituais) está em cima e não embaixo. O supraconsciente é o verdadeiro fundamento, e não o subconsciente. Não é analisando-se os segredos da lama de onde nasce a flor do lótus que explicamos sua existência. O segredo da flor do lótus está no arquétipo divino que floresce para sempre nas alturas, na luz. O campo auto-escolhido desses psicólogos é, além de pobre, escuro e limitado; você precisa saber o todo antes de saber a parte e o mais alto antes que possa entender verdadeiramente o mais baixo.”[3]

Figura 17 – O lótus se alimenta do lodo abaixo e da luz do sol acima.

Ken Wilber exalta a contribuição pioneira de Sri Aurobindo como “o primeiro grande filósofo-sábio a perceber profundamente a natureza e o significado da moderna ideia de evolução. Assim, em Aurobindo, nós temos a primeira grande afirmação de uma espiritualidade evolucionária que é uma integração do melhor da sabedoria antiga e do mais brilhante do conhecimento moderno. ” Ken Wilber continua: “O mundo permanece, para falar em termos bem gerais, dividido entre dois campos altamente contendores: aqueles que acreditam nas antigas tradições de sabedoria (e assim tendem a desconfiar completamente da noção moderna de evolução), e aqueles que acreditam na visão científica moderna da evolução (que dispensa completamente quaisquer noções do Espírito). Ambas essas visões são terrivelmente parciais e fragmentadas, mesmo que ambas clamem ter o caminho interno para a verdade. Mas como Aurobindo viu – provavelmente mais claramente do que qualquer outro antes ou desde então – a narrativa científica da evolução, que se baseia em nada mais do que a matéria suja e dinâmica e sistemas de processos (por exemplo, a teoria do caos, estruturas dissipativas longe do equilíbrio, autopoiese  etc) não pode nem começar a explicar as extraordinárias séries de transformações que  trouxeram a vida a partir da matéria e a mente a partir da vida, e que está destinada a fazer nascer, do mesmo modo, a mente mais alta, a supramente e a supermente: somente o Espírito pode responder pelo deslumbramento que é a glória da evolução.” (WILBER, in A.S.DALAL 2001)



[1] Citado por RUSSELL, Peter. Acordando em Tempo – encontrando a paz interior em tempos de mudança acelerada. São Paulo: WHH, Antakarana, 2006.

[2]  Sri Aurobindo, citado por A.S. Dalal in A Greater Psychology, Pg. 312

[3]  Sri Aurobindo, Letters on Yoga, SABCL vol. 24, pgs. 1608-1609, citado em A Greater Psychology, Pg. 307.

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